Blog do Desemprego Zero

O saldo negativo das contas externas

Posted by imprensa2 em 28 agosto, 2007

(Gazeta Mercantil/Caderno A – Pág. 2)

Editorial

No déficit de transações correntes, além da subida nas importações, pesou o crescimento da remessa de lucros e de dividendos ao exterior

27 de Agosto de 2007 – O que era uma tendência, identificada há meses, se transformou em um dado real das transações correntes: déficit de US$ 717 milhões em julho, porque as importações (em relação ao mesmo mês de 2006) cresceram 35%, enquanto as exportações subiram apenas 3,7%. É a primeira vez, desde janeiro de 2006, que o saldo de todas as operações de comércio, serviços e rendas do Brasil foi negativo. É fato que, além do avanço das importações, pesou nesse déficit o crescimento da remessa de lucros e de dividendos ao exterior. O chefe do Departamento Econômico do Banco Central (BC), Altamir Lopes, mostrou que essas remessas subiram de US$1,7 bilhão em junho para US$ 2,1 bilhões em julho.

Nesse quadro, de déficit nas transações correntes, vale a pergunta: no exterior, o interesse pelo Brasil arrefeceu? Não é o que os dados do BC sugerem, ao revelar que o Investimento Estrangeiro Direto (IED) alcançou US$ 3,584 bilhões em julho.

Esse resultado coincidiu tanto com as estimativas do BC como com as do mercado. Desde janeiro, o IED já soma US$ 24,4 bilhões e anualizado, US$ 34,6 bilhões. Mesmo comparado com os períodos de privatização, é o melhor resultado histórico do ingresso de IED do País. O volume desse investimento, entre julho de 2006 e o mesmo mês deste ano, foi 126% maior.

O valor do IED no mês passado foi inferior ao de junho, porque neste mês o ingresso incluiu o impacto gerado na compra da Arcelor Brasil pela gigante Mittal, um negócio de US$ 10,3 bilhões. Em julho, o ingresso mais forte de investimento produtivo foi bem menor, de US$ 1,05 bilhão, em um aporte para a mineradora EBX. Porém, vale notar que em julho entraram US$ 6,28 bilhões para aplicação em lançamento de ações na Bovespa.

Para avaliar este impacto é preciso observar que de janeiro a julho o investimento externo para a Bolsa somou US$ 12,07 bilhões. Nesse mesmo período de 2006 entraram apenas US$ 2,92 bilhões em aportes externos para a Bolsa.

Essa chuva de dólares gerou seus previsíveis efeitos. Como Altamir Lopes reconheceu, a inesperada alta do dólar estimulou exportadores a antecipar operações de câmbio, fato que é perceptível nas três primeiras semanas de agosto, quando essas operações já representaram US$ 12,07 bilhões. Apesar do crescimento das importações, a saída de moeda para esse fim somou US$ 5,1 bilhões. Diversos analistas observaram que, apesar das tensões, o fluxo de saída de dólares não foi tão intenso e este fato deverá ter peso na decisão da próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) relativa ao corte da taxa de juros básica. A oferta de moeda estrangeira ajuda a preservar a desvalorização cambial, grande colaboradora da manutenção da inflação em padrões bem comportados e dentro da meta.

Por outro lado, o Boletim da Fundação Centro de Comércio Exterior (Funcex) ajuda a avaliar se o déficit de julho é só ponto fora da curva ou preocupante tendência, ao mostrar que o aumento das exportações foi comandado por preços, enquanto a expansão das importações se deu por volume. Em relação a julho de 2006, os preços dos exportados subiram 8%, enquanto o volume caiu 4%. As importações em julho tiveram movimento inverso: o volume importado subiu 23,4% em relação a julho de 2006, enquanto em preço as importações avançaram apenas 3,4%. No acumulado do ano, o quadro não é diferente: as exportações ganham preço e perdem volume, enquanto com as importações ocorreu o inverso.

Neste aspecto, vale notar que o BC trabalha com a estimativa de que as importações neste ano devem crescer 23% em volume, portanto, com peso menos agudo nas transações correntes, porque os preços dos produtos importados não sobem tanto. Tais perspectivas nas contas externas terão impacto significativo nas próximas decisões sobre juros. É preciso lembrar que a velocidade de cortes na Selic ocorreu pela percepção do Copom de que a pressão da demanda seria compensada pela constante expansão das importações. Desse modo, preservado o atual cenário, o déficit de julho nas transações correntes é menos preocupante do que parece.

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