Blog do Desemprego Zero

BC quer mais munição

Posted by Beatriz Diniz em 25 março, 2008

Correio Braziliense

Vicente Nunes

Sob o clima da crise financeira internacional, instituição pretende aumentar seu poder para enfrentar situações críticas e evitar quebradeira de bancos, como a vivida pelo Federal Reserve, dos Estados Unidos

O Banco Central tem pronto um projeto para ampliar seus poderes de intervenção no sistema financeiro em períodos de crise. A autoridade monetária quer recuperar o espaço perdido em 2000, com a promulgação da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). Até então, o BC poderia socorrer bancos em dificuldades a qualquer momento, sem ter de prestar contas dos custos fiscais das operações. Hoje, pode, no máximo, emprestar recursos às instituições por até 60 dias, desde que receba como garantia títulos públicos, com risco quase zero. Mas é pouco para um Banco Central que precisa de todas as munições para lidar com uma eventual ameaça de quebradeira.

No BC, teme-se que a resistência ao projeto seja grande devido à imagem negativa criada pelo Programa de Reestruturação do Sistema Financeiro (Proer), editado em 1995 para socorrer os bancos que sucumbiram com o fim das receitas inflacionárias. O primeiro a utilizá-lo foi o Nacional, vendido ao Unibanco. O problema do Proer começou na sua concepção. Definido às pressas, numa madrugada, sem que nada fosse discutido com a sociedade que teve, à época, de arcar com mais de R$ 20 bilhões de ajuda aos bancos.

Com o tempo, o Proer se mostrou acertado. Não só evitou uma quebradeira do sistema financeiro nacional, cujos prejuízos seriam incalculáveis, como permitiu um equacionamento seguro dos buracos que se abriram no sistema, além de estimular a adoção de medidas regulatórias que, aos poucos, tornaram o mercado bancário do país um dos mais sólidos do mundo. E a maior parte dos recursos liberados será recuperada – o Bamerindus, por exemplo, já quitou seus débitos.

Apesar de todos os aspectos positivos do Proer, o BC não quer associar seu projeto a ele. Entre os técnicos comandados por Henrique Meirelles, presidente da instituição, o argumento a favor da proposta é a atual crise de crédito que ameaça o sistema financeiro dos Estados Unidos e que obrigou o Federal Reserve (Fed), o banco central americano, a agir em todas as frentes para evitar uma onda de falências bancárias. Se estivesse com as amarras do BC brasileiro, certamente o Fed não teria conseguido evitar o pior até agora.

No BC, acredita-se contar com apoio total do Palácio do Planalto, responsável pelo encaminhamento do projeto ao Congresso. Se o Executivo achar conveniente, o momento para debater o assunto é agora, quando todos estão estarrecidos com os efeitos provocados pela crise imobiliária dos EUA. E, melhor, o debate ocorrerá sem açodamento, com um sistema financeiro sólido, capitalizado e altamente confiável.

Exigências pesadas
A fortaleza do mercado bancário nacional fica explicitada quando se compara as questões regulatórias em vigor no Brasil com as que regem o sistema financeiro dos Estados Unidos, cada vez mais desacreditado. A despeito de o acordo da Basiléia (seguido pelo mercado mundial) exigir que os bancos tenham, no mínimo, 8% de capital quando comparado às operações de crédito, o BC brasileiro exige 11%. Aqui, todos os empréstimos e financiamentos acima de R$ 5 mil são acompanhados diretamente pela autoridade monetária. Essas operações representam mais de 90% do crédito bancário. Nos EUA, o Fed não tem uma visão geral do mercado. O trabalho de medir o risco do crédito é executado por empresas privadas.

O BC brasileiro exige ainda provisões elevadíssimas para créditos em atraso. Se alguém não pagar as prestações, depois de 60 dias o banco que emprestou tem de separar recursos de seu caixa para cobrir toda a dívida, inclusive o que está por vencer. Nos EUA, a provisão é feita somente a partir de 90 dias de atraso e, mesmo assim, só são exigidas reservas para as parcelas não pagas. A fragilidade na exigência de capital e de provisões para o crédito foi, por sinal, uma das detonadoras da crise imobiliária que ameaça a economia dos EUA.

Abarrotados de crédito, os bancos americanos embalaram os financiamentos por meio de títulos de securitização e repassaram os papéis adiante. Não fizeram nenhum aporte de recursos para cobrir eventuais perdas. Para os que compraram os títulos – a maioria, bancos de investimentos -, deram apenas a garantia de liquidez, ou seja, de que recomprariam os papéis. Com a onda de calote no mercado imobiliário e a brusca queda do valor das moradias, os detentores dos títulos securitizados os devolveram aos bancos emissores, que não tinham capital para cobrir os rombos e tiveram de ser salvos pelo Fed.

“Não há a menor possibilidade disso acontecer no Brasil”, diz Gabriela Teixeira, analista financeira do Instituto de Ensino e Pesquisa em Administração (Inepad). Primeiro, porque os bancos brasileiros são muito conservadores na hora de conceder crédito. Segundo, porque o sistema nacional não trabalha com operações tão sofisticadas como as criadas pelos bancos americanos para repassar os créditos de alto risco (subprimes). Para José Luís Rodrigues, sócio-diretor da consultoria JL Rodrigues, os bancos brasileiros têm dinheiro em caixa e tanta folga para emprestar, que o índice médio da Basiléia varia entre 18% e 19%, mais do que o dobro do exigido.

Anúncios

Uma resposta to “BC quer mais munição”

  1. Prezados

    Realmente, os sistema financeiro instalado no Brasil é muito conservador na hora de conceder empréstimos. A oferta monetária (M3) tem girado em torno de 28% do PIB na era Lula (Cf. CEPAL, 2007). A administração da política monetária, uma perna do tripé macroeconômico, tem sua parcela de responsabilidade.

    O relatório de mercado do BC, o Boletim Focus (20/03), continua apontando na direção de déficits em transações correntes para 2008 e 2009 e o sistema financeiro exógeno instalado no Brasil deseja uma inflação inferior à prevista nos EUA, 4,44% contra 8,00% para 2008.

    A previsão do mercado do crescimento da economia brasileira para 2008 é de 4,5% e para 2009, 4,0%. Como se pode notar, aquém dos 5,4% de 2007. Onde estariam os efeitos multiplicadores do PAC?

    Quanto à Selic, “o mercado” aponta para 12,00%a.a., em 2008, e 11,75%a.a., em 2009. Profecias auto-realizáveis? Parece até um reforço, uma espécie de tropa de choque, para o Meirelles elevar a taxa básica de juros brasileira.

    Um abraço,

    Rodrigo L. Medeiros

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: