Blog do Desemprego Zero

Solução do semi-árido nordestino está na gestão da água. Mas para isso é necessário a Transposição do São Francisco?

Posted by Gustavo dos Santos (meus artigos clique) em 26 março, 2008

Gustavo Antônio Galvão dos Santos *

Este blog se propõe a ter o maior conjunto de artigos de debates sobre a transposição do São Francisco. Somos a favor, mas colocaremos todos os artigos que sugerirem, sejam eles contra ou a favor.

Nesse espírito, envio o artigo abaixo contrário à Transposição. Mais uma vez baseiam a argumentação pelo romantismo retrogrado que ver o sertanejo sempre com aquele terninho de couro caçando cabras e calangos no sertão.

Romantismo para os outros, porque esses defensores da “vida simples do sertão” adoram ter água encanada, luz elétrica, máquina de levar, geladeira, computador, automóvel, celular, dinheiro para viagens no exterior, etc. E não comem calango nem amarrados.

Nós do Desemprego Zero acreditamos que o sertanejo tem o direito de ter uma vida assim também, se quiser, e que não precisa emigrar para o Rio ou para São Paulo para poder lutar por isso.

Esse artigo é um dos melhores que eu vi contrários à Transposição, pois coloca alguns argumentos técnicos. O primeiro é que o Nordeste já tem muitos açudes. O segundo é que existem plantas e animais resistentes à seca que poderiam ser melhor utilizados.

Vamos à realidade:

  • 1) Como o Carlos Lessa disse no debate que ele fez com o César Benjamin na ABI, esses estoques de água em açudes têm uma capacidade de utilização muito pequena, porque as atividades diretamente humanas e econômicas precisam de fonte de água contínua e confiável. As chuvas no Sertão são concentradas em poucos meses e não se sabe ao certo quanto choverá no verão seguinte. Portanto o fluxo contínuo permitido para utilização diretamente humana e econômica é muito pequeno, pois se você constrói toda uma estrutura de abastecimento e consumo de água dependendo do estoque existe e das chuvas do ano seguintes ficará muito vulnerável. Se no ano seguinte chover menos do que o esperado, toda a estrutura de abastecimento de toda a economia que depende de água entrarão em colapso. Sabendo disso, ninguém vai investir em gerar empregos no sertão se tiver que depender das chuvas para que o negócio não pare. Nem em sistema de abastecimento será investido alguma coisa. Sem falar da grande perda de água por evaporação. Mas esses açudes poderão ser utilizados com muito maior eficiência, se houver a garantia de que eles estão interligados a uma fonte permanente de água. A Transposição interligará uma rede de açudes ao São Francisco e isso permitirá utilizar a água do açude em maior volume e com maior confiabilidade. A própria água da chuva poderá ser utilizada em muito maior volume em decorrência da Transposição.
  • 2) O autor do artigo cita como “alternativas” para o sertão a “caprinocultura, caju e suas castanhas (sic), de larga aceitação no exterior, umbu, cera da carnaúba, fibras vegetais como o caroá, sisal, algodão [arbóreo, porque o algodão normal não sobrevive na seca]”. Ora, essas atividades podem sim ser melhor aproveitadas no sertão, mas todas elas já existem há décadas ou séculos lá e nunca melhoraram a vida das pessoas. Poderiam ser aperfeiçoadas? Sim. Mas isso significaria um pequeno acréscimo na renda baixa do sertanejo. Doze milhões de sertanejos não podem sobreviver dignamente produzindo mercadorias como cera de carnaúba ou fibra de caroá. Toda a demanda mundial poderia ser atendida com alguns milhares de trabalhadores. Não há demanda desses produtos em todo o Universo nos próximos 100 mil anos para gerar empregos de qualidade para todas essas pessoas. Celso Furtado já disse há mais de 50 anos que a solução do Nordeste é a industrialização e não a agricultura pouco intensiva do semi-árido. Mesmo em Minas, São Paulo e Sul, onde há abundância de águas e terras férteis, fração muito pequena da população vive da agricultura. Mesmo, na Argentina que possui as terras mais férteis do mundo, uma fração muito pequena da população vive da agricultura. Só pode ser romantismo retrógrado imaginar que 12 milhões de pessoas possam viver com um padrão de vida desejado vendendo cera de carnaúba ou suco de umbu. Nem se o umbu fosse a fruta mais desejada do planeta!

Para ver nossa posição sobre esse debate clique: A mais IMPORTANTE obra da nossa HISTÓRIA: TRANSPOSIÇÃO do Rio SÃO FRANCISCO: prós e contras

Leiam abaixo o artigo a que esses comentários se referem:

Publicado originalmente no blog do Noblat

Almyr Gajardoni

São relevantes as constatações do geólogo e hidrólogo Manoel Ribeiro Bonfim sobre o manejo da água no Nordeste. Ele  lança luz na problemática do desenvolvimento do Semi-Árido nordestino com um novo Estatudo de manejo e gestão da água. O texto abaixo é do jornalista Almyr Gajardoni.

Em artigo recente no O Estado de S. Paulo, Washington Novaes apresenta um resumo resumido do livro A Potencialidade do Semi-árido Brasileiro, do geólogo e hidrólogo piauiense Manoel Bonfim Ribeiro – que trabalhou em projetos de irrigação construiu açudes e adutoras e foi diretor da Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco. Mais do que credenciado, portanto, para falar sobre a questão da água no Nordeste, em geral, e da discutida transposição das águas do Rio São Francisco. Como muitos cientistas, Ribeiro assegura que no semi-árido o problema não é de escassez, mas de gestão. E cita uma enfiada de números de nos deixar de queixo caído, pelo menos a mim, de escasso conhecimento sobre essas questões.

O Nordeste tem 70 mil açudes, um a cada 14 quilômetros quadrados. É a região mais açudada do mundo. Nos 27 maiores desses açudes estão acumulados 21 bilhões de metros cúbicos de água, onze vezes a que faz os encantos da Baía da Guanabara, no Rio de Janeiro. Aqui ele se permite uma boutade e comenta: “O semi-árido é uma ilha cercada de água doce por todos os lados”. Mas há mais: só nos oito grandes açudes do Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba, para onde serão levados 2 bilhões de metros cúbicos da água transposta do São Francisco, já se acumulam 12 bilhões de metros cúbicos de água pluvial. Dessa água estocada nos açudes, 30% se evaporam (o que vai acontecer, também, com certeza, com as águas da transposição). Mas há na região, ainda, a possibilidade de extrair 20 bilhões de metros cúbicos do subsolo (atualmente, extrai-se apenas 1 bilhão de metros cúbicos).

A pobreza do semi-árido, portanto, está no homem, não na terra, nem no clima – e a conclusão não é minha, mas do autor. Nos homens, acrescento, pois é uma questão de falta de informação e conseqüente falta de conhecimento. Mas também de falta de vontade. Manoel Bonfim cita, a partir daí, uma enxurrada de riquezas que poderiam ser exploradas desde que solucionada adequadamente essa questão da água e do seu uso. Piscicultura (“pode-se multiplicar por dez a produção de peixes brasileira”), apicultura (cada colméia, na região, produz de 80 a 100 quilos de mel por ano, enquanto na Europa conseguem-se modestos 20 a 30 quilos). Seguem-se a caprinocultura, caju e suas castanhas, de larga aceitação no exterior, umbu, cera da carnaúba, fibras vegetais como o caroá, sisal, algodão.

No prefácio, o “pai do Proálcool, professor J. W. Bautista Vidal admira-se: “É como se Bonfim estivesse redescobrindo um novo Semi-Árido, mais verdadeiro que o anterior, fundamentado em peculiaridades pouco conhecidas, algumas únicas em todo o planeta”. Nada indica, portanto, que a transposição das águas do São Francisco, sozinha, vá solucionar algum problema, pois com ela ou sem ela, a verdadeira questão continuará em pé: a gestão. Ou melhor, a capacidade de buscar para todos os males as soluções mais simples, mais baratas, conseqüentemente mais adequadas e mais eficazes. Entra governo, sai governo, e fica a pergunta: poderá o Nordeste algum dia contar com essa simplicidade?

Almyr Gajardoni é jornalista

Comentário iniciais por:

* Gustavo Antônio Galvão dos Santos: Editor.Mineiro de BH. Economista pela UFMG e mestre e doutor pelo Instituto de Economia da UFRJ. Meus artigos

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