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Déficit em conta corrente cresce e BC já prevê US$ 12 bilhões no ano

Posted by Beatriz Diniz em 28 março, 2008

Fonte: Valor Online

Escrito por Alex Ribeiro

O déficit em conta corrente seguiu em trajetória de aceleração em fevereiro, somando US$ 2,090 bilhões, ante um superávit de US$ 376 milhões no mesmo mês do ano passado. Foi o quinto resultado mensal negativo, o que levou o Banco Central a subir de US$ 3,5 bilhões para US$ 12 bilhões sua projeção para o déficit em conta corrente deste ano, cifra que equivale a 0,86% do Produto Interno Bruto (PIB).

O saldo negativo acumulado até agora já chega muito perto do valor projetado pelo BC para o ano. No primeiro bimestre, o déficit somou US$ 6,322 bilhões. Em março, a estimativa do BC é mais um número negativo – US$ 3 bilhões -, que, caso se confirme, elevará o déficit em conta corrente acumulado no ano para US$ 9,322 bilhões.

Em janeiro, o país teve o primeiro déficit acumulado em 12 meses desde 2003, com US$ 2,402 bilhões. Esse déficit, medido na mesma base de comparação, subiu para US$ 4,868 bilhões em fevereiro e deve chegar a US$ 8,133 bilhões em março, caso se confirme a projeção do BC de um resultado negativo de US$ 3 bilhões neste mês.

No BC, o déficit em conta corrente é visto como reflexo natural do maior aquecimento da economia e da valorização da taxa de câmbio. Não seria possível, no entendimento da autoridade monetária, o país registrar a extraordinária expansão dos investimentos públicos e privados que vem sendo observada e, ao mesmo tempo, ampliar aceleradamente o consumo das famílias e do próprio governo. Para as contas fecharem, é necessário recorrer a financiamento externo.

O déficit de 0,86% do PIB é, para o BC, a melhor projeção para as contas correntes em 2008. Mas a autoridade monetária não se arrisca a fazer projeções definitivas sobre a evolução do indicador nos próximos anos. Não está descartada a hipótese de, em período de alguns meses, de um ano ou de uma década, o país vir a exibir déficits em conta corrente como o da Austrália (5,6% do PIB), Hungria (5,9%) e Turquia (7,7%). O tamanho do déficit, na visão do BC, depende da disposição dos investidores estrangeiros em financiar o país – e está fora do alcance da autoridade monetária tentar controlá-lo.

A política monetária, para o BC, deve estar unicamente voltada a controlar a inflação, sem objetivos paralelos, como conter a valorização do câmbio. A redução do déficit em conta corrente dependeria do uso de outro instrumento de política economia, como a política fiscal. A aposta do BC é que, depois da aceleração deste início do ano, o déficit em conta corrente se acomode nos meses seguintes. É o que, de certa forma, está contemplado nas projeções do mercado financeiro, que espera um déficit de US$ 9,75 bilhões em 2008, segundo pesquisa de expectativas do BC.

O chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, disse que o déficit em conta corrente do início do ano foi contaminado por um desempenho excepcionalmente negativo na balança comercial, que não deve se repetir no resto ano. O saldo comercial no primeiro bimestre foi de US$ 1,826 bilhão, decorrente de um aumento de 24% nas exportações e de 54% nas importações, na comparação com idêntico período de 2007. A projeção do BC para 2008 contempla uma expansão menos intensa nas importações (29%) e nas exportações (13%), o que produziria um saldo de US$ 27 bilhões.

“Houve uma concentração de importações no início do ano, incluindo petróleo”, disse Lopes. Os cálculos do BC, afirmou, já levam em consideração a queda recente nos preços das “commodities” exportadas pelo Brasil.

Outro item que pesou bastante no resultado negativo acumulado até agora foram as fortes remessas de lucros e dividendos, que somaram US$ 1,293 bilhão em fevereiro e chegaram a US$ 4,317 bilhões no bimestre, alta de 97% em relação ao mesmo período de 2007. Os dados parciais de março registram, até o dia 24, um déficit de US$ 2,540 bilhões.

As fortes remessas líquidas ao exterior registradas neste início de ano levaram o BC a aumentar de US$ 20 bilhões para US$ 24 bilhões as saídas líquidas de lucros e dividendos projetadas para 2008. Lopes diz que as saídas de lucros e dividendos são resultado do aumento do estoque de investimentos estrangeiros diretos no país, da valorização do câmbio e do aquecimento da economia, que aumenta o lucro das empresas.

O segmento automobilístico remeteu US$ 865 milhões no primeiro bimestre, ou 28,9% do fluxo líquido de lucros e dividendos, num levantamento amostral do BC que inclui operações com valores a partir de US$ 1 milhão. Serviços financeiros são o segundo mais importante segmento nas remessas, com US$ 468 milhões (ou 15,6% do total), seguida pela metalurgia, com US$ 408 milhões (13,6%).

Lopes diz que o déficit em conta corrente não preocupa porque é amplamente financiado por capitais de longo prazo que ingressam no país. Em fevereiro, o ingresso de investimentos estrangeiros diretos somou US$ 890 milhões, cifra relativamente modesta se comparada com a média de US$ 3,041 bilhões observada nos últimos 12 meses.

Lopes pondera que, em fevereiro, os números finais foram comprometidos por três operações pontuais de repatriação de investimentos diretos, que somaram US$ 1 bilhão, duas no setor de alimentos e uma no segmento de comércio. Ele diz que as estatísticas parciais de março, que cobrem até o dia 24, registram um ingresso de US$ 2,3 bilhões em investimentos diretos – a expectativa é que o número se eleve a US$ 3 bilhões até o fim do mês.

O BC subiu de US$ 28 bilhões para US$ 32 bilhões sua projeção de investimentos diretos para o ano. Mas a projeção para o ingresso de investimentos em portfólio, incluindo renda fixa e investimentos em ações, foi reduzida de US$ 26 bilhões para US$ 12 bilhões. “A onda de IPOs (ofertas primárias de ações, na sigla em inglês) ocorrida no ano passado não deverá se repetir”, diz Lopes.

Crise nos EUA reduz remessas ao Brasil

A crise americana está reduzindo as remessas de recursos ao Brasil por emigrantes que vivem nos EUA. Por esse motivo, o Banco Central passou a prever menor volume de ingressos ao país das chamadas transferências unilaterais correntes nas suas projeções oficiais do balanço de pagamentos.

No início do ano, a expectativa era que os brasileiros residentes no exterior enviassem US$ 4,2 bilhões ao Brasil em 2008, líquidos das remessas feitas ao exterior pelos estrangeiros residentes no país. A crise americana fez com que o BC revisse essa projeção para US$ 3,8 bilhões. Caso o número se confirme, será a primeira queda desde 2000, quando houve redução de 9%. Naquele ano, teve início a crise da Nasdaq.

O chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, diz que o fraco desempenho esperado na economia americana é o principal responsável pela revisão dos números. “Os Estados Unidos respondem pela maior parte das transferências unilaterais ao Brasil”, afirma. Não há estatísticas disponíveis sobre as transferências unilaterais líquidas, país a país. Mas os dados do BC abrem as transferências brutas do exterior para a manutenção de residentes no Brasil. Nos 12 meses encerrados em fevereiro, essas remessas somaram US$ 2,816 bilhões, dos quais 48% são provenientes dos EUA.

O fluxo de divisas de emigrantes em solo americano vem caindo tanto em termos absolutos como em termos relativos. Nos 12 meses encerrados em abril de 2007, as transferências dos EUA para manutenção de residentes somavam US$ 2,924 bilhões. Em dezembro de 2004, chegaram a representar 64% das remessas do gênero.

As remessas brutas do Japão somaram US$ 655 milhões nos 12 meses encerrados em fevereiro, mantendo trajetória de alta ocorrida desde o início da década – no ano 2000, o fluxo foi de apenas US$ 294 milhões. Mas o ingresso de recursos do Japão continua distante dos valores em 1996, quando chegaram a US$ 1 bilhão. Os demais países respondem por 29% das remessas para o Brasil, concentradas sobretudo na Europa.

As estimativas são de que existem 1,5 milhão de brasileiros vivendo nos EUA. No Japão, são 310 mil. Os cálculos indicam 120 mil residentes na Itália e em Portugal, 100 mil na Inglaterra, 93 mil na Espanha e 40 mil na Alemanha. (AR)

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