Blog do Desemprego Zero

Enfim o crescimento, mas…

Posted by imprensa2 em 20 setembro, 2007

VALOR – 09/2007

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras

Quando olhamos o desenvolvimento mundial desde o início da década de 90 do século passado e o comparamos com o do Brasil, não é possível deixar de reconhecer que nos saímos muito mal. Só recentemente, menos por nossas virtudes e mais pela conjuntura internacional, parece que temos a oportunidade de retomar o passo. Não adianta assumir a posição defensiva e afirmar que o descarrilamento se deveu à hiperinflação, à incorporação dos esqueletos do passado, ao endividamento externo, ao irrealismo assistencialista, ao corporativismo implícito na Constituição de 1988 e culminar com a afirmativa que, “em compensação”, terminamos com a inflação.

Tudo é verdade. É muito mais verdade, entretanto, que dezenas de outros países em vias de desenvolvimento enfrentaram problemas de igual ou maior magnitude, eliminaram a inflação e voltaram a crescer robustamente. Aliás, a inflação desapareceu em toda a parte do mundo (talvez esteja escondida hoje na Argentina e na Venezuela) e a nossa (ainda que relativamente civilizada, 3,7% ao ano) é ainda problemática, devido à insegurança subjacente sobre o equilíbrio fiscal. O quadro abaixo mostra as taxas de crescimento do PIB real de 1991 a 2006 e a estimativa para 2007.

tabela4.jpg

É visível o monstruoso atraso do nosso crescimento quando o comparamos com o dos países emergentes (nos quais estamos incluídos), e que, por nosso peso específico, está subestimado. Nos últimos 12 anos (1991/02) nosso crescimento médio anual foi igual a apenas 60% do crescimento dos países emergentes; nos quatro anos seguintes (2003/06) beiramos, apenas, os 50%, e em 2007 (se as condições de pressão e temperatura no mundo não piorarem), devemos crescer a uma taxa equivalente a 75% da deles.

As taxas médias de crescimento anual no período todo foram de 5,2% para os emergentes e 3% para o Brasil, o que não parece tão dramático. Quando, entretanto, corrigimos o aumento real do PIB pelo aumento da população, calculando o crescimento da renda per capita, é que vemos o drama registrado na tabela acima, que mostra que ficamos relativamente mais pobres.

tabela21.jpg

Pode-se “escolher” muitas causas para o evidente fracasso da política econômica do país. Parece evidente, entretanto, que a causa fundamental, a causa de todas as causas, foram as desastradas políticas cambial e comercial do período, que criaram a enorme vulnerabilidade externa que vivemos até recentemente e que nos levou ao FMI duas vezes. Não se trata apenas dos controles da taxa cambial para realizar políticas oportunistas de redução da taxa de inflação, como fizemos em 1994-1998 (e estamos repetindo desde 2004), mas também dos erros de política comercial imperdoáveis, com nossa insistência no multilateralismo que tem, sim, uma justificativa para enfrentar o protecionismo agrícola dos Estados Unidos e da Europa.

O problema é que abandonamos a ênfase nas exportações de produtos industrializados para os mercados mais abertos, que são feitas, principalmente, pelas multinacionais que escolhem suas plataformas na base de “incentivos”. Para ter uma idéia do custo dessa miopia basta lembrar que hoje o comércio intra-indústria Estados Unidos-Japão, Estados Unidos-China e Japão-China é maior do que 50% do comércio total em vários setores (mecânicos, eletrônicos). O comércio das multinacionais representa 2/3 e, entre elas mesmas, quase 1/4 do total dos produtos industrializados.

É isso que explica boa parte do ridículo crescimento de nossa participação nas exportações mundiais quando comparada com a China, como se vê na tabela abaixo.

tabela31.jpg

Temos assistido a um crescimento do emprego, do salário real e da massa salarial que, juntamente com uma expansão do crédito ao setor privado, tem sustentado o aumento do consumo interno. Mas é a suspensão da restrição externa produzida pela melhoria da economia mundial, que elevou a demanda física dos nossos tradicionais produtos exportáveis (agrícolas e minerais) e simultaneamente os seus preços, que está propiciando, graças ao aumento das importações, nosso crescimento um pouco maior do PIB sem pressões inflacionárias. Essa conjuntura favorável não será eterna. Deveríamos aproveitá-la para fazer as reformas que necessitamos e não continuar a aumentar o tamanho do Estado como estamos fazendo.

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