Blog do Desemprego Zero

Estamos crescendo demais? Os cansados agora estão com medo de crescer

Posted by imprensa2 em 13 setembro, 2007

PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.

A aceleração não é excepcional. O país se recupera de longo período de
crescimento quase sempre medíocre

O NOSSO “complexo de vira-lata” tem múltiplas facetas. Uma delas, adquirida
nos últimos 20 anos, é o medo de crescer. Sempre que a economia brasileira
mostra um pouco de vigor, ergue-se, sinistro, um coro de vozes falando em
“excesso de demanda”, “retorno da inflação” e pedindo medidas de contenção.
O IBGE divulgou ontem as Contas Nacionais do segundo trimestre de 2007. Não
há dúvida de que a economia está pegando um certo ritmo. O crescimento foi
significativo, embora tenha ficado um pouco abaixo do esperado. O PIB
cresceu 5,4% em relação ao segundo trimestre do ano passado. A expansão do
primeiro semestre foi de 4,9% em comparação com igual período de 2006.
O crescimento está baseado fundamentalmente na demanda interna, e o
destaque foi a expansão do investimento fixo: 13,8% em relação ao segundo trimestre
de 2006. O setor mais dinâmico foi a indústria, que cresceu 6,8%. A
agropecuária praticamente não cresceu, mas o setor de serviços registrou
aumento de 4,8%.
A turma da bufunfa não pode se queixar. Entre os subsetores do setor
serviços, o segmento que está “bombando” é o de intermediação financeira e
seguros -crescimento de 9,6%. O Brasil continua sendo o paraíso dos bancos
e demais instituições financeiras.

Não obstante, os porta-vozes da bufunfa financeira, pelos menos alguns
deles, parecem razoavelmente inquietos. Talvez por um reflexo pavloviano,
temem que o crescimento econômico possa desembocar em aceleração da
inflação.
Há razões para esse medo? É muito duvidoso. Ressalva trivial: é claro que o
governo e o Banco Central nunca podem descuidar da inflação. Se eu fosse
cunhar uma frase digna de um porta-voz da bufunfa, eu diria (parafraseando
uma outra máxima trivializada pela repetição): “O preço da estabilidade é a
eterna vigilância”.
Entretanto, a estabilidade não deve se converter em estagnação. Ou seja, o
que queremos é a estabilidade da moeda nacional, mas não a estabilidade dos
níveis de produção e de emprego (e desculpe, leitor, a homenagem ao
Conselheiro Acácio).
A aceleração do crescimento não parece trazer grande risco para o controle
da inflação. Ela não tem nada de excepcional. O Brasil está se recuperando
de um longo período de crescimento econômico quase sempre medíocre,
inferior
à média mundial e bastante inferior ao de quase todos os principais
emergentes (com exceção do México, outro país que tem se notabilizado por
combinar estabilidade e estagnação). Ainda temos margens substanciais de
capacidade produtiva não utilizada. As taxas de desemprego e subemprego
cederam, mas continuam elevadas. A maior parte da expansão da demanda
interna está sendo acomodada por aumentos de importação (permitida pela
situação folgada das contas externas) e por ampliação das quantidades
produzidas domesticamente. Temos, ao mesmo tempo, aumento do grau de
utilização da capacidade preexistente e aumento do estoque de capital, em
razão dos novos investimentos produtivos.
As recentes pressões sobre os índices de preços se devem, em parte, a
problemas localizados de oferta, ainda que a expansão da demanda também
possa ter contribuído. As expectativas de inflação para 2007 e 2008
aumentaram um pouco, mas continuam bem comportadas. Além disso, a economia
brasileira vem resistindo bem às turbulências financeiras internacionais
desde agosto.
No primeiro semestre deste ano, pela primeira vez em muito tempo, a
economia
brasileira conseguiu crescer a uma taxa próxima à da economia mundial. Mas
ainda estamos crescendo menos do que quase todos os principais emergentes
(o
México novamente é a exceção).
O Brasil apenas começou a tomar um certo impulso. Não vamos abortá-lo por
medo da inflação.

*PAULO NOGUEIRA BATISTA JR. ,* 52, escreve às quintas nesta coluna.
Diretor-executivo no FMI, representa um grupo de nove países (Brasil,
Colômbia, Equador, Guiana, Haiti, Panamá, República Dominicana, Suriname e
Trinidad e Tobago).
*pnbjr@attglobal.net*

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