Blog do Desemprego Zero

Riqueza concentrada e trabalho em excesso

Posted by Beatriz Diniz em 25 março, 2008

Publicado Originalmente na Folha de S. Paulo, em 21.03.2008

Por Marcio Pochmann*

O enfoque do tempo de trabalho e da formação da mão-de-obra precisa ser reconsiderado no Brasil

Para cada R$ 1 de riqueza gerada no mundo a partir do esforço físico do trabalho do homem em 2006, havia R$ 9 de responsabilidade do trabalho de natureza imaterial. Isso é claro quando se considera a composição do PIB (Produto Interno Bruto) acrescido do conjunto de ativos financeiros em circulação no planeta, que permite associar o trabalho imaterial às atividades terciárias da estrutura de produção de riqueza.

Em 1950, por exemplo, a cada R$ 10 de riqueza gerados no mundo, somente R$ 4 provinham do trabalho imaterial. Em menos de três décadas, a riqueza associada ao trabalho imaterial cresceu quase 10%, em média, ao ano, enquanto a do trabalho material aumentou a metade disso.

Assim, destaca-se cada vez mais o papel da revolução e da circulação do capital a proporcionar a mutação transgressora do valor do trabalho na definição das novas formas de riqueza. Nesse sentido, o PIB dos países torna-se mais leve e com elevada produtividade, tendo o trabalho imaterial como principal força geradora de riqueza no mundo.

O que exige, em contrapartida, amplos e constantes investimentos em infra-estrutura, em ciência e em tecnologia aplicada. A economia do conhecimento responde, em síntese, pela potencialidade renovada de fantástica ampliação da riqueza a partir da base industrial consolidada pela estrutura produtiva existente.

Em 2006, por exemplo, a cada dois ocupados no mundo, um encontrava-se relacionado ao trabalho material, enquanto em 1950 eram três em cada quatro que trabalhavam. Nas economias capitalistas avançadas, só um a cada três ocupados desenvolve trabalho material.

Se, de um lado, o avanço da demanda de trabalho imaterial pressupõe o desempenho econômico favorável, com investimentos elevados, de outro a oferta relaciona-se ao fortalecimento cognitivo e demais habilidades da força de trabalho. Por conta disso, a aprendizagem e a qualificação tendem a exigir um novo reposicionamento do local de trabalho enquanto oportunidade de formação e capacitação de seus quadros, bem como um outro olhar sobre o papel da escola utilitária para o trabalho, somente prisioneira da educação às fases precoces da vida humana.

Torna-se cada vez mais importante a educação para a vida toda, comprometida com a sociabilidade humana, com a preparação para o conhecimento para além do exercício do trabalho. Isso porque, diferentemente da sociedade industrial -quando havia uma expectativa média de vida de 60 anos de idade e uma nítida separação entre os tempos de trabalho material e de inatividade (educação infantil, aposentadoria, férias, feriados)-, percebe-se no presente longevidade humana se aproximando dos cem anos e uma fronteira menos clara entre os tempos de trabalho imaterial e de inatividade.

Em decorrência da crescente intensificação do trabalho imaterial, cada vez mais realizado também fora do local tradicional do trabalho, o enfoque do tempo de trabalho e da formação da mão-de-obra precisa ser urgentemente reconsiderado no Brasil, conforme se verifica em outras nações. A postergação do ingresso do jovem no mercado de trabalho e a redução do tempo de trabalho, conjugados com a valorização e ampliação da qualificação e capacitação, são necessárias e contemporâneas de um mundo em que a riqueza cresce e concentra-se aceleradamente na mesma medida em que gera um crescente excesso de trabalho.
*Márcio Pochmann, professor licenciado do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Universidade Estadual de Campinas, é presidente do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).

 

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