Blog do Desemprego Zero

Não há dilema no Brasil

Posted by imprensa2 em 17 setembro, 2007

Folha de S. Paulo 9/2007

Os juros e a prova do pudim

É hora de interromper os cortes na taxa de juros?

Antonio Corrêa de Lacerda – “Não”

HÁ AINDA espaço para a continuidade da redução da taxa básica de juros brasileira, que ainda é elevada, comparada aos padrões internacionais.

Não há pressões de demanda que justifiquem uma mudança de trajetória da queda e é preciso estimular o crescimento dos investimentos.

Nos últimos dois anos, a taxa Selic nominal caiu gradativa e seqüencialmente, de 19,75%, nível vigente em setembro de 2005, para 11,25%, em setembro de 2007.

Embora a taxa nominal no período tenha declinado 8,5 pontos percentuais, a taxa real ex ante, dada pela taxa nominal, menos a expectativa média de inflação para os próximos 12 meses ainda é de 7,3% ao ano, cerca de três vezes a média internacional.

Ocorre que, nesse ínterim, a economia brasileira mudou muito. Do ponto de vista do balanço de pagamentos, consolidou-se o superávit em conta corrente, o que permitiu ampliar significativamente o nível das reservas cambiais líquidas, hoje de US$ 162 bilhões. Isso tem permitido ao Brasil minimizar os efeitos das turbulências internacionais e ganhar autonomia nas políticas econômicas domésticas.

Mas há outras mudanças importantes do ponto de vista fiscal. A sustentação do superávit primário e o crescimento econômico têm propiciado a queda da relação dívida pública/PIB, hoje em 44,5%, contra o pico de 55% há dois anos. A conjugação desses fatores torna a obtenção do “investment grade” uma possibilidade concreta.

No que se refere ao PIB potencial e à capacidade produtiva, houve também importantes alterações. Ampliou-se, até de forma descontrolada, o grau de abertura dado pelas importações relativamente à produção local.

No ano, enquanto a produção industrial cresce ao ritmo de 5%, as importações aumentam 22%.

O PIB do segundo trimestre aumentou 5,4%, comparado ao período homólogo do ano anterior. No entanto, o resultado dessazonalizado aponta para um crescimento ainda moderado de 4% ao ano.

Nessa discussão, é preciso aprimorar a qualidade de informação quanto à ocupação da capacidade produtiva da indústria. As informações disponíveis, baseadas nas sondagens industriais, têm a debilidade de não considerar a possibilidade de utilização de turnos na produção, o trabalho em finais de semana e ainda avaliar as mudanças de processo que podem ampliar a capacidade de produção mesmo sem expansão da planta.

A não ser em segmentos muito específicos, que podem ser supridos com importações mediante eventual necessidade, inexiste risco de desequilíbrio intertemporal entre oferta e demanda que gere pressões inflacionárias. Os setores mais aquecidos são também aqueles que revelam maior propensão a investir. A formação bruta de capital fixo vem crescendo (13,8% no segundo trimestre do ano) a um ritmo bastante superior ao médio da economia.

No que toca à inflação, é importante levar em conta o horizonte dos próximos dois anos e evitar a decisão de taxa de juros e crédito somente baseada em impactos localizados de pressões de preços. Nada indica que as projeções se afastem do centro da meta de 4,5%, válido também para 2008 e 2009.

Interromper a redução de juros agora significaria um desperdício de oportunidade em vários sentidos.

A primeira e mais importante é que só a perspectiva de continuidade do crescimento vai estimular os investimentos. Ademais, a redução de juros pode reduzir a pressão de valorização do real, o que é positivo para o valor agregado local e alivia o custo de financiamento da dívida pública.

Diz-se, a respeito do pudim, que é preciso mesmo prová-lo para experimentar o gosto. No que se refere ao juro real no Brasil, ainda não passamos pela “prova do pudim” de romper o paradigma e aproximá-lo da média praticada internacionalmente.

Embora, como abordado anteriormente, as condições para fazê-lo nunca tenham sido melhores nas últimas três décadas!

ANTONIO CORRÊA DE LACERDA, doutor pelo Instituto de Economia da Unicamp, é economista-chefe da Siemens e professor do Departamento de Economia da PUC-SP. aclacerda@pucsp.br

É hora de interromper os cortes na taxa de juros?

Antonio Carlos Lemgruber – “Sim” Sim

O BANCO Central do Brasil deve interromper o processo de baixa gradual da taxa de juros? Sim, claro. Trata-se de decisão de política monetária mais fácil de ser tomada do que aquela a ser feita ainda em setembro nos EUA.

Lá, sim, existe um dilema terrível de política econômica: se o Fed (banco central americano) não mexer na taxa de juros, corre o risco de aprofundar a recessão nos EUA e provocar crise sistêmica hiperbancária; por outro lado, se o Fed reduzir de modo significativo a taxa de juros -como Greenspan fez em 2001, depois do 11 de Setembro-, o dólar desaba contra o euro e o iene, a inflação acelera e o petróleo sobe mais ainda.

No Brasil, não há dilema. A taxa de crescimento acelerou. A inflação está bem, com sinais de aceleração. A economia mundial virou de cabeça para baixo. Não é recomendável continuar baixando a taxa de juros diante desse quadro tranqüilo de inflação e crescimento no lado doméstico e de turbulência no lado externo.

Será uma decisão incorreta de política monetária prosseguir trazendo a taxa de juros para níveis mais baixos no Brasil.

Claro que estamos falando de interrupção transitória no processo de redução de juros -até dezembro, por exemplo-, mas é lógico que, diante de um cenário internacional normalizado em 2008, voltaria a fazer sentido trazer os juros no Brasil para níveis compatíveis com taxas inflacionárias anuais de menos de 5%.

O que está acontecendo no Brasil e nos EUA mostra que o papel dos bancos centrais vai mais longe e é mais complexo do que o atual regime de metas inflacionárias, que parece agradar tanto à diretoria do Banco Central do Brasil.

Os bancos centrais precisam acompanhar as bolhas financeiras e os preços de ativos e saber interpretar o que está acontecendo quando a inflação vai para um lado e os preços de ativos vão para o outro.

De certo modo, mais importante do que discutir a interrupção do processo de queda dos juros no Brasil -para nós, essa é uma decisão óbvia- é acompanhar o dilema de 2007 do Fed diante das bolhas de imóveis, de commodities e de ações, a despeito da inflação baixa.

Isso porque vamos enfrentar algo semelhante em 2008 no Brasil. O mercado de imóveis e bens duráveis está aquecido no país e isso não aparece nos números da inflação. Os preços de ativos precisam ser utilizados como indicadores nas decisões de política monetária, bem como as taxas de câmbio.

Cabe comentar a questão das expectativas. É aí que se formam as bolhas e se verificam fenômenos de “overshooting” em preços de moedas, ações, commodities e imóveis.

O que preocupa de fato -e estamos na outra ponta em relação aos Estados Unidos ou à China- é a supervalorização do real. Os chineses estão felizes da vida, exportando para o mundo inteiro, com um câmbio subvalorizado. Os EUA estão apavorados com a perspectiva de maior desvalorização do dólar, na hipótese de baixarem os juros. Não é um paradoxo. O valor da moeda nos Estados Unidos tem significância especial, como foi lembrado por Paul Volcker.

A “moda” atual da teoria macroeconômica é a seguinte: regime monetário de metas inflacionárias com câmbio flutuante, tanto no Brasil como -após Bernanke- nos EUA.

Está na hora de questionar essa “moda” diante de um mundo complexo, cheio de turbulências, bolhas e ciclos de “overshooting”. A taxa de juros de dois dígitos no Brasil não deveria necessariamente provocar apreciação cambial. Pelo contrário, é compatível com um processo gradual de desvalorização e chega a refletir mesmo essa expectativa. Afinal, uma moeda “forte” está associada geralmente a juros baixos.

Foi uma distorção o que aconteceu nos últimos anos: tomar emprestado em iene japonês, investir em reais e ter lucro. Em nossa opinião, isso acabou, mesmo diante da provável interrupção da queda dos juros no Brasil.

Mudou a percepção de risco cambial.

ANTONIO CARLOS LEMGRUBER, 59, economista, é ex-presidente do Banco Central.

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