Blog do Desemprego Zero

Um freio de arrumação

Posted by Beatriz Diniz em 25 março, 2008

Publicado originalmente Correio Braziliense, em 22/03/2008

Por Vicente Nunes

Com o objetivo de evitar que o forte crescimento do consumo interno leve a uma demanda superior à oferta de produtos, o que poderia provocar reajustes de preços, o governo trabalha em duas frentes: convencer grandes empresas a investirem na ampliação da capacidade de produção e reduzir a oferta de crédito, limitando o prazo dos financiamentos para no máximo 36 meses – hoje, há empréstimos de até 99 meses. Ao longo da próxima semana, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, se reunirá com bancos, siderúrgicas e indústrias para explicar o “freio de arrumação” proposto pelo governo. “Essa velocidade de crescimento da demanda não é saudável. Há hoje um descompasso entre produção e consumo. E o que queremos é equilibrar o jogo”, avisa o ministro.

Conjuntura

Preocupado com o crescimento da demanda acima da capacidade de produção, principalmente devido ao crédito fácil, Fazenda e BC querem reduzir prazos de financiamento e elevar os investimentos

O governo vai usar todos os instrumentos disponíveis para conter o consumo das famílias – hoje, a principal ameaça à inflação – para que o Banco Central não seja obrigado a aumentar a taxa básica de juros (Selic), que, desde setembro do ano passado, está em 11,25%. Os alvos preferenciais para o que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, chama de “freio de arrumação” da economia serão o crédito e os investimentos. De um lado, a meta é reduzir, para no máximo 36 meses, os prazos de pagamento dos empréstimos e dos financiamentos, sobretudo os de automóveis, que chegam a até 99 meses. De outro, o objetivo é convencer as empresas a ampliarem os investimentos nos parques produtivos para que mais mercadorias sejam ofertadas aos consumidores.

A ação comandada por Mantega para manter o crescimento sustentado começará na segunda-feira. O ministro chamou representantes do Instituto Brasileiro de Siderurgia (IBS) para um encontro em Brasília. Ele quer saber por que os preços do aço subiram tanto, quais as previsões para a produção do setor e se há riscos de escassez do produto, consumido principalmente pela indústria automobilística, cujas vendas crescem acima de 30%, tornando-se um dos principais focos de inflação. Na quarta-feira, a conversa será com os presidentes dos principais bancos do país. Entre as instituições privadas, já confirmaram presença Márcio Cypriano, do Bradesco; Roberto Setúbal, do Itaú; e Fábio Barbosa, do Santander-Real e comandante da Febraban, a federação do setor. Entre os bancos públicos, estarão presentes Antônio Lima Neto, do Banco do Brasil, e Maria Fernanda Coelho, da Caixa Econômica Federal. Na sexta-feira, em São Paulo, Mantega falará com empresários ligados ao Instituto Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi).

O foco mais imediato, no entanto, é o crédito. É que tanto a Fazenda quanto o Banco Central – que ampliou em 41% o número de conglomerados financeiros a serem fiscalizados neste ano por causa da expansão de financiamentos – temem que o excesso de facilidades oferecidas por bancos e financeiras resultem em escassez de produtos e, mais à frente, em uma bolha semelhante à do mercado imobiliário que levou a economia dos Estados Unidos para a recessão e deixou um rastro de prejuízos pelo mundo.

Na avaliação de Mantega, ao reduzir os prazos dos financiamentos, o valor das prestações aumentará, inibindo o crédito, uma das principais molas do forte crescimento econômico de 2007. Para o brasileiro, na hora de comprar a prazo, o que importa é se as mensalidades cabem no bolso e não se as taxas de juros são baixas ou altas. O ministro acredita que contará com a compreensão dos bancos para a redução dos prazos dos crediários até que demanda e oferta de mercadorias estejam equilibradas. “Estamos agindo para encontrar os remédios adequados, de prevenção. Não queremos que seja um processo de quimioterapia, brusco. Vamos ouvir todos para tomar medidas setoriais e pontuais, sem que seja necessário colocar o pé no freio”, destacou, por meio de assessores, o ministro, que não quer ver se repetir o que ocorreu em 2004, quando o BC foi obrigado a elevar os juros e a atividade teve forte desaceleração.

Problemas à frente.

A preocupação da equipe econômica não é com este ano, que, segundo Mantega, já está “dado”. Mas com 2009 e 2010, quando os problemas com a inflação tendem a se agravar – os alimentos vão continuar muito pressionados, como mostraram os Índices Gerais de Preços (IGPs) – e quando se espera uma onda de inadimplência caso o consumo das famílias continuem avançando a um ritmo de 7,5%, como se viu em janeiro e fevereiro deste ano. “Não é o que queremos. Essa velocidade de crescimento da demanda não é saudável”, disse Mantega, que já conversou com o presidente Lula sobre suas preocupações.

Para ele, o ideal é que o consumo cresça em torno de 5%, próximo ao incremento do Produto Interno Bruto (PIB), de forma que a inflação fique ancorada no centro da meta perseguida pelo BC, de 4,5%. No entender do ministro, com crédito mais restrito, a demanda interna tende a se acomodar, permitindo que os investimentos realizados nos últimos anos para a ampliação do parque produtivo maturem. “Há hoje um descompasso entre produção e consumo. E o que queremos é equilibrar o jogo”, assinalou. No ano passado, os investimentos cresceram 13,4% em 2007.

Governo também tem culpa

Boa parte dos problemas que Mantega quer combater agora, retringindo o crédito e o consumo, foi criada pelo próprio governo ao estimular o alongamento dos prazos dos crediários e ao incentivar os bancos públicos a ampliarem as carteiras de financiamentos. “São as incoerências do governo”, disse o executivo de um banco, ressaltando que a equipe econômica também poderia contribuir para a diminuição da demanda, reduzindo os gastos públicos.

Questionada sobre esse tema, a Fazenda desconversou. Admitiu, porém, que, caso encontre resistência entre os bancos para reduzir os prazos dos financiamentos, principalmente os de automóveis, o Conselho Monetário Nacional (CMN) entrará em ação e baixará os limites operacionais para o sistema. Para os especialistas, as restrições ao crédito são bem-vindas, pois mostram que o Brasil está tirando lições da crise americana, em que a farra de financiamentos imobiliários criou uma bolha que, agora, está cobrando sua fatura: a recessão da maior economia do mundo e perdas financeiras em boa parte do planeta.

Na opinião de Carlos Guzzo, diretor do Banco BES Investimento, o governo deve agir rápido, pois a ameaça de redução dos prazos dos financiamentos pode provocar uma corrida ao crédito. Guzzo acredita que a preocupação com o insustentável ritmo de crescimento do consumo é compartilhada pelo presidente do BC, Henrique Meirelles, que interrompeu as férias e retornará ao Brasil no início da semana.

Segundo o economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Carlos Thadeu de Freitas Gomes, os atuais prazos de pagamento dos crediários, de até 99 meses para automóveis, são bons para os consumidores, pois diluem o valor das prestações, mas são melhores ainda para os bancos, que garantem juros altos por um período bastante longo.

 

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