Blog do Desemprego Zero

Hora de reavaliar o movimento de desregulação financeira?

Posted by imprensa2 em 27 agosto, 2007

VALOR – 24/08/2007

Países em desenvolvimento sofrem o impacto da crise porque também tomaram o bonde da desregulação, mas nada têm a ver com sua origem

Fernando Cardim de Carvalho é professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IE/UFRJ). E-mail: fjccarvalho@uol.com.br

A reação dos principais mercados financeiros nesta semana, após os repetidos acenos de altas autoridades, especialmente americanas, de que utilizariam os instrumentos que fossem necessários para impedir que as turbulências se agravassem, podem dar ao público em geral uma falsa sensação de segurança e conforto. Não é impossível que os mercados financeiros passem a se comportar de forma mais estável daqui para diante, mas é altamente improvável. As medidas tomadas pelos principais bancos centrais do mundo, especialmente o Federal Reserve e o BCE, foram até certo ponto surpreendentemente inspiradas, contribuindo para desacelerar a degradação do mercado de títulos imobiliários, mas, neste ponto, a probabilidade maior ainda é a de que estejamos vivendo no intervalo de duas ondas de um tsunami, em que a calmaria do mar é apenas temporária.

Muitos economistas acreditam que novos problemas virão exatamente porque os bancos centrais intervieram desta vez para conter danos. Para eles, só se aprende pelo sofrimento e, por isso, as crises são profiláticas, ao fazerem com que investidores se conscientizem dos riscos que cercam qualquer oportunidade de investimento e tomem as precauções necessárias. Esses economistas acenam com o fantasma do “risco moral”, isto é, do incentivo perverso que a intervenção pública estaria dando a esses investidores ao protegê-los das conseqüências de seus próprios atos. Postulam que os mercados financeiros são “eficientes” e que, se deixados a si mesmos, funcionariam de forma estável e eficaz. Alguns chegam mesmo a anunciar a próxima crise, porque o governo conteve esta (até agora).

Já para outros economistas, mercados financeiros são inerentemente instáveis, propensos a gerar exageros, seja exagerando altas até transformá-las em bolhas especulativas, seja exagerando as quedas, gerando as chamadas crises sistêmicas. Essa instabilidade não resultaria da intervenção pública, nem seria acidental, mas, sim, do fato da vida de que investimentos dependem de expectativas e essas, ao contrário da ficção proposta pelos adeptos das “expectativas racionais”, são influenciadas por fatores subjetivos, como o estado de confiança e o animal spirits de que falava Keynes. Todo investimento implica na aceitação de um risco, muitas vezes incalculável, em troca da perspectiva de um ganho. A avaliação desse risco é inevitavelmente subjetiva, mas sofre também a influência da experiência do investidor. Os investidores que perderam o que tinham na crise das Bolsas brasileiras em 1971 certamente se tornaram instintivamente pessimistas. Já aqueles investidores e operadores americanos que se acostumaram com o longo impulso expansivo dos mercados nos anos 1990, naturalmente foram se tornando sempre mais ousados. A experiência desse período foi a de que não havia como perder dinheiro, por mais exótico que fosse o investimento.

Hyman Minsky certa vez observou que “a estabilidade é desestabilizante”. Por mais cautelosos que sejam os participantes do mercado financeiro, se as precauções tomadas se mostram bem-sucedidas, e perdas são efetivamente evitadas, esses mesmos participantes acabarão por se questionar se não estão perdendo oportunidades de aumentar seus ganhos por excesso de cautela. Quando se chega a esse ponto, os investidores e operadores começam a se expor a riscos sempre maiores e obter ganhos crescentes, tomando posições cada vez mais especulativas. O próprio sistema financeiro permite e incentiva sua própria fragilização, ao acomodar uma alavancagem crescente. Investidores endividam-se para comprar ativos, fazendo o valor destes subir, o que lhes permitirá endividar-se ainda mais para ampliar sua carteira, numa espiral que parece desafiar a lei da gravidade. Imaginar-se que um sistema com essa dinâmica possa convergir espontaneamente para qualquer forma de equilíbrio, para sequer falar de um “equilíbrio eficiente”, exige uma capacidade de auto-ilusão que beira ao delírio.

Neste quadro, a intervenção pública deve estar sempre dirigida à contenção de excessos, embora nem sempre isso seja viável. O primeiro instrumento a ser utilizado é a regulação financeira. Não deve surpreender ninguém que turbulências financeiras de maior ou menor gravidade fizeram sua reentrada no cenário mundial exatamente depois que a contra-revolução liberal persuadiu lideranças políticas de vários países a promover a chamada desregulação. As ineficiências de mercados financeiros insuficientemente regulados não são pragas apenas de países em desenvolvimento. A crise atual foi gerada nos Estados Unidos e expandiu-se pelos centros financeiros mais avançados da Europa e da Ásia. Países em desenvolvimento, como o Brasil, sofrem o impacto dessa crise porque também tomaram o bonde da desregulação, mas nada têm a ver com sua origem. Os já lendários fundos de hedge, que levaram o mundo à beira da catástrofe, em 1998, com a crise do LTCM, continuam atuando de forma livre e desimpedida, a ponto de incomodar até líderes conservadores como a primeira-ministra Merkel ou o presidente Sarkozy.

Mas mesmo o mais eficaz e rigoroso regime de regulação financeira dificilmente evitará que turbulências assolem o mercado financeiro de tempos em tempos. Neste caso, a segunda família de instrumentos a serem utilizados compõem a chamada rede de segurança, inclusive a assistência de liquidez, amplamente utilizada nos últimos dias nos Estados Unidos e na Europa. Quanto mais deficiente for a regulação, maior será a responsabilidade da rede de segurança em conter os desequilíbrios.

Por outro lado, o impacto dessas turbulências em países como o Brasil devem levar também a uma nova reflexão sobre um aspecto importante do processo de desregulação, que foi o desmantelamento dos controles de capitais. O Brasil, com a liberalização da conta de capitais, se expõe aos efeitos dessa crise, com a entrada e saída repentina de capitais tanto de residentes quanto de não-residentes, a troco de nada. A crise, e seus desdobramentos futuros, abrem uma oportunidade de corrigir este erro.

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