Blog do Desemprego Zero

Lições do paladino da persuasão : Hobsbawm diz que quer ‘ajudar jovens a enfrentar as perspectivas sombrias do século 21 com o pessimismo necessário’

Posted by imprensa2 em 24 setembro, 2007

 O ESTADO DE SÃO PAULO

 setembro de 2007  

CADERNO 2

Paul Laity

Quando o historiador mais conhecido do mundo se concentra nos problemas políticos de hoje, convém ouvi-lo. Eric Hobsbawm celebrou seu 90º aniversário este ano com um livro de ensaios, Globalisation, Democracy and Terrorism, no qual avalia o mundo desde os atentados de 11 de setembro, oferecendo lições ‘que o autor aprendeu, não menos por viver durante e refletir sobre boa parte do século passado’.

Como estudioso que não só tem sido uma presença formidável na disciplina histórica desde os anos 1940, como pode dizer que ‘se lembra vividamente’ da noite fria de inverno em que Hitler tomou o poder em Berlim, Hobsbawm sente-se qualificado a se afastar da cena contemporânea e observá-la ‘num contexto mais amplo e numa perspectiva mais longa’. E sua reputação nunca foi tão alta, graças a seus dois livros anteriores: o relato best-seller do ‘curto século 20’, A Era dos Extremos (1994), considerado obra-prima; e suas memórias Tempos Interessantes – Uma Vida no Século 20 (2002), em cuja escrita ele supera os padrões já exigentes de um renomado estilista.

A amplitude e poder de análise de Hobsbawm são inquestionáveis. Ele fala numerosas línguas, viajou por toda parte e se sente igualmente à vontade avaliando o regulamento Bosman de futebol enquanto explica colapsos do mercado acionário. Até a Spectator, uma revista seguramente hostil a seu comunismo impenitente, o considera o ‘maior historiador vivo’. Ele está feliz por ter chegado aos 90: logo não será incomum, assinala, mas por enquanto isso tem um certo ‘valor de escassez’.

Hobsbawm quer nos ajudar a ver além ‘das paixões e promoções de venda correntes’ – preparem-se, porém: ele não contemporiza com ‘devoções liberais’. ‘Hoje se falam mais absurdos e tagarelices sem sentido sobre democracia no discurso público ocidental do que sobre quase qualquer outra palavra ou conceito político’, insiste. ‘O Islã fundamentalista não é um perigo, quando menos porque ele não pode ganhar nenhuma guerra.’ Jovens ‘lançadores de bombas fundamentalistas’, diz ele, não são nada comparados ao Exército Republicano Irlandês (IRA).

Ele descarta a idéia de que a ONU tenha alguma autoridade independente, e não tem tempo para intervenções humanitárias: ‘A posição normal de qualquer Estado é perseguir seus interesses.’ Hobsbawm avalia dilemas correntes com uma frieza e distanciamento que seus opositores políticos foram rápidos em identificar como um insensível marxismo de mandarim. Delicadeza não faz o seu estilo; ele segue, assim diz, as tradições do racionalismo iluminista e está frustrado com as recentes ‘histerias’ e o ‘sentimento totalmente não estruturado de que ‘alguma coisa precisa ser feita”. Seu objetivo, escreve, é ajudar os jovens ‘a enfrentarem as perspectivas sombrias do século 21… com o pessimismo necessário’. Seu prognóstico certamente não é animador.

Ele fala da ‘extraordinária instabilidade da nova economia global’. O novo imperialismo americano está fadado ao fracasso. Ele teme desigualdades econômicas mais pronunciadas dentro de nações e um aumento da xenofobia no Ocidente, e consegue ver pouco futuro na política verde porque ‘ela só tem apelo para pessoas prósperas’. Referindo-se à mudança do centro de gravidade econômico e tecnológico do Ocidente para Índia e China: ‘Mais cedo ou mais tarde teremos que despertar para o fato de que temos vivido como príncipes e que isso não pode durar.’

Tudo indica que o mundo moderno não agrada a Hobsbawm. Em escritos e falas sente-se sua nostalgia pelos anos entre 1945 e 1975, quando a guerra fria impunha alguma ordem na política mundial e os Estados-nações ainda não tinham sido enfraquecidos pela economia global neoliberal. Ele nunca usou jeans. E com o desaparecimento da classe trabalhadora industrial em mente, fala de viver no ‘momento histórico em que as regras e convenções que haviam até então unido os seres humanos em famílias, comunidades e sociedades deixaram de operar’. ‘São poucos os que conseguem ganhar a vida ‘decentemente’.’ Tudo isso é dito com pessimismo.

Mesmo assim, Hobsbawm procura avidamente sinais mais esperançosos, e sua reputação de indiferença emocional é desmentida pela maneira luminosa com que fala dos acontecimentos recentes em Westminster. ‘Gordon será uma enorme melhoria em relação a Tony Blair (‘Thatcher de calças’) porque conhece as tradições do movimento trabalhista e tem um senso de justiça social e igualdade.’ É desmentido também por sua conhecida sociabilidade. Não uma, mas três festas de comemoração dos 90 anos foram organizadas para ele, e sua casa na borda de Hampstead Heath, onde vive com a segunda mulher, Marlene, é freqüentada por amigos famosos.

Várias passagens em Tempos Interessantes deixam claro que a formação política de Hobsbawm não poderia ter sido mais emocionalmente carregada. É adequado que um homem que foi tão estreitamente identificado com o ‘sonho da Revolução de Outubro’ tenha nascido em 1917. Depois da morte de pais, ele se mudou de Viena para Berlim em 1931 para viver com uma tia e um tio: ‘Esse foi o ano em que a economia mundial desabou, o momento histórico que decidiu a forma tanto do século 20 como de minha vida.’

Em janeiro de 1933, Hobsbawm marchou como membro da juventude socialista durante a noite numa resposta desesperada a uma parada de massa das stormtroopers (tropas de assalto) nazistas. ‘Próxima do sexo, a atividade combinando experiência corporal com emoção intensa ao mais alto grau é a participação numa manifestação de massa.’ Três anos depois, quando sua família se mudou para a Inglaterra, Hobsbawm estava em Paris para ‘as maiores manifestações de massa da esquerda francesa’ – a celebração, no Dia da Bastilha, da vitória da Frente Popular. A esquerda estava unida contra o fascismo e a marcha foi ‘inesquecível’. ‘Eu apenas sentia e experimentava. Naquela noite, nós assistimos aos fogos de artifício acima da cidade de Montmartre e depois saí da festa e caminhei de volta por Paris como se estivesse flutuando nas nuvens, parando para beber e dançar em não sei quantos bailes. Cheguei a meu alojamento quando amanhecia.’

Hobsbawm foi um enérgico comunista em Cambridge no fim dos anos 1930, mas nada na Grã-Bretanha poderia se equiparar à intensidade de suas experiências continentais – exceto o jazz, apresentado a ele em Sydeham por um primo. ‘Convencido de não ser sexualmente atraente, eu deliberadamente reprimi minha sensualidade física e meus impulsos sexuais. O jazz trouxe a dimensão da emoção física indizível, inquestionável, numa vida que não fosse isso seria quase monopolizada por palavras e os exercícios intelectuais.’ Nos anos 1950, Hobsbawm se dirigia ao clube de jazz de Ronnie Scott depois de lecionar, à noite, na Birbeck (Universidade de Londres) – escrevendo sob o nome de Francis Newton, ele foi durante algum tempo o crítico de jazz da revista New Statesment. Seu momento de maior orgulho, ele tem dito, foi receber um título honorífico ao lado de Benny Goodman.

A 2ª Guerra Mundial causou-lhe um impacto particular: ‘Eu vivia entre trabalhadores – predominantemente ingleses – e com isso adquiri uma admiração permanente, muitas vezes exasperada, por sua retidão, sua desconfiança das conversas fiadas, seu sentimento de classe, companheirismo e ajuda mútua.’ Hobsbawm admitiu que se sentiu um pouco forasteiro durante toda sua vida, mas esses soldados, tratados em Tempos Interessantes como ‘os rapazes’ e ‘colegas’, devem ter reafirmado sua política aceitando-o como um deles.

DE BAIXO PARA CIMA

Não é por coincidência que, escrevendo história, ele atraiu, desde logo, um público fora da academia, e que todos seus livros refletem sua política revolucionária, ou ao menos de esquerda – embora milhões que os têm lido como textos estabelecidos possam não ter consciência disso. Ele foi um pioneiro da ‘história de baixo para cima’, uma abordagem influenciada pelas ciências sociais que dominou o meio por décadas.

Rebeldes Primitivos (1959) e Bandidos (1969) tratavam de personagens das mitologias folclóricas de várias nações que se opuseram à opressão da elite. A Invenção da Tradição (1983), editado por Terence Ranger, explorou brilhantemente como rituais e práticas que alegam ser inatas e imemoriais (dos kilts escoceses à família real britânica) na verdade se desenvolveram recentemente e deliberadamente.

Mas Hobsbawm foi mais conhecido durante anos por sua trilogia sobre o ‘longo século 19’. Se a A Era da Revolução, A Era do Capital e A Era do Império são moldados por uma idéia, esta é a relação entre o surgimento do capitalismo e o desenvolvimento tanto da sociedade burguesa como do liberalismo político. Transformações sociais são interpretadas como sendo movidas essencialmente pela mudança econômica, mas não há nenhum estridor do maquinário dialético. Claro, o domínio do capital não significou em toda parte a substituição suave de governos aristocráticos, ou um triunfo sem esforço do liberalismo: a velha ordem só terminou com a crise de 1914.

Hobsbawm foi um membro fundador do influente Grupo de Historiadores do Partido Comunista, com Christopher Hill, Raphael Samuel e E.P. Thompson, mas enquanto quase todos seus colegas largaram o partido nos anos 1950 e 1960, ele preferiu se conservar na agremiação, decisão que tem provocado perguntas incômodas. Por que, depois das revelações sobre as câmaras de tortura de Stalin e os acontecimentos na Hungria e em Praga, ele não saiu de uma organização cujo ponto principal era assumir orientação de Moscou? A publicação de A Era dos Extremos aguçou essa controvérsia, especialmente quando num Late Show da BBC2 em 1994, Hobsbawm respondeu à pergunta se 20 milhões de mortes seriam justificadas para criar uma utopia comunista dizendo ‘sim.’

Essa resposta foi posteriormente descrita como ‘infame’ por Martin Amis em seu livro Koba the Dread, e artigos escritos vergastando Hobsbawm como ‘Professor de Stalin.’ O historiador se esforçou bastante para esclarecer sua posição. ‘Não consigo conceber como o que escrevi pode ser visto como uma defesa de Stalin.’ Ele salienta, também, que o comunismo sempre foi muito mais que stalinismo, e assumiu várias formas no mundo. Se a sua decisão de permanecer no partido poderia ser satisfatoriamente explicada, seria em termos pessoais, que remontam à juventude de Hobsbawm em Berlim e Paris: foi mais difícil para ele romper com o partido do que para aqueles que vieram mais tarde e de outros lugares.

Quase duas décadas se passaram desde o fim da União Soviética, e Hobsbawm é menos perseguido agora por essa controvérsia. Já não se diz um comunista porque, ‘como programa político’, o comunismo ‘não está mais na agenda’, mas continua firme contra a tentativa sistemática de transformá-lo em ‘uma patologia política ou um pecado’: foi uma ‘boa causa’. Uma coisa de que ele não consegue se livrar é o hábito de querer ‘persuadir além de expor’. Ele defende a necessidade constante da ação coletiva e pede a organização de sociedades para o benefício de todo o povo, e não simplesmente dos que acham o sucesso fácil. No momento em que faz 90 anos, ele reafirma a prescrição retumbante que encerra suas memórias: ‘Não nos desarmemos, mesmo em tempos não satisfatórios. A injustiça social ainda precisa ser denunciada e combatida. O mundo não ficará melhor por conta própria.’

Tradução de Celso Mauro Paciornik

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: