Blog do Desemprego Zero

Entrevista – Júlio Sérgio Gomes de Almeida

Posted by imprensa2 em 29 agosto, 2007

Correio Braziliense 26/8/2007

Heberth Xavier

Ex-secretário de Política Econômica acha que BC deve manter redução dos juros

A crise que abalou os mercados mundiais na semana passada preocupa a economia global e pode, sim, se for intensa, chegar ao Brasil. O país, porém, reduziu muito sua vulnerabilidade externa (dependência de dólares para fechar as contas) e, com isso, só sentirá grande impacto se a turbulência financeira atingir tom monstruoso. A avaliação é do economista Júlio Sérgio Gomes de Almeida, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda. Ele deixou o governo em maio, depois de envolver-se em uma polêmica, já que criticava abertamente a valorização do real. Comprou briga principalmente com o Banco Central, que fixa a taxa básica de juros e que, por mantê-la em patamares altos para os padrões internacionais, estaria contribuindo para o real forte — forte a ponto de prejudicar as exportações do país, na avaliação de Gomes de Almeida.

Hoje, aos 52 anos, ele dá aulas na Universidade de Campinas (Unicamp) e voltou ao Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). Mas não na condição de diretor-executivo, como chegou a ser dito na imprensa. “Agora sou um colaborador, uma espécie de consultor do Iedi”, afirma o economista, que continua preocupado com o câmbio. “A valorização do real esta semana preocupa, já que estamos voltando ao patamar abaixo de R$ 2 por dólar”, diz ele.

Brasil está menos vulnerável

A crise dos mercados nas últimas semanas preocupa?

Preocupa muito, é uma crise de forte gravidade. Vale dizer que não é uma turbulência financeira como a que vivemos nos últimos anos, desde a segunda metade dos anos 1990. Aquelas eram crises em determinados mercados ou segmentos. Eram fenômenos mais ou menos localizados, ainda que tenham exercido certa influência sobre uma ou outra economia. A atual envolve recursos muito altos e perdas, muito, mas muito grandes. São perdas expressivas.

Mas essas perdas não estão localizadas nos Estados Unidos?

Em um sistema como o que vivemos, que é muito globalizado, evidentemente todos têm como perder. E todos tentam evitar perdas. E, ao evitar perder, corre-se grande risco de agravamento da crise. Normalmente, numa situação como essa, as pessoas tendem a vender os ativos, a fim de compensar as perdas que estão tendo no segmento imobiliário americano. Vendem ativos que porventura estejam dando lucro. O risco é que a crise, hoje restrita ao segmento imobiliário dos EUA, vá para os outros ativos, o que aprofundaria a crise. Os bancos centrais em todo o mundo têm atuado com pertinência, fazendo com que os detentores de papéis que queiram vendê-los tenham recursos em conta o suficiente para evitar as vendas. Os BCs, nessa situação específica, estão sendo muito eficazes. Estão delimitando o fenômeno à sua origem, o segmento imobiliário americano. Mas o risco dele se espalhar existe. Quanto aos subprimes (nome das hipotecas americanas de alto risco), a única certeza é que envolverão perdas grandes e inevitáveis. De certa forma, todos sabíamos e prevíamos isso, mas só agora o prejuízo está explícito.

O dólar chegou aos R$ 2,10, mas já retornou a menos de R$ 2. No Ministério da Fazenda, o senhor criticou muito o real forte, por prejudicar a indústria. Mantém essa posição?

Eu gostaria que a cotação do dólar fosse mais expressiva, bem superior a R$ 2. Isso não é segredo para ninguém. Não gostaria, porém, que isso viesse a partir de uma crise internacional, mas de uma política planejada. Minha preocupação é que a desvalorização do real, que precisa ser relativizada, pois já voltou para baixo dos R$ 2, seja usada pelo Banco Central brasileiro para frear a queda dos juros. Olho por olho. Não há nenhuma indicação de que estamos num perigo inflacionário iminente. Não há qualquer razão para o BC reduzir o ritmo de cortes da Selic. Se o BC fizesse isso, até porque já tem gente pedindo isso, vai sinalizar ao empresário para parar de investir. Vai sinalizar ao consumidor, que vem adquirindo bens de consumo duráveis, como carros e imóveis, para parar de fazer isso. E sinalizará aos bancos para interromperem o crescimento do crédito. Vai sinalizar, enfim, aos três agentes mais ativos da atual retomada do crescimento, para darem uma trava nesse processo.

O câmbio no atual nível continua um problema?

É sempre um problema, mas a grande questão hoje é saber se o BC dará ou não um sinal errado ao restante da economia. Ele pode até reduzir o ritmo de queda dos juros, infelizmente, mas seria um equívoco. Vamos imaginar que a crise dos mercados atual ocorresse há quatro anos, quando tínhamos uma vulnerabilidade externa do tamanho de um trem, como os mineiros gostam de dizer. Nesse cenário, seria pule de 10 a mudança na política monetária do BC. Mas hoje a situação é diferente: avaliar o BC por critérios do passado não leva em consideração as mudanças e a grande redução da vulnerabilidade que tivemos. Os diretores do BC sabem que serão criticados de qualquer maneira, uma vez que a polarização das opiniões é muito forte, mas creio que, se não houver alguma novidade forte até a próxima reunião do Copom, eles vão manter a queda da Selic em meio ponto percentual. Estarão dizendo, com todas as letras, que estão observando com toda a atenção o andamento da instabilidade nas bolsas, mas que confiam na economia brasileira.

A instabilidade já provocou leve queda no preço das commodities. Caso esse movimento se intensifique, o reflexo sobre o Brasil será muito grande?

Dizer que uma queda no preço das commodities ponha tudo a perder talvez seja um exagero. Só se fosse uma redução monstruosa. Mas tenho a impressão de que isso não vai ocorrer. Esse movimento todo certamente irá mexer com o crescimento econômico mundial no médio prazo, mas não no curto prazo. É sempre bom lembrar que os US$ 40 bilhões anuais de superávit comercial que estamos registrando são um colchão suficiente para trazer tranqüilidade à economia. Em outras palavras, o grande problema hoje não é o Brasil, que, usando uma expressão já gasta, fez o dever de casa. O problema mesmo é se a crise que está vindo aí é maior do que a da Ásia, em 1997, ou da Rússia, em 1998. O epicentro dela está nos Estados Unidos, a economia mais poderosa do mundo.

O senhor saiu do governo brigado com alguém?

Saí por motivos totalmente pessoais, essa é a pura verdade. O fato de ter opiniões sobre assuntos econômicos fazia parte do debate. Não tivemos qualquer problema de relacionamento na equipe. Até faço uma brincadeira com o fato: lamento que minha saída do governo tenha gerado essa instabilidade toda nas finanças mundiais (risos)…

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