Blog do Desemprego Zero

A quem serve Giambiagi?

Posted by imprensa2 em 14 agosto, 2007

Escrito por Henrique Júdice CORREIO DA CIDADANIA 13-Ago-2007

Irritado pela identificação estabelecida por seus colegas Eduardo Fagnani e José Celso Cardoso Jr. (Folha de S. Paulo, 02/08/07) entre sua tese sobre o suposto déficit previdenciário e as aspirações de setores políticos conservadores, o economista Fabio Giambiagi, na edição de 08/08 do mesmo jornal, alardeia suas qualidades de democrata, faz mais algumas afirmações falaciosas a respeito do assunto e dirige ataques pessoais a seus críticos.

Não conheço Cardoso nem Fagnani, não tenho procuração para defendê-los e não me interesso pelo aspecto pessoal da questão que se estabeleceu entre eles e Giambiagi. No entanto, alguns pontos dessa questão são de interesse público. Isto vale não só para aqueles relacionados à situação financeira do Regime Geral de Previdência Social mas também para os que se referem à identificação dos segmentos interessados na propagação da idéia de sua insustentabilidade sob as regras atuais.

Giambiagi parece particularmente incomodado pela qualificação de “porta-voz de setores conservadores organizados” que atribui a uma suposta vocação de seus colegas – assim como dos latino-americanos em geral – para o exagero retórico.

Não há exagero algum no que foi dito. Cardoso e Fagnani, aparentemente, sabiam muito bem do que falavam. Se não sabiam, acertaram em cheio no que não viram.

Seguindo o método de exposição adotado por Giambiagi em sua réplica, convém separar fatos de palavras. Quando ele afirma que a Previdência está à beira do colapso e que não é porta-voz senão de suas próprias convicções, isto são palavras. Vamos aos fatos.

Fato 1: Giambiagi é co-autor – ao lado do ex-ministro da Previdência de Fernando Henrique, José Cechin – de um projeto de reforma previdenciária elaborado por encomenda de um conjunto de entidades patronais – principalmente do setor financeiro – aglutinadas na Ação Para o Desenvolvimento do Mercado de Capitais (antes denominada Plano Diretor do Mercado de Capitais – PDMC).

Fato 2: deste projeto, constam todas as medidas que compõem o “decálogo previdenciário” desfiado por ele no Valor Econômico.

Fato 3: a remuneração de Giambiagi e Cechin pela elaboração do projeto correu por conta das seguintes entidades: Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM & F), Associação Nacional dos Bancos de Investimento (Anbid), Federação Nacional das Empresas de Seguros Privados e de Capitalização (Fenaseg), Associação Nacional das Instituições do Mercado Aberto (Andima), Associação Nacional da Previdência Privada (Anapp) e Instituto Brasileiro do Mercado de Capitais (Ibmec). Esta informação encontra-se na ata da reunião do Comitê Executivo do PDMC realizada em 15/12/2006 (veja abaixo).

Fato 4: no dia 13/12/2006, a proposta elaborada por Giambiagi e Cechin foi entregue ao então ministro da Previdência e Assistência, Nelson Machado, e ao secretário de Previdência, Helmut Schwarzer, por uma delegação do PDMC encabeçada pelo presidente da Febraban e da Confederação Nacional das Instituições Financeiras (Consif), Gabriel Jorge Ferreira, e pelo coordenador do Comitê Executivo do PDMC, Thomás Tosta de Sá.

Fato 5: Gabriel Jorge Ferreira e Thomás Tosta de Sá são os representantes da Consif no Fórum Nacional de Previdência Social (FNPS), instância em que Giambiagi atuou duas vezes como conferencista, expondo as teses que agora enuncia no Valor.

Não há, em princípio, razão para duvidar que o que Giambiagi escreve seja expressão de suas próprias convicções. Mas contribuiria para a transparência de uma discussão tão importante destacar que essas convicções, coincidentemente, são as mesmas das entidades de classe do setor financeiro – que têm interesse econômico direto na questão.

***

Extrato da ata da reunião do Grupo de Trabalho Novo Modelo Previdenciário do PDMC com o Grupo de Trabalho do Mercado de Capitais do Governo – GTMK

Data: 15 de dezembro de 2006

Horário: 10h30 às 13 horas

Local: BOVESPA

Rua XV de Novembro, 275 – 10º andar – São Paulo/SP

O coordenador Thomás Tosta de Sá iniciou a reunião agradecendo a presença de todos e fazendo um breve histórico do trabalho desenvolvido pelo grupo responsável pela elaboração da proposta.

Mencionou as entidades responsáveis pela contratação do projeto (Bovespa, BM&F, Anbid, Andima, Abrapp, Fenaseg/Anapp e Ibmec) que contrataram a FIPE, com a consultoria de José Cechin e Fábio Giambiagi.

Comentou que o projeto da FIPE foi acompanhado pelas entidades patrocinadoras (…).

Antes de pedir ao Doutor José Cechin que fizesse a apresentação da proposta, comentou que no dia 13 de dezembro o GT, representado pelo Dr. Gabriel Jorge Ferreira (CNF), Doutor José Augusto Coelho Fernandes (CNI) e Doutor Romeu Bueno de Camargo (CNC) juntamente com o Doutor José Cechin e o coordenador haviam sido recebidos em audiência no Ministério da Previdência pelo Ministro Nelson Machado, o Secretário de Previdência Helmut Schwarz (sic) e o Secretário de Previdência Complementar Leonardo Paixão para apresentação da proposta do Novo Modelo Previdenciário para os Novos Trabalhadores.

Henrique Júdice Magalhães é jornalista, ex-servidor do INSS e pesquisador independente em Seguridade Social. Porto Alegre (RS).

Email: henriquejm@gmail.comEste endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email

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Uma resposta to “A quem serve Giambiagi?”

  1. A promiscuidade entre os servidores públicos lotados em entidades e órgãos públicos da área econômica e o mercado financeiro precisa acabar. As instituições que defendem o mercado financeiro se aglutinam para capturar pessoas e órgãos da administração pública para defenderem idéias que lhes interessam. Por essa razão é muito comum que sejam encontrados servidores públicos que realizaram cursos de pós-graduação, inclusive no exterior, bancados pelos cofres públicos, em licença e prestando serviços ao mercado financeiro. A sociedade suporta os custos de aperfeiçoamento, dá as prerrogativas de servidor público que garante acesso às informações e fragilidades da administração pública e, depois, por tudo isso é “pago” bom preço por instituições privadas que encontram quem escolhe trocar, livremente, enquanto interessar, o serviço público pelo privado. A meu ver, isso fere a moralidade e o interesse público. Estão vilipendiando a moralidade da nossa “res publica”.
    Ademais, é comum alocarem-se em órgãos vitais da administração pública pessoas despreparadas tecnicamente para exercerem cargos elevados na área econômica, ainda que se tenham quadros preparados e dignos no respectivo órgão. Tais pessoas despreparadas por vezes devem elaborar normas para o mercado e interagir com outras suprepreparadas do mercado. A quem interessa esse jogo desigual? É comum ainda que servidores que escolhem o mercado financeiro, deixando funções públicas elevadas em troca dos benefícios pessoais do mercado, indiquem seus substitutos. Isso garante as suas influências internas, tão caras ao novo patrão, o mercado financeiro.
    Ou o Brasil muda ou seremos sempre reféns de brasileiros que topam fazer qualquer negócio com a coisa pública.
    Lembremos que Hitler contou com técnicos, engenheiros, médicos, economistas, juristas, etc, da melhor qualidade para por em prática todo o seu projeto. Conhecimento sem valores éticos e morais pode ser uma arma contra o próprio povo.

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