Blog do Desemprego Zero

Reflexões sobre o PIB da metade do ano

Posted by imprensa2 em 17 setembro, 2007

(Gazeta Mercantil/Caderno A – Pág. 3)

Antonio Corrêa de Lacerda – Professor-doutor do Departamernto de Economia da PUC-SP. Próximo artigo do autor em 27 de setembro

13 de Setembro de 2007 – A economia brasileira não pode se dar ao luxo de crescer menos de 5%. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou ontem que o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro do primeiro semestre do ano cresceu 4,9%. A indústria cresceu 4,9%, os serviços 4,7% e a agropecuária 1,4% no período.

A primeira constatação importante a ser observada é a redução do hiato do produto, a diferença entre o crescimento brasileiro e a economia mundial. No período 2002-2006, por exemplo, enquanto a economia brasileira cresceu à média de 3,2% ao ano, a economia mundial crescia 4,7%.

A segunda observação importante é que por retratar o valor agregado total da economia, esse resultado não espelha a enorme dispersão observada nos segmentos. Aqueles que têm relação direta e ou indireta com o boom de commodities da economia mundial tendem a compensar as desvantagens competitivas locais. Já os de maior valor agregado, esses vêm perdendo espaço para as importações.

Embora o resultado do crescimento trimestral seja alvissareiro, já que é o melhor em três anos, é importante destacar que é um desempenho distante da média dos países em desenvolvimento. Especialmente, Rússia, Índia e China, os outros componentes do acróstico Bric e acompanhados com lupa pelos investidores, têm tido um desempenho maior e, no mesmo período, cresceram em média 7,5% ao ano.

Do ponto de vista econômico, crescimento significa que a somatória de toda a produção do país de um determinado ano foi maior do que o apurado no ano anterior. Já o conceito de desenvolvimento pressupõe melhora das condições de vida da população. O desenvolvimento mede, entre outros aspectos, expectativa de vida ao nascer, mortalidade infantil, níveis de saneamento, etc.

Enquanto crescimento se refere a uma medida quantitativa, desenvolvimento é uma medida qualitativa. Visando estabelecer critérios de avaliação e mensuração do nível de desenvolvimento, a Organização das Nações Unidas (ONU) desenvolveu o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que apura indicadores de diferentes países e regiões e estabelece um ranking de desempenho.

O Brasil é, nesse sentido, um país de contrastes. Vencemos o desafio no século XX de transformarmo-nos em uma economia industrializada, crescendo à surpreendente taxa média de 7% ao ano, no período 1946-1979. Foi durante os “anos gloriosos” da economia mundial. Porém esse desempenho se dava ao mesmo tempo em que nos consolidávamos como a sociedade de maior nível de desigualdade do mundo.

Como apontamos, eu e os co-autores João Ildebrando Bocchi, José Marcio Rego, Maria Angélica Borges e Rosa Maria Marques, no nosso livro “Economia Brasileira” (Editora Saraiva, 2006- 3ª edição), a industrialização tardia baseada no modelo de substituição de importações gerou, ao mesmo tempo, uma economia moderna e desigual. A realidade do período pós crise dos anos 1980 foi bastante diferente. A “construção interrompida”, na feliz definição de Celso Furtado. A partir de então, dadas as novas condições da economia mundial e as restrições locais, o crescimento médio restringiu-se a apenas 2,5% ao ano.

Embora com esse baixo desempenho durante mais de vinte anos, isso não impediu que possuíssemos em 2006 o nono maior PIB mundial. No entanto, acirrando o contraste, somos apenas o sexagésimo terceiro no ranking do IDH. Um dos fatores que mais pesam no caso brasileiro é a concentração de renda do País. Os 10% mais ricos abocanham cerca de 46% da renda nacional, mais ou menos o equivalente ao dobro da média mundial.

Daí que um dos maiores desafios brasileiro é não apenas aumentar o seu PIB, mas fazê-lo de forma sustentada – econômica, social e ambientalmente. Há uma realidade inexorável dada pelo aumento da População Economicamente Ativa (PEA), que no Brasil cresce cerca de 2% ao ano. Isso implica a necessidade de um crescimento médio mínimo do PIB de 5% ao ano, para suportar o aumento do número de pessoas que vão em busca do seu primeiro emprego e, adicionalmente, superar o incremento da produtividade. Do contrário, sempre que o crescimento se comportar abaixo desse nível, a tendência será de aumento do desemprego e deterioração do mercado de trabalho, como ocorreu no período mais recente citado.

É um quadro bem diferente de países desenvolvidos, como a Alemanha, por exemplo, que dados sua estrutura de renda e baixo crescimento demográfico, por vezes até negativo, pode se dar ao luxo de crescer 2% ou 2,5% ao ano, sem gerar desequilíbrios. No Brasil, embora o crescimento do PIB não seja a única variável suficiente para a melhora do desenvolvimento, ela se torna, dadas as circunstâncias, condição absolutamente necessária.

É com base nesse diagnóstico que abordarei o papel das políticas econômicas como instrumento de justiça social no seminário “A presença da indústria de base no PAC”, organizado pela Gazeta Mercantil, a ser realizado no próximo dia 18 na Fiesp, que contará com a participação de autoridades do governo, além de lideranças, empresários e economistas.

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