Blog do Desemprego Zero

Economistas ortodoxos aparvalhados pela crise querem redução da taxa de juros. Nos EUA.

Posted by imprensa2 em 20 setembro, 2007

O Estado de S. Paulo

9/2007

 

Faltam preços e sobram ativos

Dionísio Dias Carneiro

 

Nem Osama bin Laden conseguiria causar tanto dano ao Ocidente quanto as armas de destruição de riqueza disparadas pela crise de confiança. Nos anos 70, Fischer Black usou as equações de calor para calcular o preço de ativos voláteis. Físicos usam cálculos práticos e mudam seus modelos quando estes erram muito.

 

Exploram outras idéias e são céticos profissionais. Já financistas, quando mudam muito, viram cínicos, segundo a definição de Oscar Wilde: sabem o preço de tudo, mas não conhecem o valor de nada. Na turbulência, as volatilidades rompem as barreiras e os cálculos dos herdeiros de Fischer Black deixam de servir de pé de apoio aos financistas. Sem preços de referência, o perigo está à solta. Restam o instinto de preservação, a imprevisibilidade típica da turbulência e os bancos centrais.

 

Mas bancos centrais, para emprestar nas emergências, precisam conhecer os ativos e avaliar garantias. Se já não nos serve a precisão das soluções aproximadas das equações estocásticas, que são a alma dos modelos de apreçamento de ativos, todos somos leigos. Quem já recebeu um olhar de indisfarçável condescendência quando perguntou demais sobre as hipóteses por trás dos modelos, e foi tratado como um inocente que perguntava por detalhes do mapa do Santo Graal da prosperidade sem limites, sabe do que estou falando. Quando se levanta a tampa da panela onde volatilidades passadas são transformadas em dados para gerar preços de ativos, o que vemos não é bonito.

 

Resta torcer para que os gestores dos sistemas financeiros nacionais possam limitar os efeitos corrosivos da desconfiança sobre a riqueza financeira. Os poupadores estão na defensiva e os investidores, retraídos. Na reunião do BIS foram anunciados esforços conjuntos dos bancos centrais em busca de uma solução cooperativa. Mas o que podem os banqueiros centrais fazer para diminuir a desconfiança presente, sem aumentar a incerteza futura? Os acadêmicos reunidos no encontro anual do Kansas City Fed recomendaram que fosse promovida uma queda da taxa de Federal funds já em setembro. O diagnóstico é que a taxa neutra, calculada a partir de uma regra de Taylor, já é menor do que os atuais 5,25%.

 

Mas recessão esperada e menor inflação expurgada de alimentos e energia serão razões suficientes? Respeitáveis economistas vocalizaram suas opiniões sobre a folga, de forma nada reticente, como foi o caso de John Taylor, a quem devemos a regularidade da regra monetária, e de Martin Feldstein, presidente do NBER, instituição que reúne, entre seus associados, a nata dos macroeconomistas dos EUA. Mais distante da beleza dos Grand Tetons, onde se realiza a conferência, entretanto, não há tanta homogeneidade de opinião.

 

Nós desconfiamos, e Willem Buiter, da London School, reafirma, que a taxa básica não seja instrumento adequado para lidar com crises de liquidez e de crédito. E que ela só deve cair como parte de um movimento para controlar a inflação (no caso americano, sem meta explícita, a inflação ainda está acima da guideline de 2%, com ou sem expurgo, e o desemprego é baixo). A saída é outra. Bancos centrais precisam ser flexíveis quanto aos ativos que aceitam como colateral, quando tentam compensar a segmentação que impede que excessos de caixa em uma instituição fluam para quem precisa.

 

Entretanto o princípio de que “se o ativo pode ser avaliado pode ser usado como garantia nos empréstimos de liquidez” se torna inútil quando US$ 1,4 trilhão de ativos difíceis de avaliar estão fora dos balanços dos bancos, nos chamados conduits, financiados por commercial papers. Não se sabendo que fração desses ativos poderá será absorvida pela base de capital, os bancos que recorrem aos redescontos de liquidez ficam estigmatizados. Isso significa maior demora, maior risco de fragilidade sistêmica, maior aperto de crédito. Restam os efeitos secundários da crise. Uma correção drástica dos excessos geraria mais do que prudência e agravaria a escassez. O Banco da Inglaterra se recusa a jogar pelo esgoto os frutos da melhor distribuição dos riscos junto com o despejo dos excessos de alavancagem.

 

Por temer o pior, muitos economistas respeitáveis empurram Bernanke para repetir o expansionismo inflacionário da era Greenspan. Moral da história: para evitar uma deflação desastrosa de dívidas, Bernanke vai fomentar a reflação de ativos, estimular a irresponsabilidade que gerou a bolha de crédito e plantar mais inflação. Poderá olhar para além do horizonte tumultuado?

 

 

 

 

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