Blog do Desemprego Zero

Modelo asiático?

Posted by Beatriz Diniz em 27 março, 2008

Publicado originalmente no Valor Econômico, em 24/03/2008

Por Maria Cristina Pinotti e Affonso Celso Pastore*

Ao anunciar as medidas visando “travar o câmbio”, o Ministro Mantega comentou que “o nosso é o modelo Asiático e não o Mexicano”, com superávits nas contas correntes e câmbio desvalorizado. O padrão histórico brasileiro diz exatamente o contrário. Na balança comercial predominam os superávits, mas nas contas correntes predominam os déficits. Os déficits nas contas correntes existiram, no Brasil, em períodos de prosperidade, como na substituição de importações, nos anos cinqüenta, ou na fase da promoção de exportações, nos anos oitenta, e foram a marca de fases pouco brilhantes, como a “década perdida” e as sucessivas crises que antecederam o Plano Real. Depois de um curto período de superávits, após a crise de 2002, os déficits nas contas correntes estão de volta já em 2008, mostrando que eles estão no DNA da economia brasileira.

Por que o Brasil mostra essa tendência a déficits nas contas correntes? A razão reside no fato de que ao longo da história predominaram períodos nos quais a absorção (consumo das famílias + consumo do governo + investimentos) foi maior do que o produto, ou ainda, que os investimentos superaram as poupanças domésticas (pública e privada). O Brasil tem níveis baixos de poupança, e quando a taxa de investimentos se eleva para acelerar o crescimento, gera o excesso de investimentos sobre as poupanças domésticas, acarretando déficits nas contas correntes. O oposto ocorre com os países que seguem o “modelo Asiático”, nos quais os superávits nas contas correntes existem devido ao excesso de poupanças sobre os investimentos, como é o caso da China.

E por que as poupanças no Brasil são baixas? Uma das razões é a política fiscal. O Brasil progrediu no campo da política fiscal: não financiando mais os déficits públicos com o “imposto inflacionário”; dimensionando os superávits primários para gerar a sustentabilidade da dívida pública; e “desdolarizando” a dívida pública. Mas o consumo do governo continua crescendo aceleradamente, e esta é uma das razões para a baixa taxa doméstica de poupanças. Se quiser seguir o modelo Asiático, o ministro Mantega tem que usar um instrumento – o corte de gastos de consumo do governo – elevando as poupanças domésticas. Estaria fazendo exatamente o que faz a China, e para isso não precisa penalizar as classes de renda mais baixas, reduzindo as “transferências”. Basta apenas controlar os demais gastos.

E qual é o papel do câmbio na geração desses déficits ou superávits? Afinal, o aparecimento dos déficits nas contas correntes não se deve à valorização do real? A variável relevante para determinar o comportamento das contas correntes é o câmbio real, que é um preço relativo – entre os bens internacionais e domésticos -, e não o câmbio nominal, que é volátil e se comporta como um preço de um ativo. Embora o câmbio nominal venha se valorizando devido ao diferencial entre os juros no Brasil e nos EUA, e aos efeitos de um gigantesco “choque externo”, dado pela combinação do crescimento dos preços de commodities com a depreciação do dólar e a expansão da liquidez internacional, se isto não estivesse ocorrendo estaríamos assistindo, da mesma forma, uma valorização do câmbio real no Brasil. Por quê? O câmbio real se valoriza endogenamente quanto ocorre um excesso da absorção sobre o produto, e isto ocorre quer porque caem os preços dos bens internacionais (devido a valorização do câmbio nominal), quer porque se elevam os preços dos bens domésticos.

Assim, se os ingressos de capitais não estivessem valorizando o câmbio nominal, o câmbio real estaria se valorizando da mesma forma, devido ao excesso da absorção sobre o PIB. A diferença é que neste caso a valorização ocorreria através de uma inflação mais elevada nos preços dos bens domésticos. Por outro lado, diante dos ganhos de relação de troca gerados pela grande elevação de preços internacionais de commodities, essa valorização não tem prejudicado as exportações, que continuam mantendo um crescimento vigoroso. O que ela tem acarretado é, de um lado, o barateamento do custo das importações de matérias-primas e de bens de capital, que tem ajudado a acelerar os investimentos, estimulando o crescimento do PIB potencial, e de outro permitido que o aumento das importações líquidas supram o vigoroso crescimento da demanda doméstica acima do crescimento do PIB, evitando uma inflação maior. O aumento dos investimentos ocorre ao lado do aparecimento dos déficits nas contas correntes. Nada há, neste padrão, que lembre o “modelo Asiático”.

Preocupado com a competitividade das exportações, o ministro da Fazenda recentemente propôs medidas que, no entanto, não são capazes de levar a uma depreciação do real. Uma delas, o fim da cobertura cambial nas exportações, é desejável porque dá liberdade aos exportadores, mas é ineficaz, porque estes continuam estimulados a trazer suas receitas para o Brasil. A outra – cobrança do IOF sobre os capitais “de curto prazo” – tem eficácia contestável em um país com um mercado financeiro sofisticado. Mas a “ameaça” do ministro é de que se elas não forem suficientes, a “dosagem do remédio será aumentada”, o que se tornará ainda mais provável se ocorrer a elevação da taxa de juros sinalizada na ata da última reunião do Copom. Se chegarmos a este ponto, e for atingido o objetivo de desvalorizar o real mantendo-se o mesmo excesso de absorção sobre o produto, a valorização adicional do câmbio real continuará a ocorrer, mas desta vez com um peso muito maior dado pela elevação da inflação dos bens domésticos. Ou seja, neste caso chegaremos ao pior dos mundos: o diferencial de taxas de juros se elevará, e na medida em que atraia mais capitais, induzirá o ministro da Fazenda a elevar as fricções aos fluxos de capitais. Se estas medidas tiverem sucesso ainda que temporário em depreciar o câmbio, não impedirão a valorização do câmbio real, mas elevarão a inflação. É a isto que chegamos com erros de diagnóstico.
*Affonso Celso Pastore e Maria Cristina Pinotti são economistas e escrevem mensalmente às segundas.

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