Blog do Desemprego Zero

Política liberais reduzem a produtividade no Brasil

Posted by imprensa2 em 7 setembro, 2007

VALOR – 03/09/2007

Produtividade cai e Brasil fica mais longe de desenvolvidos

Assis Moreira

A produtividade por empregado no Brasil caiu abaixo do nível verificado em 1980, na contramão da tendência global. A capacidade de produção do trabalhador brasileiro é três vezes menor do a que a de trabalhadores de economias industrializadas e está ameaçada pela China e outros concorrentes emergentes. Os dados são da Organização Internacional do Trabalho (OIT), em relatório que mostra a crescente diferença entre a produtividade do país e das principais economias.

O nível de vida num país depende também da produtividade, que mede quanto um trabalhador produz por hora. Os lucros das empresas crescem quando os empregados produzem mais por hora do que antes. A renda adicional pode ser repartida entre lucro extra e aumento salarial, alimentando gastos e investimentos, criando mais empregos e expandindo a economia. Para a OIT, a produtividade é mais alta quando a empresa combina melhor capital, trabalho e tecnologia. Falta de investimento na formação e qualificação e em equipamentos e tecnologias provoca subutilização do potencial da mão-de-obra.

No relatório “Principais indicadores do mercado de trabalho” (KILM, em inglês), a entidade mostra que a produtividade aumentou no mundo inteiro nos últimos dez anos, mas as disparidades persistem entre nações industrializadas e os demais países. No caso da América Latina, o ritmo de crescimento da produtividade foi o menor entre 1996-2006, período em que parte da Asia e da Europa do Leste ex-socialista começou a reduzir seu atraso.

No Brasil, a diferença no valor agregado por trabalhador cresceu especialmente em comparação com os Estados Unidos, o campeão global da produtividade, segundo a OIT. A produção por trabalhador foi de US$ 14,7 mil em 2005, abaixo dos US$ 15,1 mil de 1980. É várias vezes menor que os US$ 63,8 mil por empregado nos EUA em 2006 (e era de US$ 41,6 mil em 1980).

Na China, a produtividade dobrou em dez anos. Pulou de US$ 6,3 mil para US$ 12,5 mil por empregado entre 1996 e 2006, a mais forte alta no mundo. A produtividade chinesa era oito vezes menor que a dos industrializados, e agora passou a cinco vezes menos. O Leste da Europa registrou alta de 50%.

A produção brasileira, em comparação com os EUA, sofreu queda ainda maior. O valor agregado por empregado no país era equivalente a 36,5% do atingido pelos americanos em 1980, e caiu para 23,5% em 2005. Na direção oposta, a produtividade da Coréia do Sul pulou de 28% para 68% em relação à dos EUA no período.

No setor industrial, a diferença cresce. A produção por empregado industrial no Brasil representava 19% daquela dos EUA em 1980. Agora, declinou para 5% em 2005. O valor agregado na indústria brasileira foi de US$ 7.142 para US$ 5.966 por empregado entre 1980 e 2005. Já a China aumentou o valor agregado industrial em 7,9%. Com isso, reduziu a diferença com os EUA, e a produtividade passou a ser o equivalente a 12% da americana, e não mais 5%.

A produtividade brasileira só cresceu no setor agrícola, florestas e pesqueiro, ficando em média em 3,6%, mas esse ritmo foi inferior ao da China e de alguns países que subsidiam altamente suas agriculturas, como Noruega e Coréia. Com a alta de 3,6% ao ano, o valor por trabalhador brasileiro no setor aumentou de US$ 2.356, em 1980, para US$ 5.700 em 2005. Em contrapartida, os chineses, ao iniciarem a reforma agrícola, com menor coletivização das terras, registraram alta de 4% por ano de produtividade agrícola, triplicando de US$ 330 para US$ 910 por pessoa entre 1980 e 2006. No comércio, onde é maior o uso de tecnologia da informação e de novos modelos de negócios, a produtividade brasileira por trabalhador declinou no período de US$ 3,945 para US$ 4 1.726.

A carga de trabalho dos americanos foi calculada em 1.804 horas em 2006, bem acima da média dos países desenvolvidos, como França (1.540 horas, ou 300 a menos com a carga de 35 horas semanais), Alemanha (1.436 horas) e Japão (1.784 horas). Em boa parte dos emergentes, a carga de trabalho fica bem acima de 1.800 horas. O dado sobre o Brasil é ainda de 1999, quando era estimada em pouco mais de 1.600 horas por ano.

Quando a OIT mede o valor por hora trabalhada, o Brasil também está lá embaixo. A produtividade por hora trabalhada fica em torno de US$ 7,50, valor quase idêntico ao de 1980. Não há dados sobre a China, mas aí é a Noruega, e não os EUA, que tem a mais alta produtividade, de US$ 38 por hora, seguido pelos americanos, com US$ 35,60. A França é o terceiro país com maior nível de valor agregado por hora, de US$ 35.

Para o diretor-executivo do setor de emprego da OIT, José Maria Salazar, dentro de três anos a China pode superar a produtividade da América Latina, que no momento é um terço maior (US$ 18,9 mil) que a chinesa. Mas o assessor nota que no Brasil e no resto da América Latina, em cada dez empregos, sete são criados no setor informal, sem proteção social e com pouca qualificação.

Para reforçar a tendência do perigo chinês, o relatório mostra que só na América Latina subiu a “‘vulnerabilidade do emprego”‘, com menor redução no número de pobres. Já a China é tomada como exemplo de país com amplo aumento de produtividade, que consegue baixar o número de pessoas vivendo com menos de US$ 2 por dia.

“O incremento de produtividade é enorme na agricultura da China, com grande transformação ao deixar a agricultura coletivizada, mas o maior incremento é na manufatura, graças à taxa de investimento anual muito alta, de cerca de 30%”, afirma. “Há muita inovação tecnológica, investimentos fortíssimos na educação e uma reserva de mão-de-obra barata.”

Eficiência é maior na Argentina e na Venezuela

De Genebra

A produtividade do Brasil é bastante inferior a da Argentina, de acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Pelos cálculos que consideram o valor agregado por pessoa empregada, a eficiência do trabalhador brasileiro alcança pouco mais da metade da do trabalhador argentino. A diferença entre os dois sócios do Mercosul aumentou nos últimos tempos, assim como aumentou com relação a China – com perda para o Brasil. A produtividade por trabalhador argentino era de US$ 24,7 mil em 2005, comparados a US$ 14 mil dos brasileiros. A diferença supera os US$ 8 mil de 1980.

A produtividade por hora trabalhada passou de US$ 9 para 13 na Argentina, comparada aos estagnados US$ 7,50 no Brasil. Por sua vez, a Venezuela supera os dois, com produtividade por empregado de US$ 26 mil (sempre em dolar constante) em 2005. Mas o país sofreu uma queda enorme, pois esse valor era de US$ 32 mil em 1980.

Para economistas da entidade, o resultado reflete a subutilização da mão-de-obra no Brasil, fraca formação e fraca renda. Muita gente trabalha longas horas, mas de maneira ineficiente por falta da falta de instrução ou equipamentos adequados. Na América Latina, sete entre dez novos empregos seriam criados no setor informal. Em metade dos países, uma pessoa entre oito trabalha atualmente em tempo parcial, mas gostaria de poder trabalhar e ganhar mais.

A vulnerabilidade no emprego é global. A OIT estima que 1,5 bilhão de pessoas no mundo, um terço da população em idade de trabalhar, podem ser consideradas como mão-de-obra potencialmente mal utilizada. Isso compreende 195 milhões de desempregados e 1,3 bilhão de trabalhadores pobres que vivem com menos de US$ 2 por dia. Na América Latina, essa taxa baixou de 12,1% para 8% da população ativa em dez anos. A entidade acredita que a região cortará pela metade o número de pessoas nessa situação, até 2015.

Outro dado mostra que um terço da população em idade de trabalhar está totalmente fora do mercado de trabalho. A agricultura perdeu seu sua posição de principal setor empregador, inclusive na América Latina. A liderança é do setor de serviços com 42% dos empregos no mundo, comparados a 36% para agricultura. O setor industrial representa 22%, sem alteração no período analisado. (AM)

Impostos e baixa escolaridade atrapalham o país

Raquel Salgado

Baixo crescimento econômico, níveis de escolaridade e de qualificação ainda precários e pouco investimento em infra-estrutura e em tecnologia são algumas das razões apontadas para a expansão tímida da produtividade do trabalho no Brasil nos últimos 25 anos. Ao mesmo tempo, a mudança estrutural vivida por duas grandes economias, a americana, que passou a agregar cada vez mais valor a seus produtos e serviços, e a chinesa, que passou de rural para urbana, fez com que os ganhos de produtividade brasileiros, quando comparados aos destes países, ficassem mais irrisórios.

Enquanto neste período a China investiu em novas tecnologias e em escala, o Brasil focou sua produção em bens de baixo valor agregado (como as commodities), viu a carga tributária crescer ano a ano e sua população se escolarizar a um ritmo bastante aquém nas necessidades do país. O resultado disto foi o desestímulo ao investimento privado e o envelhecimento da estrutura produtiva, seja ela na área industrial ou na de serviços.

O professor e pesquisador do Grupo de Indústria e Competitividade da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), David Kupfer, conta que os Estados Unidos aproveitaram o crescimento de outros países, como os asiáticos, e transferiram a produção de bens de menor valor agregado para estas nações. Com essa estratégia, concentraram sua atividade na indústria e nos serviços de alta tecnologia. “Um webdesigner produz muito mais valor agregado por hora trabalhada do que um gráfico”, exemplifica o economista. Os serviços ligados à tecnologia da informação, nos quais o país é forte, também contribuem de maneira significativa para o aumento da produtividade.

A realidade brasileira é muito diferente. No ramo dos serviços, a atividade com maior número de vagas é a empregada doméstica, uma função de baixa qualificação e que pouco valor agrega à estrutura econômica do país. Samuel Pessoa, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), acredita que a educação é peça-chave para aumentar a eficiência das atividades econômicas. Para ele, a escolaridade precária dos brasileiros explica, por exemplo, porque a Argentina é mais produtiva do que o Brasil. “Além de mais qualificados, eles também são mais bem dotados de recursos naturais”, complementa.

Para Mariano Laplane, professor do Núcleo de Economia Industrial e da Tecnologia da Unicamp, enquanto o país não crescer a taxas mais robustas, será muito difícil obter ganhos significativos de produtividade. “É claro que já ficamos mais produtivos, sem crescer mais, porém, quando isso ocorreu, foi à custa da redução de empregos e da expansão das importações”, esclarece, referindo-se ao período de abertura comercial vivido pelo país no final da década de 80. Segundo Laplane, é preciso que ocorra uma retro-alimentação virtuosa: a economia cresce, os investimentos aumentam, a produtividade se eleva, o que faz com que o valor agregado pelo país, ou seja, o Produto Interno Bruto (PIB), se expanda ainda mais e assim por diante.

Os economistas também atentam para o fato de que o indicador da Organização Internacional do Trabalho (OIT) leva em conta todos os setores de atividade econômica e não apenas a indústria. Isso quer dizer, então, que, na média, a produtividade do Brasil se reduziu em relação a dos Estados Unidos, mas, em alguns setores (da indústria, agricultura ou mesmo de serviços), ela pode ser maior e também ter avançado a passos largos.

Para Laplane, este é o caso da agricultura. “Não tenho dúvida de que somos muito mais produtivos e temos mais tecnologia do que os EUA na produção de vários bens agrícolas”, diz. Ao mesmo tempo, no setor industrial e de serviços, o país tem atividades que são bem menos produtivas.

Apesar do cenário pouco animador visto entre os anos 1980 e 2005, Laplane acredita que o país trilha agora um caminho que levará a um patamar maior de produtividade. Os investimentos recentes em infra-estrutura e o maior consumo de máquinas e equipamentos, a seu ver, indicam uma modernização na estrutura produtiva.

Pelos dados do Instituto Brasileiro de Geografia (IBGE), no primeiro semestre deste ano, a produtividade do trabalho na indústria (um cálculo mais simples que o da OIT porque não considera o valor agregado em cada setor mas apenas divide o volume produzido pelo total de horas trabalhadas) acumulou uma alta de 3,5%. Esse resultado supera o dos anos fechados de 2006 e 2005, quando o ganho ficou em 2,5% e 2,3%, respectivamente.

Em 2007, o aumento da eficiência ocorreu com crescimento das contratações e das horas trabalhadas, fenômeno que não esteve presente no ano passado. Em 2006, a indústria foi capaz de elevar sua produção sem contratar novos funcionários.

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