Blog do Desemprego Zero

ORTODOXOS PIRARAM

Posted by imprensa2 em 3 setembro, 2007

Folha de S. Paulo 31/8/2007

Para Pastore, atividade forte é risco para trajetória da inflação

Sergio Lamucci

O ex-presidente do Banco Central (BC) Affonso Celso Pastore faz um alerta: os riscos para a trajetória futura da inflação aumentaram, devendo exigir uma interrupção do ciclo de queda dos juros ainda neste ano. Ele está preocupado com a velocidade de expansão da economia por avaliar que o PIB avança a um ritmo bem superior ao do crescimento potencial (aquele que não provoca pressões inflacionárias indesejáveis). Segundo Pastore, o PIB potencial está, com boa vontade, em 4% ao ano, ou seja, bem abaixo do avanço de 5% esperado para a economia em 2007. Para complicar mais o xadrez inflacionário, mudou “o quadro favorável à contínua valorização do câmbio”, devido às incertezas externas, acrescenta ele.

Pastore estima que, no segundo trimestre, a economia cresceu 1,5% em relação ao primeiro, com ajuste sazonal. Isso equivale a uma taxa anualizada de 6,1%, indicando que o PIB deve de fato aumentar cerca de 5% neste ano. “A boa notícia é que o finalmente o Brasil saiu daquele padrão de baixo crescimento. A má é que esta não é uma taxa sustentável, porque supera em muito o crescimento potencial”, escreve, em relatório da A.C. Pastore & Associados.

“Se o governo tivesse implantado reformas, reduzindo a carga tributária, abrindo a economia, mudando a legislação trabalhista de forma a criar maior flexibilidade no mercado de mão-de-obra, e levado a sério os estímulos aos investimentos em infra-estrutura, esta taxa de 5% poderia ser sustentada. Porém, a atual política econômica resume-se em elevar as transferências de renda, e a acentuar as pressões de vários ministros para que o BC acelere a queda da Selic, com as ações que garantem a sustentabilidade do crescimento limitadas apenas à retórica oficial”, critica.

Pastore reconhece que o investimento na construção civil e em máquinas equipamentos (a formação bruta de capital fixo, FCBF) cresce a um ritmo elevado, ajudando a ampliar o PIB potencial. Ele calcula que, no segundo trimestre, houve aumento da FCBF de 3,1% em relação ao primeiro, o equivalente a 13,1% anuais. Com o investimento em alta, Pastore estima que o crescimento potencial deve estar próximo de 3,8%, ou um pouco acima disso. “Mas mesmo que o PIB potencial passasse a crescer 4% ao ano, o PIB atual estará crescendo em torno de 1 ponto percentual acima dessa taxa, gerando um estreitamento muito mais veloz do que supúnhamos anteriormente do hiato do produto”, diz, referindo-se a uma das medidas de capacidade ociosa da economia.

Pastore não vê motivos para preocupação quanto à inflação deste ano, avaliando que o IPCA deve fechar 2007 confortavelmente abaixo do centro da meta, de 4,5%. A questão é 2008 em diante. Pastore nota que “a inflação proveniente do aquecimento da atividade se manifesta com defasagens longas”, bem diferente das pressões causadas por uma desvalorização do câmbio, que se manifestam “quase instantaneamente”.

E a alta mais forte dos serviços, captada pelo IPCA-15 de agosto, seria um sinal de que o aquecimento da economia já pressiona os indicadores? “Quanto a isso, eu não posso afirmar nada. O que sei é que o estreitamento do hiato nessa velocidade é um risco muito grande, e produzirá inflação no futuro.” O economista vê com cautela a alta dos preços de alimentos, que alguns analistas classificam como um choque de oferta, que não precisaria ser combatido pela política monetária. “Quanto aos preços dos alimentos há duas interpretações: é apenas um choque de oferta, ou é também um choque de oferta, mas pode ser algo mais. Ninguém tem um modelo que separe empiricamente estas duas causas. Quando a média começa a se elevar, isso não significa que todos os componentes da média têm que começar a se elevar na mesma hora e à mesma velocidade. Há sempre alguns preços que começam a crescer antes do que os outros”, diz. “Em vez de separar as causas, usamos a visão mais simples de que inflação é inflação. O fato é que a alta dos alimentos está ocorrendo e, se o BC “der mole” isso tudo vai para as expectativas, e piora ainda mais o problema”.

Outro ponto a ser considerado pelo BC, diz ele, é que a crise externa alterou as perspectivas de continuidade da valorização do câmbio, que vinha segurando os preços dos bens comercializáveis internacionalmente, além de incentivar as importações. Para Pastore, ainda que não se espere uma depreciação elevada do real, o quadro mudou. Com uma maior aversão ao risco, os recursos que alimentavam as operações em que se aproveitam a diferença entre juros externos e internos deverão sofrer uma queda mais forte, “reduzindo o ingresso de capitais”, diz. Há também o risco de uma desaceleração mais forte da economia global, com impacto negativo sobre os preços de commodities. “É necessário rever a previsão de que o câmbio real seguiria mostrando uma trajetória de valorização”.

Por tudo isso, Pastore acredita que o BC vai cortar a Selic em 0,25 ponto, um ritmo mais lento que o 0,5 ponto dos dois encontros anteriores. Para ele, o comunicado do BC deve mostrar que os riscos da inflação aumentaram, e que o ciclo de queda pode ser interrompido na reunião seguinte.

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