Blog do Desemprego Zero

“A turbulência nos pegou com o bolso bem cheio”

Posted by imprensa2 em 30 agosto, 2007

DINHEIRO – 29/08/2007

Ministro da Fazenda diz que o Brasil tem um colchão de US$ 160 bilhões e garante que o País não será chamuscado pela crise financeira que vem dos Estados Unidos

OCTÁVIO COSTA E ADRIANA NICACIO

No momento mais agudo da crise global, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, chamou para si a responsabilidade de tranqüilizar os investidores e garantiu que o País tinha reservas suficientes para agüentar o tranco. Correu o risco de sair chamuscado no episódio, mas venceu o desafio, pois o mercado voltou ao normal. Na quarta-feira passada, em Brasília, Mantega afirmou à DINHEIRO que não fez mais que sua obrigação. “Nos momentos de incerteza, quando ocorrem turbulências, o ministro da Fazenda tem de dizer o que está acontecendo.” E o que está ocorrendo hoje, segundo ele, são problemas setoriais da economia dos Estados Unidos, que não devem prejudicar o Brasil. “Nós vamos continuar na rota do crescimento”, ressalta. Mantega explica, também, que a economia americana deixou de ser a locomotiva do mundo. Assim, se houver uma desaceleração dos EUA, será compensada pelo crescimento maior da União Européia, da China e da Índia. Quanto ao Brasil, ele não vê nuvens no horizonte.“Temos US$ 160 bilhões de reservas. Não estamos mais de calças curtas, como no passado recente.” Na opinião de Mantega, nem a carga tributária é problema. “A carga que incide sobre empresas vem sendo reduzida”, diz ele. A seguir, a íntegra da entrevista do ministro da Fazenda.DINHEIRO – O sr. não correu risco ao dar entrevista durante o pregão na quinta-feira negra? Normalmente o ministro da Fazenda espera a bolsa fechar.

GUIDO MANTEGA – O Henry Paulson, secretário do Tesouro americano, tem falado com freqüência. Ontem, ele deu uma entrevista em pleno pregão, dizendo que a economia americana estava robusta, que havia o problema, com impactos setoriais, mas que a maioria das corporações americanas estava sólida e que essa crise será debelada rapidamente. É uma obrigação do ministro da Fazenda nos momentos de incerteza, quando ocorre uma turbulência dessa natureza, fazer uma avaliação e dizer o que realmente está acontecendo. Quando se fala em mercado hoje, nós temos muitos cidadãos brasileiros com ações na bolsa que ficam atemorizados. Instaura-se o pânico e as pessoas acham que a coisa é pior do que realmente é. Há um temor desmesurado. O pessoal exagera e começa a cometer equívocos, a perder dinheiro, a fazer operações intempestivas.

DINHEIRO – Parece que deu certo, pois o mercado se tranqüilizou.

MANTEGA – Eu não neguei que tinha uma turbulência, que atinge vários países. Hoje, com a globalização, nós temos vasos comunicantes no mercado financeiro internacional e o Brasil também tem algumas ramificações.Eu procurei identificar quais setores da economia brasileira seriam mais afetados, os mercados de risco e o mercado futuro. Mas eu afirmei que nunca a economia brasileira esteve tão preparada e tão sólida para enfrentar uma turbulência. Aliás, as turbulências não são raios em céu azul, elas são a regra. Em maio do ano passado, tivemos uma turbulência financeira. Nós temos hoje uma economia globalizada, um mercado financeiro alavancado, com muitos ativos financeiros. Eles têm uma agilidade muito grande em se deslocar. No passado, uma turbulência dessas seria grave para o País, porque derrubaria a taxa de crescimento, aumentaria a taxa de juros, provocaria a fuga de capitais.

DINHEIRO – Então, a situação agora é diferente?

MANTEGA – Hoje nada disso acontece no Brasil. Eu ouso dizer que essa turbulência vai só gerar certa volatilidade no mercado. Mas posso afirmar que o Brasil não será prejudicado. O Brasil continuará na rota do crescimento.

DINHEIRO – O pior já passou?

MANTEGA – Ninguém pode afirmar isso. A quinta-feira 16 foi o momento mais agudo. Mas, de lá para cá, ocorreu uma calmaria. Já são vários dias consecutivos que os mercados se acalmaram. Fundamentalmente pela atitude eficiente do Federal Reserve e do Banco Central Europeu.

DINHEIRO – Mas fala-se muito sobre retração da economia americana. E aí, sim, haveria um impacto nas economias emergentes, como a brasileira.

MANTEGA – A rigor a economia americana já vem desacelerando há algum tempo. E a economia mundial já está assimilando os efeitos dessa desaceleração, que é compensada pelo crescimento da União Européia, da China e da Índia. A locomotiva do mundo, hoje, não é mais a economia americana. Enquanto não afetar os centros de produção mundiais, não se pode dizer que vai haver uma desaceleração. Existe a possibilidade de desacelerar a economia mundial? Existe. Mas não será dramática, porque as medidas dos bancos centrais atenuam os impactos disso.

DINHEIRO – Por quê?

MANTEGA – O crescimento do Brasil está sendo puxado pelo mercado interno e não pelo mercado externo. O nosso grande trunfo hoje é que essa turbulência nos pega com os fundamentos ultra-sólidos. A turbulência nos pegou com o bolso cheio de dinheiro, com US$ 160 bilhões de reserva, coisa que nós nunca tivemos na vida. Pegou-nos prevenidos, não estávamos de calças curtas como no passado. O Brasil tem fluxo de capital extremamente positivo, o Brasil é considerado hoje um dos melhores mercados de investimento do mundo.

DINHEIRO – Por quem?

MANTEGA – Quem diz é a Merrill Lynch, a Goldman Sachs e o Citibank. Eles afirmaram no meio da turbulência que o Brasil é uma excelente alternativa de investimento, porque é um país sólido, com baixo risco e apresenta excelentes oportunidades de investimentos. Nós estamos hoje com um fluxo de capitais para o país que nunca tivemos na vida. Um fluxo financeiro de US$ 70 bilhões entrou no País no primeiro semestre. Metade de investimento direto e a outra metade de IPOs, ou seja, subscrição de novas ações. Não é capital especulativo. É investimento, para ganhar, não com juros, mas com lucros e dividendos obtidos com produção.

DINHEIRO – A perspectiva de redução na taxa de juros fica momentaneamente adiada?

MANTEGA – Não gosto de me pronunciar sobre a taxa de juros. O que eu posso dizer é que não há nenhuma pressão inflacionária nova no horizonte. Porque o que faz o Banco Central subir os juros ou reduzi-los é um cenário inflacionário. O presidente do Banco Central pode mudar a política monetária se houver risco inflacionário. Não vejo riscos.

DINHEIRO – O Copom, então, deve reduzir mais a Selic?

MANTEGA – Não vou fazer nenhuma dedução. Mas não dá para esquecer que o custo financeiro no Brasil vai muito além da taxa Selic. A Selic é uma taxa de captação, mas na verdade existe a TJLP, do BNDES, que é o menor da história, 6,25%, tem os juros agrícolas que são os menores da história, 6,75%. Além disso, temos um mercado de capitais que pode chegar a R$ 200 bilhões neste ano.

DINHEIRO – E a taxa de câmbio? O sr. também considera que não há motivo para interferir?

MANTEGA – No pior momento da turbulência, na quinta-feira, em algumas horas do dia, a taxa de câmbio chegou a R$ 2,12. Imagino que vários exportadores correram para antecipar o fechamento de contrato de câmbio, e, portanto, entrou mais dólar no mercado. Algumas horas depois estava a R$ 2,04. Agora, eu monitoro a cada dez minutos, está em R$ 2,01. Mesmo com a turbulência, não há fuga de capitais no País. Houve uma saída de posições, mas a entrada foi maior do que a saída. Países como o Brasil, que têm superávit, são assim: o capital vem.

DINHEIRO – Mas falta chegar ao grau de investimento.

MANTEGA – Estamos perto disso. Quando o Brasil virar investment grade, além dos investimentos que existem hoje, será aberto todo um mercado de fundos de previdência que estão loucos para ter uma alternativa rentável de aplicação de dinheiro. Quando virarmos, entrará mais uma leva de dinheiro. Já estamos a um degrau na S&P. Na Moody’s, que é mais conservadora, nós estamos a dois degraus. Ela considera a dívida bruta e não a dívida líquida do País.

DINHEIRO – Existe alguma área da economia que preocupa o governo?

MANTEGA – Na pior das hipóteses, o que vai acontecer é uma desaceleração da economia mundial. Nesse caso, pode diminuir um pouco o nosso superávit comercial. Os preços das commodities poderão cair. Como temos mais de R$ 40 bilhões de superávit, se cairem R$ 5 ou R$ 10 bilhões, nós continuaremos no azul. O máximo que pode acontecer é perder um pouco de valor nas exportações. Mas, se houver uma valorização menor do real, isso estimulará a exportação de manufaturados, que sofre por causa do câmbio. Então há movimentos compensatórios. De qualquer forma, as empresas brasileiras têm o mercado doméstico, que está bombando.

DINHEIRO – A demanda interna garante o crescimento?

MANTEGA – Essa é a vantagem do Brasil. Temos um mercado doméstico de grandes proporções. É bom dar uma olhada aqui (aponta para a capa da revista The Economist, “Cresce a classe média na América Latina”), estamos criando um mercado de massa no Brasil. Quando falamos que o mercado doméstico cresceu 20 milhões, 30 milhões, quase um país latino-americano inteiro. Um Chile, um Peru. Essa é a dimensão do mercado brasileiro.

DINHEIRO – Teme-se que o crescimento acentue alguns gargalos, principalmente na infra-estrutura. O PAC resolve?

MANTEGA – É claro que o crescimento mais robusto da economia nos coloca diante de desafios. Desafios de infra-estrutura, crescer sem inflação, ter energia elétrica suficiente. Estamos nos empenhando para a implantação de termelétricas, hidrelétricas, tudo para o setor privado. Além disso, o governo tem um robusto programa de investimentos, que é o PAC. O crescimento sustentado nunca é líquido e certo. Nunca é algo dado. A cada momento se colocam desafios que precisam ser enfrentados.

DINHEIRO – É possível se pensar na redução da carga tributária?

MANTEGA – Estamos praticando uma redução da carga sobre cada produtor, cada consumidor. As pessoas confundem com arrecadação, que cresce naturalmente quando a economia cresce mais. É o que está acontecendo, tem menos sonegador, tem mais emprego formal, mais gente pagando imposto. As empresas estão tendo mais lucro, pagam mais imposto, então confundem o aumento da arrecadação por bons motivos com a carga tributária que incide sobre as empresas e o consumidor. A carga que incide sobre as empresas e o consumidor está sendo reduzida. Temos uma relação que mostra a redução de mais de 40 itens, em vários setores da economia. Ninguém pode dizer que não estamos desonerando. Não dá para confundir alhos com bugalhos. Cada mês faço uma desoneração.

DINHEIRO – Com tantos recordes, não dá para abrir mão da CPMF?

MANTEGA – Da arrecadação da CPMF vão 42% para a Saúde, 20% para a Previdência e 19% para o Fundo Nacional da Pobreza. Como vamos prescindir desse dinheiro? O nosso governo não vai abrir mão dos programas sociais. É voltado para a grande base da pirâmide, que é a população pobre.

DINHEIRO – Apesar dos bons ventos na economia, muita gente vê o futuro do País com pessimismo, principalmente pelos problemas éticos e políticos. Como o sr. vê isso?

MANTEGA – Felizmente estamos em uma democracia, que não só dá direitos igualitários como estimula o livre pensamento. Ainda bem que somos uma sociedade plural e cada um pensa o que bem entender. Pelas pesquisas de opinião, a grande maioria da população acha que estamos fazendo um bom governo. Pode ter algum segmento descontente, talvez por causa da crise aérea. Não estou dizendo que o Brasil está 100%, mas o País está melhorando muito.

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