Blog do Desemprego Zero

As rendas oclusas

Posted by NOSSOS AUTORES em 20 março, 2008

Por Roberto Pereira d’Araujo*

É constrangedor buscar evidências dos nossos próprios erros nas experiências de outros países. Quem tiver curiosidade, pesquise na pagina do Departamento de Energia dos Estados Unidos* o valor das tarifas médias de energia elétrica dos seus 55 estados. Escolhendo dois exemplos, poderá verificar que elas podem ir desde os US$ 65,30/MWh do Oregon até os US$ 154,50/MWh de Massachussets, uma relação de 1: 2,36, mais do que o dobro.

A ANEEL não fornece a informação por estado, mas a nossa menor tarifa média é a da região Sul com R$ 224,56/MWh. A maior é a da região Centro-Oeste com R$ 284,71/MWh. A relação aqui é de 1:1,26 e, infelizmente, nossa tarifa está mais para Massachussets do que para o Oregon.

Afinal, que mistério é esse? Como uma indústria que produz um serviço homogêneo como a energia elétrica é capaz de fornecer energia com preços tão diferentes? Mantendo a curiosidade no exemplo americano, o leitor poderá dar uma olhada no mapa da reestruturação dos setores elétricos por estado** para descobrir que, ao contrário da enganosa opinião dominante, apenas 14 dos 55 estados implantaram as famosas “reformas” mercantis que tiveram início na década de 90. Nos nossos exemplos, o Oregon está classificado sob o nome “reestruturação suspensa” e o caro Massachussets foi totalmente reestruturado pelo “mercado”.

Não é preciso ser nenhum Sherlock Holmes para entender a “cena do crime”. O Oregon é o estado onde estão localizadas as grandes usinas hidroelétricas do Rio Columbia, como a Grand Coulee (6.495 MW) ou a John Day (2.480 MW). Os americanos privatizaram suas hidroelétricas? De jeito nenhum! Além de não venderem, elas pertencem ao “The United States Army Corps of Engineers” cujo escritório principal está no Pentágono. Principalmente, além de não transferirem a propriedade, não entraram no “canto da seria” da regulação natural via mercado, tão endeusada no nosso país. Chega a parecer ideológico, mas o fato é que, a maioria dos estados ainda prefere o velho conceito de serviço público, onde o preço é calculado pelo poder público como um adicional razoável ao capital investido descontada as amortizações.

Mas, porque justamente no maior país capitalista do mundo, casa de grandes empresas privadas, essa visão considerada “moderna” de um estado não interventor, cuidando apenas do essencial, está tão abandonada? Porque o mercado não define os preços da energia no Oregon? Porque tão diferente de Massachussets? Teriam os Estados Unidos uma curiosa visão “socialista” no setor elétrico do Oregon?

É preciso ser implacável e até áspero para rotular corretamente a atual opção brasileira comparada a esses exemplos americanos. O fato é que os americanos não são bobocas. Eles sabem que uma usina hidroelétrica tem uma vida incomparavelmente maior do que todas outras fontes de energia. Sendo encaradas como investimentos amortizados por tarifa, sua energia se torna praticamente gratuita ao longo do tempo. Para mostrar um cálculo chocante, a hidroelétrica Grand Coulee data de 1942, funciona a 56 anos, produzindo cerca de 22 TWh/ano. Se essa energia fosse comercializada por baratíssimos US$ 30/MWh teriam rendido nesses 56 anos US$ 40 bilhões, renda suficiente para construir umas 6 usinas iguais a essa.

É essa simplória contabilidade que comprova a sandice de tratar uma usina hidroelétrica como produtora de uma “commodity” precificada “pelo mercado”. Vejam que a asneira não está na privatização em si. Ela está no fato de não se apropriar essa “renda oclusa” para o consumidor, que, de fato, é o investidor de última instância, pagando pelo investimento. E nem precisa transformar a vantagem em tarifa barata, incentivando o consumo perdulário, como os americanos. No nosso país, imaginem a quantidade de políticas públicas que poderiam ser adotadas pela utilização estratégica desse diferencial. Apenas para citar algumas, essa renda poderia financiar novas usinas e linhas, suportar o programa “Luz para todos” ou até o “Bolsa Família”.

Apesar de todas essas evidências, mais uma vez vamos assistir em pasmo silêncio a aplicação da mesma política suicida já aplicada no caso das usinas da Eletrosul no governo FHC. É verdade, a CESP vai ser vendida pelo governo de São Paulo. Mas com a valiosa ajuda do governo federal que vai prorrogar as concessões das usinas da empresa. Dessa maneira, elas poderão ser vendidas como se fossem novas, perdendo-se novamente a oportunidade de fazer justiça ao consumidor brasileiro que já pagou as usinas e, pelo jeito, vai pagar outra vez. É preciso levar esse efeito em consideração quando, atônitos, olhamos a tarifa brasileira comparada a outros países.

Além de tudo, não existem regras claras e nem exigências de que a CESP deva destinar pelo menos uma boa parte de sua energia para o ambiente de contratação regulada, constituído pelas concessionárias distribuidoras e seus consumidores cativos. A multinacional Alcoa, considerada um dos maiores fabricantes de alumínio do mundo, é uma das cinco empresas habilitadas pelo Governo de São Paulo a participar do leilão. Cria-se uma expectativa de que ela poderá a vir redirecionar a energia da CESP para novas fábricas de alumínio destinadas à exportação. Não se enganem aqueles que pensam que o processo de privatização foi interrompido. Ele apenas se transmutou. Privatiza-se a energia ao invés das empresas.

Para fechar com chave de ouro a palermice brasileira, recursos privados ou do BNDES, que poderiam ser usados para novas usinas, estarão congelados com simples transferência de titularidade, que, pelas leis da física, não geram 1 kWh sequer.

* Clique aqui para ver
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* Roberto Pereira d’ Araujo: Engenheiro Eletricista e Mestre em Sistemas e Controle pela PUC-RJ. Pós-Graduação em Operation Planning pela Waterloo University. Foi Chefe de Departamento de Mercado em Furnas Centrais Elétricas. Ex-membro do Conselho Administrativo de Furnas. Consultor na área de energia elétrica. Meus Artigos

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13 Respostas to “As rendas oclusas”

  1. Parabéns Roberto! O setor elétrico é outro calcanhar-de-aquiles do governo Lula. Afinal, onde estará a mão invisível do mercado na crise financeira que assola os norte-americanos? Ela deve estar momentaneamente escondida após aprontar mais uma rodada de crise no cassino financeiro.

    Dominique Strauss-Kahn, diretor-gerente do FMI, rechaça a tese do descolamento dos emergentes da crise nos EUA. Segundo a análise econométrica feita pelo FMI, para cada ponto percentual de queda na economia norte-americana os emergentes desaceleram de 0,5% a 1,0%.

    Essa banda de variação depende do grau de relacionamento comercial com os EUA e do PIB da economia emergente. Strauss-Kahn, por sua vez, propõe uma agenda keynesiana para enfrentar a crise norte-americana.

    E o Janus da parceria insossa Lula-Meirelles ainda resiste em reduzir gradualmente a taxa básica de juros a patamares internacionais. Sobrariam certamente mais recursos nos orçamentos públicos para as políticas sociais e os necessários investimentos em infra-estrutura. O mundo ingressou num ciclo de taxas básicas de juros nominais e reais de um dígito. Em muitos casos, taxas básicas de juros reais negativas.

    Bernanke, chairman do Federal Reserve, vem promovendo o ultrakeynesianismo, fato que nos oferece margens de manobras crescentes para crescer com eqüidade a partir das políticas públicas estruturadas nos orçamentos públicos.

    Neste primeiro momento do processo faz-se necessário reduzir a cacofonia produzida pelo neoliberalismo. O governo do presidente Lula poderia estar fazendo mais pelo Brasil. Inclusive no setor energético…

    Um abraço,

    Rodrigo L. Medeiros

  2. Roberto Araujo said

    Grato Rodrigo;

    O mais triste é que quando essas usinas são vendidas valoradas ao “fluxo de caixa descontado”, evapora-se a tarifa histórica justa, a que reflete a amortização, e que estava contabilizada no balanço da CESP. Vende-se a usina como nova fosse. As da Eletrosul, da noite para o dia, viraram “produtores independentes”. Como reverter isso? Impossível.
    Lógico que a Fazenda se apropriou dessa renda “oclusa”. Mas, como você disse bem, a maior parte vai para o ralo de juros recordes do planeta. Alguns parcos benefícios, retirados do consumidor que perdeu um concessionário de serviço público, viram migalhas que ainda por cima são contigenciadas. Não é a toa que temos a bizarra situação de ter a energia hidroelétrica mais cara do mundo.

    Abraço

    Roberto Araujo

  3. Roberto,
    como sempre, excelente texto!
    está mostrando claramente que energia elétrica nesse novo modelo mercantil significa energia elétrica desnecessariamente cara.
    só não concordo com uma coisa. Não acho que é impossível mudar isso. Eu já lhe disse qual é minha opinião. Não podemos ter medo de dizer qual é a solução, ainda que ela seja considerada politicamente inviável hoje.
    Roberto, a política pode mudar muito rapidamente, o que é lento é o processo de convencimento dos “intelectuais” e população sobre o que “deve ser feito”.
    Por isso temos falar com todo mundo desde já qual seria o melhor modelo elétrico para o Brasil.
    Estamos em uma democracia! podemos expressar o que achamos que deve ser o correto.
    Roberto, vc sabe qual é o modelo ideal para o setor elétrico brasileiro.
    abraços,
    Gustavo

  4. Acredito que os maiores erros do Governo Lula foram:
    1) falta de coragem para mudar a gestão da política econômica, principalmente aquela sob responsabilidade do Banco Central. Políticas essas herdadas do governo FHC.
    2) a falta de coragem de mudar de fato o modelo do setor elétrico criado pelo governo FHC.

    Graças a sua fundamental contribuição, somos um dos poucos espaços onde se critica de forma técnica e bem fundamentada esses 2 erros.

    Mas não somos contra o governo, pois também defendemos o governo frente às críticas equivocadas que recebe. A intenção dos grandes tubarões financeiros é manter a sociedade presa a esse debate de “corrupção”, enquanto as verdadeiras questões, como a política monetária e a política energética ficam escondidas.

    Nós aqui neste blog fugimos dessa armadilha!

  5. Prezados

    Exatamente esses são nossos pontos fortes. Não aceitamos fazer apologia do governo Lula, “nunca antes na história desse país (…)”, e tampouco somar esforços com a cacofonia neoliberal que só sabe falar em corrupção. Claro que ela existe.

    Justiça se faça, não foi Lula quem a inventou. Para quem conhece um pouco de história, basta lembrar que Pero Vaz de Caminha pediu favores ao rei de Portugal na primeira carta sobre o Brasil.

    Criticamos o governo do presidente Lula naquilo que ele poderia estar fazendo pelo País. Refiro-me a programas institucionais progressistas estruturados de forma orgânica. Há muito improviso no governo Lula. Visíveis doses de amadorismo político-administrativo e voluntarismo de ações espetaculosas. Lula adora lançar programas novos semestralmente… Os mesmos ajudam a desviar o foco das atenções do elevado “Custo Meirelles”.

    Lembro aos colegas que para cada real gasto com o ‘Bolsa Família’ o governo do presidente Lula direcionou, em 2007, efetivos R$15,38 para quem vive de juros e amortizações da dívida pública. Lula e Meirelles, um Janus da parceria insossa: o que um oferece com uma das mãos, o ‘Bolsa Família’, o outro tira com a outra pelas vias do mercado. Sem esquecer das elevadas tarifas de energia praticadas no Brasil.

    Parabéns novamente Roberto! O Gustavo tem razão. Estamos em uma democracia política e cada um de nós pode pensar da forma que considera adequada. Proponha um novo modelo para o setor, mesmo que o novo não seja tão diferente do que tínhamos em outros momentos que não sofríamos riscos de apagões.

    O que dizer sobre o “novo” papel do sistema Eletrobrás em uma política energética progressista? Integração vertical para substituir a “mão invisível”? O sistema elétrico brasileiro pode operar sustentavelmente do ponto de vista financeiro a partir de rentabilidades marginais compatíveis com o nosso ritmo de crescimento econômico?

    Creio que você sabe a resposta.

    Um abraço,

    Rodrigo L. Medeiros

  6. Roberto Araujo said

    Prezados;

    Em primeiro lugar, desculpem o pessimismo. Talvez seja a idade. Mas talvez seja o fato de que estive nas “vizinhanças” do círculo que comanda o atual governo. O que pude testemunhar sempre apontou para mais um governo de orientação neo-liberal no Brasil. Desculpem a minha intromissão na seare econômica, mas as diferenças do período FHC são pontuais e periféricas. O núcleo da política é o “mais do mesmo”. Acho que programas tipo Bolsa,são migalhas no contexto desse estado coletor de impostos e omisso. Evidente que dada a absurda carência, para o povão são importantes, mas continuam sendo políticas assistencialistas.
    Lógico que alguma coisa melhorou, mas seria quase impossível não fazê-lo. No meu setor, o governo FHC cometeu barbeiragens tão grosseiras que levaram ao racionamento. Lula corrigiu o óbvio. Mas, dada a gravidade e o ineditismo da crise energética de 2001, que confeririam a Lula a legitimidade para a fazer a reforma estrutural necessária, o governo fez muito pouco.
    Não foi falta de proposta. Em 2002, no Instituto Cidadania, com a presença da Dilma, Mantega, Pinguelli, Ildo Sauer e do próprio Lula, propusemos as bases do que deveria ser feito. Quando saiu a “carta aos brasileiros” e o programa de governo, não vimos nenhuma menção a nada do que foi proposto.
    Depois, já em 2003, o MME montou um grupo para estabelecer as bases para um novo modelo. Eu estava nele. Um grupo de técnicos da mais alta qualificação do setor estatal propôs um modelo chamado de M1. Um outro grupo, tambem qualificado, mas já ligado à Ministra, propôs um M2 que é o que está ai. Evidentemente, perdemos. E mais. O grupo do M1 foi dispensado e outra equipe, com ligações com o setor privado, foi montada. Agora mesmo, propus um estudo sobre a formação do custo marginal de curto prazo que foi rejeitado por “medo do mercado”.
    Não se enganem com a super Eletrobrás. Existem diversos esqueletos dentro dos armários. Não dá para explicar aqui, mas, algum dia vai aparecer.

    Abraços

    Roberto Araujo

  7. http://desempregozero.org/2008/03/19/lula-e-meirelles-janus-da-parceria-insossa/

  8. Roberto,
    Compreendo perfeitamente suas colocações. Você tem toda razão.
    A política econômica e energética são francamente neoliberais
    Aliás, em nenhum momento lhe tirei a razão. Sem dúvida nenhuma a política econômica, que é o cerne de qualquer governo, é extremamente neoliberal. Não só neoliberal. É suicida. O banco central está conscientemente levando o Brasil para o buraco (clique aqui para entender http://desempregozero.org/category/debates-nacionais/meireles-e-contra-ou-a-favor-ate-quando-ele-fica/ ). A política energética vai pelo mesmo caminho, mais do que neoliberal, também é quase suicida (clique aqui para entender http://desempregozero.org/category/debates-nacionais/havera-outro-apagao/ ). Ambas as políticas estão favorecendo a piora na distribuição de renda e o baixo crescimento do emprego. Os economistas neoliberais dizem que a distribuição de renda melhorou nos últimos anos. Mas isso só é válido se compararmos a classe média com a classe miserável. As pesquisas do PNAD-IBGE que dizem que a distribuição de rende melhorou tem um forte viés que faz com que elas não captem adequadamente o aumento de renda dos extremamente ricos. A renda deles nunca cresceu tanto. A participação deles na renda continua aumentando.
    Mesmo na política social, onde eu ferrenhamente defendo o governo contra os ataques da imprensa, as bases são todas neoliberais. Quase todos os economistas que trabalham para o Ministério são neoliberais. Muitos dos quais eu conheço pessoalmente. Esse neoliberalismo causa diversos problemas à política social do governo. Um dos quais é a insistência em adotar critérios de focalização e não de universalização de direitos. Os problemas de corrupção na distribuição do bolsa família, por exemplo, decorrem desse princípio neoliberal. A discricionariedade de concessão de benefícios utilizada, além de criar espaço para corrupção, é anti-direitos-sociais. Outros problemas decorrem da baixa ambição do programa com relação ao desenvolvimento humano e social. Baixa ambição está associado ao baixo orçamento. Os economistas neoliberais que trabalham no programa gastam a maior parte do tempo pensando em economizar o máximo os recursos, quando deveriam estar pensando em como retirar mais verbas do Ministério da Fazenda com novos programas para dar melhores condições de ascensão e desenvolvimento para todas as famílias carentes.
    Entretanto, não posso deixar de louvar esse programa, que apesar dos neoliberais e do pequeno orçamento, é uma revolução para as pessoas mais miseráveis do país. Ele definitivamente mudou o país. Conseguiu tornar a fome um fenômeno marginal no país. É pouco perto do que poderíamos fazer, mas é muito se comparado aos governos anteriores. Isso se deve à existência de real preocupação social neste governo, em particular no seu partido principal, o PT. O sucesso administrativo e político do programa eu credito na extrema capacidade e honradez do ministro Patrus Ananias e vários de seus auxiliares. Ele é o mais discreto achado do governo Lula.
    Como você, eu estava completamente desesperançoso e mesmo revoltado contra o governo Lula. Era insuportável ver o Palocci mentir tão cinicamente todos os dias. Ele dizia que aquelas políticas, que ele tão maliciosamente defendia, teriam sido aprovadas pelo PT e pelos eleitores a partir do momento que foi aceita a “Carta ao Povo Brasileiro”. Mentira! Aquela “Carta” é um documento genérico que de jeito nenhum leva a entender que o governo Lula faria uma política econômica mais neoliberal em seu primeiro mandato do que FHC.
    Palocci o sinistro da Fazenda sempre manipulou. Apenas os banqueiros e financistas não eram enganados. Eles ficavam extasiados e, às vezes até corados, com as declarações do ministro. Ele ia muito além do recomendável em defesa do neoliberalismo. E sempre disse que estava fazendo apenas o que foi colocado no programa do PT… o que, aliás, seria a única coisa responsável a se fazer… Obviamente eram grandes mentiras.
    Seu secretário de Política Econômica dizia que Pedro Malan merecia uma estátua em praça pública pela excelente gestão no governo FHC. Elogios que não saíram de graça. Depois da saída do Palocci, esse secretário foi ser diretor no mesmo banco que o Mallan dava as cartas. Mas o que mais estranha é que o ministro até incentiva tais declarações para melhorar a própria “credibilidade” frente aos bancos. Ele sempre soube que era a Febraban e não o PT que o sustentava. Por isso fazia questão de humilhar o partido com essas declarações que jogavam por terra tudo o que o partido havia defendido até então.
    A verdadeira natureza do ministro era evidente a quem acompanha de perto a política econômica e compreende o que ela significava. Essa natureza só ficou explícita quando ficamos sabendo o que se passava na Mansão alugada pela República de Ribeirão Preto denunciada pelo ex-sócio de Palocci e pelo caseiro Francenildo.
    A política energética, como já foi comentado diversas vezes nesse blog, seguiu caminho parecido. Mas ao contrário da política econômica do Palocci, houve pequenas melhorias nela em relação ao período FHC. (clique aqui para ler http://desempregozero.org/category/debates-nacionais/havera-outro-apagao/)
    Porque isso tudo aconteceu?
    Já tentei explicar isso diversas vezes. Acho que em parte se deve ao fato de que a toda a esquerda brasileira a partir do final da ditadura passa a acreditar nas “teorias” da “esquerda” Uspiana, como a “teoria” da dependência de FHC. A crença generalizada nessas “teorias” foram mortais para o desenvolvimento brasileiro dos últimos 25 anos pelo simples fato de que rejeitam o desenvolvimentismo. O desenvolvimentismo como arcabouço de orientação de política é o único caminho possível para o desenvolvimento. Clique aqui e aqui para entender.
    Essas crenças anti-desenvolvimentistas eram fortíssimas no PT, o que fez o partido atrair muitos economistas neoliberais nos anos 90. Mas mesmo a elite os economistas progressistas do partido, oriundos na maioria da Unicamp, tinham dificuldades em conceber uma política desenvolvimentista eficaz. Esses na minha opinião, ficaram presos a teorias proto-monetaristas equivocadas de inflação. O que gerou neles uma grande dificuldade de compreender as potencialidades das políticas monetárias, cambiais e fiscais. Um dos problemas gerados por esses deficiências teóricas era acreditar que o Brasil esteja irremediavelmente à mercê dos capitais e das crises internacionais. E que não poderíamos em 1995, 1999, 2003 ou mesmo hoje uma política econômica realmente autônoma.
    Essas deficiências estão sendo superadas mais recentemente graças a avanços teóricos desenvolvidos ou difundidos a partir do Instituto de Economia da UFRJ. Acredito que essas novas teorias já serão hegemônicas quando começar o mandato do próximo presidente. Esse novo material teórico está sendo aos poucos desenvolvido no blog Crítica Econômica. Uma versão extremamente didática e bem conhecida pode ser encontrada aqui (clique para ler http://desempregozero.org/2008/03/10/tres-caminhos-para-o-pleno-emprego/ ).
    Uma outra questão importante para compreender o governo atual é entender que o Lula não é e nunca foi de esquerda como ele mesmo diz e várias pessoas já confirmaram. A última pessoa que eu li que faz a mesma afirmativa foi Emílio Odebrecht:
    “O presidente Lula não tem nada de esquerda, nunca foi de esquerda”.
    Li isso no blog do Azenha (clique aqui para ler).
    http://www.viomundo.com.br/opiniao/o-pt-traido-lula-nao-e-de-esquerda/
    Lula nunca foi de esquerda. Mas Lula era exatamente o que a esquerda paulistana no final da década de 70 sonhava. Eram proto-marxistas, anti-desenvolvimentistas, anti-nacionalistas e anti-tecnocratas. Lula era uma liderança que se encaixava perfeitamente em todas as fantasias. Era o herói operário que governaria para os operários. Em 1980, não sabiam que só havia operários em quantidade em São Paulo, mais de 50% dos operários do país estavam lá. Provavelmente mais de 70% dos metalúrgicos. No resto do país, ser operário metalúrgico era um sonho que só com muita política desenvolvimentista poderia ser alcançado…
    Lula não enganou ninguém, pois não dizia que era de esquerda. E nem enganou exibindo muito conhecimento em política econômica. A esquerda paulistana é que inventou que bastava ser operário reinvidicador para ser o grande líder que precisamos para a redenção do operariado…
    Conhecimento de política econômica? Isso seria “coisa de tecnocrata”.
    25 anos de fantasia nos fez bater com a cara na realidade.
    As razões para se ser esperança
    Essas são, na minha opinião, as principais razões pelo qual houve tanta decepção no início do governo.
    Elas explicariam porque: as políticas econômicas e energéticas são radicalmente neoliberais e os princípios neoliberais condicionam quase todas as políticas sociais do governo.
    Mas isso é motivo para ser oposição ou não mais acreditar no governo Lula?
    Na minha opinião, NÃO.
    Porque o governo Lula tem continuamente mudado positivamente desde a saída do Sinistro da Fazenda Doutor Palocci. Lentamente, com altos e baixo, mas tem mudado.
    Há muitas coisas boas que o governo está planejando ou que ainda pode fazer nos próximos três anos. Essas esperanças sustentam o governo. Sustentam a partir duas bases diferentes:
    A primeira é o povo mais humilde que está aprovando o governo e que lhe dá popularidade.
    A segunda é a parte significativa da esquerda brasileira que tem voltado para apoiar o governo a partir do final da campanha de 2006. As críticas ao governo e à figura que representa o presidente Lula passaram em grande parte a ser tão mentirosas e tão tendencialmente fascistas que cada vez mais passou a ser difícil não defender o governo delas. Essa erupção fascistóide irrompeu na internet e foi lá que gerou a reação mais forte. A grande imprensa dava as diretrizes dos ataques e espaço nas seções de comentários à direita raivosa e radical. Assim os blogs passaram a ser o único contraponto. Toda esquerda na rede fluiu para eles. Hoje eles são influentes e até capazes de comprar briga com grandes empresas de mídia, como Luís Nassif recentemente fez com a Veja (clique aqui http://www.projetobr.com.br/web/blog/4 ). A esquerda se reorganizou a partir da Net e tem conseguido neutralizar as acusações falsas lançadas pela mídia contra o governo.
    Essas duas bases de sustentação do governo não existem à toa. Em decorrência da melhoria (ainda muito pequena) de vida das populações mais pobres, podemos dizer que o governo Lula está sendo melhor do que o governo FHC. E nas políticas sociais tem muitas coisas boas sendo planejadas. Isso mantém a popularidade de boa parte esquerda com o governo.
    Mas a esquerda conta outros pontos positivos do governo. A política externa do governo Lula é muito diferente do FHC. Diferente para melhor. Hoje temos um claro papel de liderança e de mediação de conflitos no continente. Papel que os americanos sempre dominaram inconteste. Hoje chamam o Brasil para mediar qualquer conflito. Porque o governo Lula teve coragem de utilizar a credibilidade de sermos uma nação pacífica e legitimamente preocupada com as questões latino-americanas.
    Outro ponto positivo para a esquerda é que pararam as privatizações e no segundo mandato pararam as reformas neoliberais.
    Há esperanças de mudança até na política econômica
    Mesmo na área econômica há motivos para esperanças. Para mim há 2 mudanças fundamentais:
    1) O PAC
    2) A nomeação de Marcio Pochmman para o IPEA
    Em mais de 2 décadas, o PAC é o primeiro esboço de:
    a) Planejamento
    b) Política fiscal ativa
    c) Política de infra-estrutura.
    Essas 3 coisas são fundamentais para qualquer política desenvolvimentista. Para uma política desenvolvimentista completa só falta:
    d) orçamento robusto
    e) juros baixos
    f) câmbio desvalorizado
    A nomeação de Marcio Pochmman não é vista como um marco tão significativo. Mas é uma revolução e isso já pode ser visto pela Revista Desafios do desenvolvimento que está claramente progressista agora. Clique para ler http://desafios.ipea.gov.br/default.jsp ) . Não é à toa que essa simples nomeação sofreu tão brutal ataque da imprensa. A imprensa mentiu ostensivamente sobre os detalhes dessa nomeação. Nos últimos anos, um bom critério para avaliar se algo é bom é ver a agressividade com que a imprensa vai contra. A Veja em particular é muito boa nisso. Se ela disse que algo é ruim, podem confiar, é bom! Diogo Mainardi e Reinaldo Azevedo bateram pesado contra a nomeação de Pochmman…
    Eles são sempre muito precisos, Marcio Pochmman é um dos economistas mais geniais e mais sérios de sua geração. No IPEA, ele poderá lançar as sementes da grande mudança que todos esperamos. No IPEA?
    Alguém poderia dizer que o BNDES é um órgão mais importante e no primeiro mandato teve o bravo Professor Carlos Lessa no comando mudando completamente a orientação em favor do desenvolvimentismo. Mas hoje temos o Professor Luciano Coutinho, que também não é neoliberal.
    O IPEA também é muito importante, como pudemos constatar com a ferocidade da imprensa. Ele era uma das principais bases de reprodução ideológica do neoliberalismo no Brasil. A principal base de reprodução do neoliberalismo é a academia de ciências econômicas. Isso acontece porque nenhuma política econômica no mundo de hoje é conduzida sem a chancela de alguma corrente de economistas. Fazer isso seria suicídio político. Por seria como fazer algo sem a chancela da “ciência”. Seria como fazer uma política de saúde sem o aval de boa parte dos médicos. Na democracia, a ciência ocupou o lugar da religião como a justificativa política por excelência.
    Infelizmente, até por isso sempre há economistas dizendo tudo sobre qualquer coisa. Se os poderosos querem um conclusão, pagam algum economista para produzi-la. A academia de economia é como um supermercado, onde os políticos e grandes empresários podem comprar qualquer opinião. Entretanto, esse expediente não é tão simples, comprar opiniões minoritárias sai muito mais caro.
    Além disso, ter aval dos economistas não serve apenas como justificativa. Os economistas controlam toda a máquina pública que administra a política monetária. E fazem isso como funcionários públicos concursados. Funcionários públicos tem estabilidade no emprego exatamente para poder agir segundo suas convicções. Uma política tem muito dificuldade em ir para frente contra a opinião desses funcionários que estão na administração criando os detalhamentos jurídicos e administrativos que tornam a política efetiva. Portanto, ter aval de parte dos economistas não é tão eficaz. O ideal e ter o aval da opinião hegemônica dos mesmos.
    O neoliberalismo ganhou a guerra nas mentes dos economistas nos anos 90. Fez isso a partir do final dos anos 80 por três caminhos:
    1) As universidades de elite em pós-graduação em economia francamente neoliberais começaram a atrair mais jovens e oferecer mais vagas. Essas mesmas universidades colocavam o título Doutorado em Departamentos de economia conservadora norte-americana como o supra-sumo do saber. Só com esse título, sua opinião seria realmente “de valor”
    2) Os órgãos de pesquisa e revistas acadêmicas em economia passaram a publicar predominantemente estudos pró-neoliberais.
    3) A imprensa reverberava esses estudos e conclusões neoliberais.
    Hoje a esquerda, e os progressistas estão começando a ganhar batalhas.
    1) As universidades progressistas de elite em pós-graduação em economia (UFRJ e Unicamp) estão se tornando as preferenciais dos jovens alunos. Outras Universidades de Excelência no país estão abrindo cursos de desenvolvimento ou colocando linhas mais progressistas, keynesianas. O título de PhD nos EUA perdeu a credibilidade que tinha na era FHC.
    3) Na Internet está surgindo uma nova imprensa, os blogs, que são capazes de transmitir as novas conclusões formas de pensar o Brasil e as políticas públicas que estão surgindo na academia e órgãos de pesquisa.
    2) O IPEA é um órgão fundamental pois tem uma rede de pesquisadores extensa e muito qualificada. Além disso, controla diversos órgãos de publicação de pesquisa. Marcio Pochmman em poucos meses já mostrou uma linha de publicação muito diferente e que já está difundindo nova idéias pela rede e até pela grande mídia.
    Conclusões: Há esperanças no governo Lula e não podemos nos abster de nos posionar
    Concluo, assim, que há motivos para se ter esperança.
    Não só para ter esperança, mas também para não ficar calado e fazer algo para contribuir na mudança.
    Acredito que vale à pena defender o governo onde ele está certo!
    Temos ainda 3 anos de governo e há potencial de que muitas coisas boas para o país aconteçam nesses 3 anos. Se fizermos oposição completa (ainda que pela esquerda) ou mesmo não ajudarmos a defender as boas medidas, estaremos contribuindo para que esses próximos 3 anos sejam um desperdício para a nação e, portanto, para nós mesmos nas questões que referem à coletividade.
    Mas isso não significa que não devemos criticar o que está errado:
    São duas coisas basicamente que estão erradas:
    1) a política do Banco Central do Meirelles (clique aqui para entender http://desempregozero.org/2008/03/22/por-que-o-brasil-ainda-e-um-dos-que-menos-cresce-entre-os-emergentes-porque-o-meirelles-ainda-nao-e-presidente-da-republica/ )
    2) o modelo de gestão da política energética (clique aqui para entender http://desempregozero.org/2008/02/04/por-que-as-tarifas-foram-para-os-ceus/ )
    Não vejo razão para defender essas políticas do governo Lula. Mas mesmo elas e muitas outras podem melhorar se pressionarmos e se o governo se fortalecer no congresso e frente às altas finanças e à grande mídia. Pois boa parte do governo é progressista.
    O PT é um partido progressista na sua maioria. E é um dos poucos grandes partidos do planeta que tem eleições diretas para presidente. O PT é sim uma grande barreira ao avanço do neoliberalismo, pois tem povo, democracia e opinião. No primeiro mandato o partido ficou perdido e não conseguiu ser essa barreira. Mas isso está mudando. Tanto é verdade que e grande mídia percebeu e não para de atacar.
    De jeito nenhum vale à pena estar, como o PSol, do mesmo lado de uma oposição que derrubou o provavelmente mais justo imposto brasileiro que era a CPMF (clique aqui para entender http://desempregozero.org/category/debates-nacionais/cpmf-e-agora/ ).
    Nesse episódio, o governo Lula mostrou que ainda vale à pena depositar esperanças nele. Em resposta, o governo aumentou a Contribuição sobre Lucro Líquidos do Bancos.
    o governo merece os aplausos por isso.
    mas vamos continuar cobrando melhorias no que for necessário.
    abraços,
    Gustavo

  9. Roberto Araujo said

    Gustavo;

    Estou meio atônito com sua longa resposta. Mais tarde vou ler todos os links. Espero que você tenha razão e que o estado brasileiro seja capaz de fazer as transformações necessárias. Isso porque, na minha visão, já passamos muito do ponto. Confesso que temo pelo futuro.
    E o pior é que, ao contrário do século passado, o confronto não virá pela revolução, que, pelo menos é uma forma organizada de se alterar o arranjo do poder. Virá pelo esgarçamento crecente das organizações sociais. Na nossa cidade virá pela crescente insegurança para a alegria dos fabricantes de grades e equipes de segurança privadas.
    A impressão que tenho é que a sociedade brasileira se tornou insensível, complacente e, principalmente, frouxa! É “o homem cordial” do Sergio Buarque de Holanda.
    Apesar dos esforços de espaços como esse, não vejo a menor possibilidade de que esses assuntos sejam sequer debatidos pela mídia. Parece que falamos para nós mesmos.

    Abraço
    Roberto

  10. Roberto,
    desculpe pela longa resposta. Resolvi escrever um artigo quando estava lhe respondendo. Mas agora fiquei na dúvida se publico. Acho que fui muito agressivo com certas figuras. Não que elas não merecessem, mas não é bom criar resistências em várias frentes ao mesmo tempo.
    Há tempos eu tento entender o que está acontecendo no país. Esse comentário-artigo acabou saindo por impulso. Agora vou acabar escrevendo outro.
    Não sou tão pessimista. Primeiro porque acho que as crenças que constroem o futuro. Se 190 milhões de pessoas acreditam que algo é possível, isso será possível.
    É o pessimismo que nos deixou nessa situação, na minha opinião.
    Não acho que vivemos em uma sociedade especialmente insensível, complacente ou frouxa. Aparentemente sim. Mas isso decorre, na minha opinião, do próprio pessimismo, que faz com que aqueles que tem energia e capacidade de mudar algo desistam.
    Em todas as sociedades existem pessoas com fortes instintos de dominação e com desejo de exibição de superioridade. Muitas dessas pessoas, por grande esforço pessoal ou nascença, acabam constituindo boa parte da elite.
    O que nos diferencia de sociedades que admiramos é que aqui, essas pessoas tem poder em excesso porque nossa democracia é muito fraca. É difícil aqui limitar o poder dessas pessoas pela democracia. Nossa imprensa é oligopolizada, quase monopolizada por tipo de mídia, e boa parte da população não tem educação. Quem quer mudar terá muita dificuldade de ser ouvido.
    Nossa elite ainda tem um problema adicional. Ela não admira o país e seu povo, portanto, não admira a si própria. Ela é pessimista, ela abaixa a cabeça frente a um estrangeiro. Por isso não tem nenhuma tendência construtiva. Quando ela está no poder incontestemente o país se corrói. A regra deles é depredar. Para entender como eles pensam, basta ler Diogo Mainardi. Ele é um caso clássico. Sem escrúpulos, sem honra, sem moral, sem fé, sem dignidade, sem qualquer esperança. Ele não é colocado naquela posição à toa. O Nassif nos honra com desmascaramento que fez com ele com a Revista Veja.
    Mas se acreditamos que podemos mudar, tudo isso pode ser superado. Já superamos dificuldades maiores outras vezes em nossa história. O Brasil não é como os EUA, planejado e construído para ser o modelo para o universo.
    Nós nunca fomos planejados, nós nos criamos por acaso. Nos formamos pelo desejo de sobreviver e, se possível, viver em um trópico selvagem. Um dia descobrimos que tínhamos unidade e beleza. Se somos o “homem cordial” do Sérgio, somos também mais ternos, mais tolerantes que outros povos.
    Esse mundo violento e sem lei que vivemos não é nada mais nada menos que a continuidade de sempre de nossa história. Sempre fomos uma terra sem lei, um reino da violência. Antes era no interior, hoje é nas grandes cidades. Mas hoje nos indignamos muito com isso. Em um passado mais distante, nem isso. Isso significa que as coisas vão mudar para melhor. A raiva é a energia da mudança. Só precisa ser direcionada pelo otimismo.
    Estamos apenas saindo do fundo do poço de um ciclo longo de atraso político que começou com a ditadura que negou a democracia dos anos 50. E econômico que começou com a negação Uspiana do otimismo nacional do anos 50, o desenvolvimentismo.
    A elite pessimista e predadora e seus laços norte-americanos reagiram contra o que não aceita: democracia e otimismo. O otimismo é especialmente repugnante e assustador para eles. O status quo depende desesperadamente do pessimismo para se manter.
    Nos venceram por alguns anos. Não pela força, mas pelas idéias. Está na hora de assumirmos de novo o que é nosso. Mas dessa vez será mais forte. Somos muito mais capazes hoje do que éramos nos anos 20 do século passado.
    Acredito que o governo Lula é um pequeno passo nessa direção, apesar de todas covardias possíveis. O fato de o atacarem initerruptamente mostra que, ao menos na simbologia, o presidente emana algo que pode ser assustador para o status quo. Ele tem um referencial muito popular. É como se ele dissesse sem querer: “nós podemos”, “isso aqui pode ser nosso também”.
    Derrubar o presidente Lula a pontapé, enxotado, seria uma vitória o pessimismo. Uma demonstração de que o povo, a esquerda, os progressistas em geral não tem motivos para terem esperanças. “O país não tem jeito”, somos todos corruptos, até o povo simples, até aqueles em que foi depositado todas as esperanças de mudança. É como dissesse que somos todos traidores e vendidos.
    Seria uma grande derrota. Não acho que a palavra traidor seja a mais adequada para designar o presidente Lula. Ele cometeu muitos erros. Mas não bate sempre do mesmo lado, como FHC.
    Prefiro trabalhar para convencer o presidente a bater mais vezes a nosso favor nos próximos três anos, do que trabalhar para ele sair enxotado da presidência.
    Não vou também me abster de tomar posição nessa briga. Continuarei procurando boas razões para ser otimista. Se todos fizerem isso, o futuro que desejamos já estará construído, no presente. É tudo uma questão de crença coletiva.
    Sobre nosso pouco espaço na mídia, não faz tanta diferença. A elite e a anti-elite hoje formam opinião na internet.
    Vou escrever aqui neste blog como acho que devem ser as coisas. Muitas pessoas lerão, muitas se convencerão e difundirão.
    O mesmo acontecerá com seus excelentes textos sobre a questão energética. E com seu livro que escreverá. Principalmente se contiver propostas.
    Tenho certeza.
    abraços

  11. Roberto Araujo said

    Gustavo;

    É bom ir se acostumando com o meu pessimismo. (Hehehe). Mas, existem dois tipos. Um é o que você descreveu, o pessimismo destrutivo. Outro é o pessimismo que, apesar de não esperar nada de bom, age para que alguma coisa boa ocorra. Estou nesse segundo tipo em companhia do Luis Fernando Veríssimo que, numa crônica, já definiu muito bem essa “filosofia”.
    Propostas não faltam. Tentamos no MME e na Eletrobrás. Foram rejeitadas pelo governo. Continuo tentando. Afinal, estou nesse blog.
    Mas, sinceramente, olhando de hoje, acho que fomos ingênuos. De certo modo, fomos muito parecidos com a geração de 68, que achava que, através da luta armada iria resolver o problema da desigualdade. A única diferença é que as nossas “armas” eram a técnica, o método, a lógica, essas coisas que não valem nada no Brasil.
    Sei lá! Raizes históricas nos transformaram numa cidade complacente sim. Leia qualquer um dos livros sobre a vinda da família real e verá um espelho de nós mesmos. Muda. Mas, mas leva tempo. No meu tempo, a experiência de decepção com o PT foi muito grande e muito grave. Essa metamorfose do Partido no governo e a postura como se nada tivesse ocorrido já é uma prova da “frouxidão”.

    Desculpe o pessimismo,

    Roberto

  12. Roberto,
    você está coberto de razão. Você se dedicou, trabalhou, confiou e não honraram sua confiança.
    está muito claro que o seu pessimismo não é destrutivo.
    vc faz denúncias e expõe proposta que são fundamentais
    http://desempregozero.org/category/todos-nossos-autores/roberto-daraujo/
    o seu “pessimismo” (que não acho tão pessimista) tem a função de apontar os erros e encontrar outros caminhos.
    mas não basta criticar e imaginar caminhos,
    é preciso fazer, gastar muita energia.
    e para isso ser otimista ou pessimista pode fazer uma grande diferença.
    eu insisto, que só o otimismo pode mudar.
    e mais não acho que o pessimismo está errado. e nem o otimismo está errado.
    eles são formas diferentes de ver a relação entre o presente e o futuro.
    mas o futuro não existe ainda. está sendo escrito agora com as crenças de temos.
    não é possível provar que não podemos ser desenvolvidos. mas também não é possível provar que seremos. o pessimismo e o otimismo estão relacionados a probabilidades. um pode ser mais provável do que outro, mas mesmo essa probabilidade depende de nossas crenças.
    No Brasil nos últimos 30 anos, temos vivido em uma espécie de letargia pessimista combinada com ilusões. De vez em quando essas ilusões nos dominam e criam breves surtos de otimismo.
    eu quero dizer que o erro não foi só do Lula e do PT.
    nós que esperávamos mais do que eles podiam dar, fantasiamos.
    por isso também erramos.
    acho que a esquerda brasileira nos últimos 25 ficou enebriada de ilusões.
    Ilusões que os políticos tradicionais não prestavam e não são a solução. O PMDB se acabou nessa ilusão patrocionada pela grande mídia.
    PSDB e PT foram os partidos construídos nessa visão anti-política.
    Tivemos ilusões com relação ao Lula e o PT, ilusões em relação a FHC, que era considerado o “príncipe dos sociólogos” mas era um farsante, como percebemos depois.
    Não dá para ficar sempre esperando salvadores da Pátria, devemos fazer o mundo progredir com os políticos que estão aí, humanos, cheios de problemas, mas também com talentos e com possibilidade de momentos de lucidez e coragem.
    ao mesmo tempo que não convém criar salvadores da pátria, não convém jogar no lixo e desconsiderar a participação de qualquer partido ou político.
    se jogarmos o PT no lixo da história breve aparecerá algum salvador da pátria para embarcamos em outra furada.
    Faltam 3 anos. o Governo toma medidas corretas e equivocadas.
    as corretas a direita e os grandes tubarões da mídia são contra, as equivocadas eles costumam ser a favor. acho que devemos fazer o movimento contrário. fortalecer o governo no que ele faz corretamente e criticá-lo no que ele erra.
    mas isso não é possível se classificarmos Lula e a cúpula do PT simplesmente como “vendidos”. nesse caso, não teríamos moral para defendê-los nunca. e de fato, na minha opinião, “vendidos” é um termo simplório para entender toda a realidade política do planalto central do Brasil.
    essa é uma opinião minha. pode estar errada. mas é o que acredito.
    abraços,
    Gustavo

  13. Roberto,
    seus artigos são excelentes, assim como o de muitos outros aqui.
    estamos pensando em fazer uma publicação semestral com uma seleção de melhores artigos.
    só falta conseguir financiamento.
    o que acha?
    abraços,
    Gustavo

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