Blog do Desemprego Zero

Democracia e o vírus do brasilianismo

Posted by imprensa2 em 18 setembro, 2007

Wanderley Guilherme dos Santos

Leia abaixo artigo publicado originalmente no jornal Valor Econômico:

Dói na alma, mas nem sempre a educação é um bem sem contra-indicação. As
pesquisas reiteram a cada rodada que as classes subalternas têm respondido
com apoio e votos às políticas sociais do governo.
Onde o governo está mais presente é ali onde, proporcionalmente, tem
crescido seu eleitorado. Desmentindo o argumento de que o governo falha em
suas promessas de campanha. As oposições e os descontentes da esquerda
também o acusam de trair sua base popular de origem.

Alternativamente, conservadores e progressistas descobrem motivo de
congraçamento entre si na crítica ao suposto paternalismo governamental,
que seria a razão da aquiescência das massas antes que da promoção de sua
consciência cívica e autonomia política. Como é natural, não se há de
responder com imperfeições terrenas às exigências do mundo platônico das idéias.

Equivalente ideal de pureza orienta os murmúrios de insatisfação quanto ao
funcionamento das instituições legislativas, maculadas que estariam por
operadores corruptos, por vícios simultâneos de origem e decrepitude, além
de repetidas manifestações do insultuoso hábito de legislar em causa
própria.

Do Executivo, o defeito mínimo que se lhe atribui é o da incompetência
gerencial. Mencionam-se ademais, aqui e ali, alheamento, preguiça e
incapacidade de decisão. Pela esquerda histórica, do mesmo modo
insatisfeita, se assegura que o Executivo se encontra manietado por
escandalosos acordos com o conservadorismo. Ou seja, o Executivo, a bem
dizer, nada faz e, quando faz, faz mal ou em má companhia,
descaracterizando o bem-feito.

E assim marcharia o país entre corrupção e inércia, de cambulhada com
alguns outros países, poucos, igualmente cretinos, à margem do benéfico
período de progresso material aproveitado pelo resto do mundo. Nem as
migalhas, nós estaríamos saboreando desta vez.

Trata-se, é claro, de um diagnóstico brasilianista. Tão grave quanto o
bócio e a elefantíase, o brasilianismo é a enfermidade típica do atraso,
mas com patológica distribuição sociologicamente distinta.

Ela contamina preferencialmente pessoas de elevada classe de renda,
habitantes de áreas urbanas, sobretudo no Sudeste do país, com diplomas
universitários concentrados nas áreas de ciências sociais, economia e
comunicação.

Em geral, o brasilianismo não provoca estados febris nem suores
inoportunos, apresentando como principais sintomas uma enorme confusão de
raciocínio, miopia conceitual e daltonismo partidário, estimulando surtos
de verborragia, descontrole de adjetivos e relaxamento das vias
gramaticais. Eventualmente, uma diarréia substantiva.

Dotados de imbatível lógica esquizofrênica, os contaminados costumam passar
por professores, cheios de comendas, donos de escritórios de consultoria,
fartos de encomendas, colunistas bem remunerados, intrigantes de notinhas
jornalísticas e assessores de grupos de interesse.

Honestíssimos, em sua maioria, acreditam no que dizem, com grande pompa e
muita circunstância. Causa dissabor vê-los. Ao contrário dos portadores de
bócio e de elefantíase, cônscios estes da enfermidade que os atormenta, os
brasilianistas desfilam orgulhosamente a própria miséria como portariam um
estandarte de cruzados. Em certo sentido, são mesmo monocromáticos.
Felizmente, o brasilianismo não é sexualmente transmissível. Segundo alguns
clínicos, porque não é sexualmente ativo. Polêmicas médicas.

Embora bem-educados, os brasilianistas têm horror à leitura,
particularmente de matérias sobre o Brasil, à exceção, obviamente, dos
artigos que escrevem uns para os outros. Ignoram as estatísticas, têm vaga
noção do que significa o coeficiente de Gini e não fazem a menor idéia do
que foi a história da América do Sul nem do percurso secular do grande mito
que são os Estados Unidos. Da Europa, conhecem os vinhos, os queijos e o
carnaval de Veneza, em pacote turístico de sete dias. Constituem a mais
acachapante evidência do fracasso da universidade brasileira.

Jamais um brasilianista aceitará a tese de que os pobres votam por uma
razão idêntica à sua, isto é, por interesse. E, conseqüentemente, também
rejeitarão a hipótese de que os carentes sejam tão racionais quanto eles,
os poucos abundantes. Negarão que pertençam ao mesmo gênero de distribuição
de privilégios os subsídios à exportação, a remuneração dos títulos da
dívida pública e os empréstimos pré-consignados. São favoráveis ao controle
da natalidade da população de salário mínimo e à pena de morte, em certos
casos, que é uma forma substitutiva, ou complementar, de controle da
mortalidade. Consideram-se liberais de boa cepa, pois têm entre seus
melhores amigos, segundo testemunho voluntário, um negro, um judeu e um
gay. A discriminação dos melhores amigos é a confissão inconsciente da
lista de preconceitos que cultuam.

Não obstante os brasilianistas, ou melhor, inclusive com parcela do
trabalho deles, vai se livrando das algemas do arcaísmo um país em que os
conservadores parecem ter, finalmente, abandonado a estratégia de rondar os
quartéis sempre que contrariados pela política. A integração material da
sociedade avança pela via do mercado, a despeito dos revolucionários e dos
adoradores dos monopólios, e no qual a Constituição de 1988 conseguiu
evitar a institucionalização de práticas discriminatórias.

O custo de combater preconceitos e discriminações é baixo, no Brasil,
porque não são protegidos por lei. Aspecto crucial, cuja relevância é
perfeitamente reconhecida pelos negros da África do Sul e dos Estados
Unidos e pelos antigos judeus imigrantes argentinos, por exemplo.

A sociedade precisa dos brasilianistas na exata medida em que as
deficiências materiais são ainda tamanhas e a tentação para a
autocomplacência é enorme. Mas estão sobre-representados na produção e
controle da informação pública, comprometendo com sua vesguice melhor
avaliação do que vai pelo mundo e pelo Brasil.

O formigamento social é extenso, a vida comunitária se enriquece municípios
afora, mas de nada disso a maioria da população toma conhecimento,
monopolizado que está o mecanismo de produzir idéias e imagens. Há evidente
descompasso entre o processo de democratização em curso na vida política e
social e o processo de concentração oligopolista no sistema de captação e
difusão das novidades.

A unanimidade brasilianista que absorveu as fontes de informação prejudica
a democracia, constitui ameaça aos direitos do cidadão de estar servido de
fontes alternativas de opinião, nega, na prática, o pluralismo ideológico,
enquanto busca a massificação bovina de leitores e telespectadores.

Nunca o
Brasil moderno, período ditatorial à parte, enfrentou inimigo tão poderoso:
aquele que, tal como um partido subversivo, usufrui da liberdade para
asfixiá-la.
O Brasil real é complexo, pleno de deficiências e de linhas de força, não
está representado na rede para-ideológica de informação, tomada de assalto
pelo brasilianismo.
O brasilianismo é a doença infantil da ditadura da opinião. De onde se
segue a divergência entre o que ocorre no país e o que pensam sobre ele
aqueles que se imaginam educados. Para estes, a educação não vale coisa
alguma.
Wanderley Guilherme dos Santos é membro da Academia Brasileira de Ciências

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