Blog do Desemprego Zero

Mantega adota estilo ziguezague de gestão

Posted by Beatriz Diniz em 31 março, 2008

 Divisão de poder provoca idas-e-vindas na área econômica

Publicado no Jornal O Estado de São Paulo em 30/03/2008

Por Lu Aiko Otta

Guido Mantega é um ministro da Fazenda que comanda só uma parte da política econômica. Ele divide o poder, em condições de igualdade, com o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles – que, como ele, é ministro. Os “sócios” procuram conviver pacificamente, mas têm visões diferentes sobre como promover o crescimento da economia brasileira.

Não se trata de um confronto aberto, mas não faltam estocadas de um lado e de outro.

Antes de assumir o Ministério da Fazenda, Mantega era crítico contumaz da política de juros conduzida por Henrique Meirelles. Ao assumir a pasta, há dois anos, interrompeu os ataques. Não significa, porém, que passou a concordar com o Banco Central. Volta e meia, Mantega exibe sinais de desconforto com a política de juros.

A situação se agravou este mês porque o Comitê de Política Monetária (Copom), composto pelos diretores do Banco Central, deixou claro que o aumento das taxas de juros está no radar. A ata da reunião do Copom de março informa que foi cogitado um aumento de 1 ponto de porcentagem na taxa, atualmente em 11,25% ao ano. O Copom volta a se reunir nos dias 15 e 16 de abril e boa parte dos economistas aposta em alta.

Preocupado, o Ministério da Fazenda fez uma manobra para tentar “desarmar” a alta de juros. Segundo fonte do governo, o objetivo era mostrar que há outras formas de conter a inflação, além de elevar os juros. Porém, a operação se mostrou uma trapalhada.

No feriado de Páscoa, assessores qualificados de Guido Mantega fizeram chegar aos principais jornais do País a informação de que o governo está preocupado com o aumento do consumo no mercado interno, que pode provocar inflação. O foco da preocupação estaria na venda de automóveis por crediário. Uma possível medida para “esfriar” a demanda interna, aliviando a pressão inflacionária, seria encurtar os prazos de financiamento, que hoje chegam há 99 meses.

A informação repercutiu mal, pois trombava de frente com todo o esforço feito desde o início do governo, para aumentar o acesso da população ao crédito e ao consumo. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reclamou. Mantega recuou.

Na quinta-feira, o diretor de Política Econômica, Mario Mesquita, disse que as operações de crédito, alvo da alternativa sugerida pela Fazenda, não são a principal fonte de pressão da demanda. “A renda, a massa salarial, é tão ou mais importante em algumas regiões e em alguns casos que o crédito”, disse, ao divulgar o relatório trimestral de inflação.

No início deste mês, Fazenda e Banco Central já haviam se estranhado por causa dos juros. Ao comemorar o crescimento de 5,4% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2007, Guido Mantega comentou: “Estamos derrubando mitos da economia brasileira, como o mito do PIB potencial. Há não muito tempo atrás, dizia-se que não podíamos crescer mais do que 3%. Está provado que podemos crescer mais do que 5% sem gerar pressões inflacionárias”.

O PIB potencial, o limite máximo que a economia pode crescer de forma equilibrada e sem que os preços comecem a subir, faz parte do modelo usado pelo Banco Central para calcular a taxa de juros. Foi o que ancorou as decisões do Copom classificadas como “conservadoras” e “ortodoxas”. Horas depois, o Banco Central soltou uma nota dizendo que o crescimento do PIB era prova do acerto da política monetária.

O juro brasileiro, elevado para os padrões mundiais, produz outro ponto de atrito entre a Fazenda e o Banco Central: o câmbio. A Fazenda defende a queda mais rápida dos juros, para desestimular a avalanche de moeda estrangeira que entra no País para lucrar com o diferencial de juros praticados no Brasil e no exterior, em operações conhecidas como carry trade. Reduzindo essas operações, a cotação do dólar subiria, ajudando o setor exportador.

O Banco Central acredita que não dá para baixar os juros sem provocar inflação, se o consumo interno está elevado demais diante da estrutura produtiva. Acrescenta que um dos fatores que alimentam a demanda são os “impulsos fiscais”, ou seja, os gastos do governo com programas como o Bolsa-Família. Esse é outro ponto de divergência. A Fazenda quer injetar dinheiro e aquecer a economia. O BC teme que isso gere inflação, se as indústrias não tiverem como atender à demanda.

FUNDO DA GAVETA

O episódio do crédito é mais uma amostra do estilo administrativo do ministro Mantega. Ele costuma anunciar medidas que ainda estão em análise. Assim, testa sua aceitação ao mesmo tempo em que pressiona a área técnica a viabilizá-las.

Às vezes, precisa voltar atrás. Outras vezes, as medidas ficam menores do que o esperado e não atingem o objetivo.

É o que ocorreu, por exemplo, logo após a derrota do governo na tentativa de prorrogar a Contribuição Provisória sobre a Movimentação Financeira (CPMF). Mantega disse ao Estado, em dezembro, que estudava a criação de um novo tributo para a saúde. Ele seria permanente, cobrado sobre a movimentação financeira, e poderia ser criado por medida provisória, na semana seguinte.

O presidente Lula reagiu: “Ele falou para vocês, agora vai ter de colocar na minha mesa e eu vou decidir se vamos ou não vamos, se precisamos ou não precisamos. Eu quero ver todas as contas”. A idéia do tributo para a saúde foi para o fundo da gaveta. Só será concretizada se o Congresso tomar a iniciativa.

Outro exemplo é o minipacote cambial anunciado no dia 12. O objetivo, diziam pessoas próximas ao ministro, era conter o “derretimento” do dólar. Ao anunciar as medidas, porém, Mantega reconheceu que elas não provocariam nenhuma guinada dramática na cotação. Eram apenas um sinal de que o governo não assistiria passivamente à queda da cotação.

No dia seguinte, o Banco Central desfez parte do minipacote. Uma das medidas pretendia desestimular as operações carry trade, ao taxar o ingresso de capital estrangeiro para aplicação em renda fixa em 1,5% do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). Basicamente, o governo encareceu a operação, tornando-a menos atraente – algo que foi feito contrariando a opinião do Banco Central e da área técnica do Tesouro. Porém, a ata do Copom sinalizando uma possível elevação da taxa Selic fez subir as taxas de juros futuros. Esse movimento compensou qualquer desestímulo que o IOF poderia impor. Dados do Tesouro divulgados esta semana mostram que o apetite do investidor estrangeiro não foi afetado.

Outro exemplo do estilo ziguezague do ministro foi a criação de um fundo soberano. Em novembro, Mantega disse que o fundo seria de cerca de US$ 10 bilhões, com recursos das reservas internacionais. O dinheiro poderia financiar obras em infra-estrutura. Depois, numa entrevista ao lado de Meirelles, negou tudo. A dupla anunciou que o fundo não usará as reservas e seu valor e regras de funcionamento estavam em estudo. Até hoje, não foi anunciado.

Indústria teme não atender à alta da demanda nos próximos 12 meses

Pesquisa mostra que 25% da indústria de transformação têm dificuldades para ampliar a produção

Márcia De Chiara

Um quarto da indústria de transformação brasileira acredita que não conseguirá atender à demanda nos próximos 12 meses, se o ritmo atual de consumo se mantiver. A situação é mais crítica entre os fabricantes de materiais de construção, setor no qual 54% das companhias detectaram esse risco.

O quadro foi apontado pelas empresas na Sondagem Conjuntural da Indústria de transformação da Fundação Getúlio Vargas (FGV) para avaliar o ritmo dos investimentos. A pesquisa, de âmbito nacional, foi realizada no primeiro bimestre deste ano com 710 empresas. Juntas, elas faturaram no ano passado R$ 265,2 bilhões.

“Apesar de a indústria ampliar os investimentos, existe um risco de esgotamento da capacidade produtiva que está próximo”, afirma o coordenador do estudo, Aloisio Campelo. Na média, a indústria de transformação, isto é, aquela que exclui a indústria essencialmente extrativa, vai ampliar neste ano em 11% os investimentos no aumento da capacidade de produção. É a maior taxa de expansão em cinco anos.

O nó da questão, diz Campelo, é o descompasso entre a maturação desses investimentos e o ritmo de crescimento da demanda. Esse descasamento já tira o sono do governo, que chegou a cogitar um aperto no ritmo do consumo para desarmar as pressões inflacionárias.

O economista observa que a indústria está numa fase de franca recuperação dos investimentos. Mas ele destaca que o nível dos investimentos ainda é insuficiente para suportar o crescimento da economia na faixa de 5% ao ano por vários períodos consecutivos. O uso da capacidade instalada da indústria encerrou fevereiro em 84,7%. Campelo destaca que há 16 trimestres consecutivos o indicador supera a média histórica de 81,5%. “É o maior ciclo de crescimento desde fim dos anos 70.”

As pressões por aumentos de preços já começam a ter impacto nos índices de inflação que captam o movimento da cadeia de produção da indústria. No Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M) de março, apurado pela FGV, os preços dos materiais de construção subiram 1,05% , ante 0,64% em fevereiro. As pressões de preços vieram do aço, que aumentou 3,51% , depois de ter subido 1,56% no mês anterior; das esquadrias de alumínio, que ficaram 1,06% mais caras, ante alta de 0,33% em fevereiro; e das madeiras usadas nos telhados, que subiram 2,09% nesse mês, após reajuste de 1,49% em fevereiro.

O Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (SindusCon-SP) já alerta para os possíveis riscos de pressões por aumentos de preços na cadeia produtiva. O presidente da entidade, João Claudio Robusti, conta que reuniu na semana cerca de cem empresários do setor para traçar as estratégias de defesa, especialmente as pequenas construtoras, contra os aumentos de preços. A intenção é garantir que o Produto Interno Bruto (PIB) da construção civil cresça neste ano 10,2%, a maior taxa já registrada pelo setor, que está em franca expansão.

Uma das saídas para rechaçar os aumentos de preços das matérias-primas é fazer compras conjuntas, diz Robusti, destacando que já está em formação uma cooperativa para isso. Ele conta também que, depois de o aço ter subido 2,21% no primeiro bimestre, ante uma alta de 0,45% do Custo Unitário Básico (CUB) da construção no período, há siderúrgicas que sinalizaram com aumentos de 13% a 14% nos preços para abril e maio e de até 70% para junho. As siderúrgicas negam pressão por aumentos de preços.

Inflação se dissemina e aumenta a pressão de serviços e bens industriais

Índice de difusão, que acompanha itens com variação positiva no IPCA, subiu de 58,79% em 2007 para 61,63%

Nilson Brandão Junior

A disseminação da inflação por produtos e serviços está aumentando progressivamente desde o início do ano passado. É o que mostram os dados compilados pelo Banco Central (BC). No período, a difusão de aumentos passou de perto de 57% dos itens pesquisados no IPCA para quase 62% do total.

Economistas que acompanham a evolução da inflação avaliam que a taxa deste ano será menos concentrada no grupo de alimentos do que no ano passado, com maior pressão em preços de serviços e produtos industriais.

Na prática, o vigor da demanda interna acaba favorecendo um maior reajuste de preços por mais itens da economia. O diretor de Política Econômica do banco, Mário Mesquita, reconhece que a chamada “difusão” tem de fato aumentado.

Mesquita, que esteve no Rio anteontem para divulgar o Relatório de Inflação da instituição, explica que o trabalho do Banco Central é impedir a consolidação dessa tendência e uma inflação mais disseminada na economia. O último relatório da instituição, divulgado semana passada, aborda o assunto.

“O índice de difusão, indicador da proporção do número de itens que apresentou variação positiva no IPCA, registrou média de 61,63% no trimestre encerrado em fevereiro, ante 59,03% no trimestre setembro a novembro e 58,79% em 2007, evidenciando a elevação da disseminação dos aumentos nos preços”, registra o documento. Em janeiro de 2003, a linha de tendência da difusão chegou ao maior pico recente (67%) e vinha caindo desde então.

O coordenador de análise econômicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Salomão Quadros, explica que os alimentos pesarão menos na inflação, mas poderão, ainda, representar possivelmente uma influência importante no indicador no ano.

“No ano passado a inflação dos alimentos foi perto dos 10%, quase três vezes a variação do resto da cesta de produtos e serviços. Para este ano, os aumentos vão ser mais generalizados”, afirma o coordenador.

Quadros chama a atenção, por exemplo, para o fato de que produtos industriais vão gerar uma pressão adicional este ano. Quanto ao risco de o BC elevar juros, ele afirma que o espaço para a instituição ficar “apenas vigilante” está se reduzindo.

“Talvez tenha de partir para a ação, embora eu ache que ainda não é o momento. A inflação até já está ultrapassando ligeiramente a meta, mas não deve ultrapassar muito, não há mais muita margem de manobra”, comenta.

“Ter uma inflação mais espalhada é mais arriscado e acaba sendo mais um motivo de preocupação para o Banco Central”, explica o responsável pela área de inflação do Grupo de Conjuntura do Instituto de Economia da UFRJ, Carlos Eduardo Thadeu de Freitas Filho.
Ele diz que a a inflação de serviços está num nível “desconfortável”, acima da média do IPCA. No ano passado, esta taxa fechou em 5,1%, acima da média da inflação, deverá passar para 5,3% este ano e chegar a 5,5% no próximo ano.

Um levantamento de dados feito pelo IE/UFRJ mostra como foi a gangorra da inflação nos últimos 12 meses encerrados em fevereiro. Por produtos, a maior das variações no grupo de alimentos chegou a 202,26%, no caso do feijão carioca e a 105,13% para o feijão preto. No grupo de serviços, mão-de-obra avançou 10,76%, curso supletivo, 10,54% e depilação, 10,50%.

Já nas reduções de preços, chamam a atenção as variações negativas no grupo de produtos duráveis no período: aparelho de DVD -15,63%, microcomputador -13,93%, televisor -11,38%, aparelho telefônico -6,56% e forno de microondas -5,95%.

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