Blog do Desemprego Zero

Fiesp insiste em mudar real valorizado

Posted by Beatriz Diniz em 31 março, 2008

 Publicado originalmente no Valor Econômico em 31/03/2008.

Por Sergio Leo

Quem pensa que a Fiesp mandou ao arquivo morto as idéias de interferir na persistente valorização do real em relação ao dólar não acompanha Roberto Giannetti da Fonseca, o diretor do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior da federação das indústrias paulistas – e um dos mais insistentes defensores de medidas contra a valorização do câmbio. Ele tem mantido, com o governo e os bancos, discussões para, uma medida voltada diretamente a reduzir a pressão do comércio externo sobre a entrada de dólares no país. Chama-se “ACC em reais”, idéia levada pela Fiesp à Febraban e ao Banco Central.

Giannetti defende a construção de um mecanismo financeiro com uso da moeda nacional para permitir ao exportador receber antecipadamente pelas mercadorias destinadas à exportação com financiamento ao comprador – os conhecidos ACC, adiantamento de contratos de câmbio. Hoje, com esses ACC o exportador recebe em reais, no Brasil, de uma instituição financeira que, porém, para conceder o empréstimo, é obrigada a contratar um financiamento no exterior. A proposta de Giannetti elimina o recurso ao financiador externo, e, portanto, à entrada antecipada de dólares no país.

A dificuldade, reconhece Giannetti, está em assegurar um “funding”, uma fonte de financiamento para esse mecanismo, que, sugere ele, poderia ter como sustentação os recursos do chamado FAT cambial, uma linha de operação do BNDES corrigida pela taxa de juros londrina, a Libor, hoje destinada a financiar projetos e empreendimentos de bens exportáveis. O tema ainda não chegou ao BNDES, porém, mas Giannetti afirma ter a “simpatia” da Febraban e do BC, onde discutiu o assunto com a diretora de Assuntos Internacionais, Maria Arraes.

O Banco Central confirma que o tema foi debatido com a Fiesp. Na Febraban, um de seus diretores endossa a impressão de Giannetti de que a proposta agrada aos bancos. Mas prevê intensos debates com o governo, nessa busca de “funding” para o novo instrumento. “A atual taxa de juros e a previsão de valorização do real fazem com que o exportador corra para antecipar os contratos de câmbio, e o importador adie ao máximo o envio de dólares ao exterior, o que contribui para depreciar ainda mais o dólar”, argumenta Giannetti.

Ele aponta, como argumento, a crescente diferença entre o descompasso entre os registros de embarques e desembarques e os dados sobre a movimentação do comércio exterior (gráfico abaixo). Até 2003, o total de câmbio contratado para operações de exportação praticamente se igualava ao total registrado de exportações no ano; no ano seguinte, esses números começaram a se descolar e, em 2007, enquanto as exportações somaram pouco mais de US$ 160 bilhões, os contratos de câmbio feitos pelos exportadores chegaram a quase US$ 185 bilhões. Em janeiro e fevereiro de 2008, a diferença a mais para o câmbio contratado já chegava a US$ 2 bilhões.

Quando somado o descompasso entre importações reais e contratos de câmbio, o sinal se inverte e o resultado final é uma diferença, entre o saldo da balança comercial (exportações menos importações) e o saldo do câmbio contratado, de US$ 36, 7 bilhões em 2007.

Considerando que o saldo comercial em 2007 foi de US$ 40 bilhões, os contratos de câmbio quase duplicaram esse valor, graças ao interesse de exportadores em antecipar a entrada de dólares, e dos importadores de adiar seus pagamentos. Nos dois primeiros meses de 2008, essa diferença já está em US$ 5 bilhões, segundo dados compilados pela Fiesp. A entrada de dólares por meio de ACCs, em 2007, chegou a US$ 46,2 bilhões. Em 2008, até 29 de fevereiro, já somava US$ 6,1 bilhões.

Giannetti viu algumas das propostas apresentados por ele em outubro encampadas pelo Ministério da Fazenda, como a permissão aos exportadores de manter no exterior os dólares de suas exportações. Acredita ter o apoio do ministro Guido Mantega para o ACC em reais, e tem se empenhado também em outra proposta, a de permissão a empresas com registro no Sistema de Informações de Comércio Exterior (Siscomex), para que possam manter no Brasil contas em dólares. Essas contas teriam um depósito compulsório pesado, para evitar que os dólares depositados se convertessem em operações de crédito com risco cambial, como as que atazanaram os argentinos no passado recente.

Obstinado, Giannetti tem, nessa proposta, menos aliados no governo, mas isso não o intimida. “Estamos falando de um projeto para um futuro próximo, e factível, em que o real deve se transformar em moeda conversível internacionalmente”, defende ele.

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