Blog do Desemprego Zero

O empreendedor

Posted by imprensa2 em 22 agosto, 2007

O Globo, 21/8/2007

Celina Vargas do Amaral Peixoto

Agosto chegou e, com ele, minhas lembranças do dia 24, do ano de 1954. Muitos anos passados, mas uma data sempre presente, aos familiares, amigos e colaboradores, que foram se reduzindo com o passar do tempo. Para mim, um sentimento de recolhimento, de perda, mas também uma força interna, uma vontade de protestar contra a injustiça cometida a um homem público, honesto, digno, amado e, sobretudo, com um forte sentimento de servir ao público.

Getulio Vargas deixou de ser um gaúcho, nunca perdendo sua identidade, para se transformar, no dia 3 de outubro de 1930, em um brasileiro disposto a dar a sua vida por um projeto de modernizar e desenvolver um país agrícola, rural e exportador de pau-brasil, açúcar e, depois, café.

Ao morrer, Getulio Vargas deixou o Brasil em pleno processo de desenvolvimento, com uma estrutura montada para estimular o capital na forma de empresas públicas, na ausência de capital privado para fazê-lo. Setores essenciais da economia: aço, minério, energia e petróleo, prontos para dar início a um processo de industrialização, em meados do século XX.

Não pensou só no capital, pensou, sobretudo, no trabalho e nos trabalhadores, antes escravos ou semi-escravos de um país que foi o último a libertá-los. Instituiu o salário mínimo e todos os acordos de proteção aos empregados, consolidados na CLT.

Tinha o prazer pela administração pública, com todas as suas implicações. Contrariou muitos interesses estabelecidos. Mas tinha também o talento para articular, positivamente, uma complexa situação política e social que envolvia cafeicultores decadentes ou não, militares, em especial os tenentes e classes sociais, que despontavam e que contaram com todo o seu apoio e dedicação. Navegou, mergulhou e sobreviveu entre nações em guerra, no meio de um século, repleto de ideologias.

Trabalhava muito. Viajava pouco, mesmo pelo Brasil. Dividia o seu dia em três etapas. Pela manhã, recebia para os despachos internos os ministros de Estado, o prefeito do Distrito Federal, o presidente do Banco do Brasil e o chefe de Polícia. À tarde reservava para as cerimônias oficiais – diplomáticas, eventos, aparições públicas. À noite continuava a despachar com os auxiliares mais próximos que recebiam a incumbência de estudar assuntos que não tinha conseguido solucionar no primeiro encontro.

Mas não era um burocrata, ao contrário, conseguia criar atos sólidos, estruturados e eficazes, transformando-os, rapidamente, em políticas públicas, algumas em vigor até os nossos dias. Construía instituições permanentes: para só me limitar ao campo econômico, lembro a criação de CSN, Vale do Rio Doce, Petrobras, BNDES e Banco do Nordeste que, privatizadas ou não, ainda são os maiores empreendimentos do país, com capacidade, no século XXI, de competir internacionalmente.

Foi revolucionário, presidente do Governo Provisório, ditador, presidente eleito democraticamente pelo povo, mas tinha um único objetivo: transformar o Brasil numa nação soberana e justa. Trabalhou com muita determinação para alcançar este objetivo e, desde o primeiro dia da Revolução (3 de outubro de 1930), ofereceu a sua vida ao projeto que visualizava e concebia para o Brasil. Entendeu e assim agiu de forma que o programa seria sempre mais importante do que a sua própria vida – em 1930, 1932, 1945 e, finalmente, em 1954.

Nesse último ano, sofreu a mais forte e agressiva oposição, já vista no país, a um homem público. Foi acuado, humilhado, prejulgado, sua família atingida, tendo chegado a seu limite no dia 24 de agosto.

A doação de sua morte ao povo brasileiro ainda é um ato que poucos entendem e compreendem. Mas politicamente adiou, por 10 anos, a tomada de poder pelos militares. Possibilitou que Juscelino Kubitschek governasse e abriu a oportunidade para outro mandato presidencial eleito pelo povo. Permitiu que a Petrobras se consolidasse como empresa pública, que a Eletrobrás fosse criada e que o Brasil progredisse e atingisse índices de crescimento, até hoje não superados.Getulio Vargas, analisado com a imparcialidade da História, não seria somente o presidente que marcou o século XX, ou o brasileiro que mais se destacou no país. Getulio Vargas foi um notável e honesto gestor público, foi o maior empreendedor que este país conheceu, no sentido moderno e atualizado do conceito. Governou o Brasil por 19 anos transformando-o de tal forma que criou situações irreversíveis – instituiu o sufrágio universal, criou partidos políticos nacionais, organizou o Estado para investir e promover o desenvolvimento das décadas que se seguiram ao seu governo. E, em 1954, morreu, “…morreu como pouca gente morre”.

CELINA VARGAS DO AMARAL PEIXOTO é socióloga e neta do ex-presidente Getulio Vargas.

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