Blog do Desemprego Zero

Inflação, um poderoso pesadelo

Posted by Rogério Lessa, Editor-Chefe em 1 abril, 2008

Jornal não pode priorizar o ordinário em detrimento do extraordinário. Não quer dizer que o ordinário nunca seja assunto, mas insistir em colocar o debate sobre inflação acima da discussão sobre a rápida deterioração das contas externas ou o risco de desindustrialização que o país corre por causa do câmbio é inverter valores.

O medo da inflação colabora para a manutenção do rentismo e ajuda a vender uma política de semi-estagnação que agrada a nossos “concorrentes” externos: os países que estão em busca de um lugar no mundo desenvolvido ou aqueles que já estão lá e sabem que o cobertor é curto.

Para manter o país parado, a tese do excessivo gasto público anda meio desmoralizada pelo modestíssimo déficit nominal e relação dívida/PIB em queda. A inflação, então, continua sendo a principal variável para aterrorizar aqueles que gostariam de ver juros civilizados neste país.

Ao contrário do que boa parte dos jornais disseram, o nível de preços ainda não superou a linha do extraordinário para o Ipea. Os economistas Maria Andréia Parente e Miguel Bruno foram claros e objetivos na coletiva que divulgou a Carta de Conjuntura ao admitirem que ainda existe alguma pressão dos alimentos sobre os preços, mas em menor grau que no ano passado – e se estamos importando tanto vinho europeu, porque não trazer arroz ou feijão se isso for importante para equilibrar esse mercado?

Já o preço da produção de gasolina, outro fantasma citado na mídia, se subir 20% para se alinhar ao mercado internacional chegará à bomba com aumento de 6%. Isto no IPCA, segundo Andréia Parente disse a todos os repórteres, pesa 0,6% no IPCA. Não é desprezível, mas não é manchete.

Quanto ao crescimento da demanda via aumento do emprego ou elevação de custos na indústria por causa de recuperação salarial, Miguel Bruno e Andréia frisaram que o custo unitário do trabalho está caindo porque a indústria não vem compartilhando com os trabalhadores os enormes ganhos de produtividade provenientes da maior utilização da capacidade instalada.

Não é à toa que o Serasa verificou que a rentabilidade das empresas ano passado aumentou 6,6% somente até setembro, índice que supera o PIB e os ganhos dos trabalhadores mais organizados, que tiveram aumento um pouco acima IPCA, mas não acima do PIB, como aconteceu com os lucros das grandes empresas. Foi o melhor resultado em dez anos para elas, segundo o Monitor Mercantil de 08/01/2008. Para que reinvistam lucros na ampliação da oferta é fundamental que o custo com juros compense.

Por sua vez, o crédito, outro fator de expansão da demanda ultimamente, dá sinais de acomodação. Há previsões de bancos, como o ABN Real, na direção de uma acomodação da indústria e desaceleração da expansão do crédito à pessoa física, sobretudo quando Basiléa II estiver valendo.

O crédito, por sinal, já está comprometendo a renda de muitas famílias. Boa parte das novas concessões de empréstimos são para rolar dívidas, sobretudo de aposentados e servidores públicos, me disse a professora da UERJ, Beatriz David.

Tudo isso somado à desaceleração mundial e recessão cada vez mais confirmada nos EUA não faz da inflação um bicho papão mais assustador que o câmbio, relegado à segundo plano na maioria dos jornais e que também é inflado pelos juros altos.

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4 Respostas to “Inflação, um poderoso pesadelo”

  1. Rogério,
    muito bom artigo!!
    Você foi no ponto, os neoliberais e conservadores elegeram há décadas a inflação como a grande trincheira para se proteger contra as propostas keynesianas, que são claramente mais racionais e mais favoráveis à população e trabalhadores.
    Se apegam ao “controle da inflação” como a última esperança de terem algo para oferecer.
    essa é a única coisa que podem oferecer, por isso investem repetidamente em serem os únicos guardiões legítimos do controle da inflação e investem repetidamente em colocar a inflação como o maior mal da humanidade.
    A mídia, que está com eles, repete isso à exaustão, a la Gobbels, chefe da propaganda nazista e que disse que uma mentira repetida um milhão de vezes se torna verdade…
    excelente artigo!

  2. Heldo Siqueira said

    Gustavo,

    estava vendo o conta corrente ontem, e vi a opinião de um professor da USP. Apesar de não lembrar o nome, ele deu uma opinião interessante.

    Na verdade, a desculpa do BC é que não está preocupado com a inflação atual, mas com a inflação de 8 ou 9 meses para frente. Ou seja, a preocupação é com a inflação de 2009. Mesmo assim, a previsão de inflação do BC para 2009 é 4,31%, e para 2008 é 4,47%. Ou seja, o BC tem medo que a inflação saia do controle em 2009, mas prevê que ela será menor que em 2008, que descontrole é esse?!

    Abraço

  3. Heldo,
    na minha opinião isso é má fé.
    O Banco (Central) do Meirelles está inventando todo tipo de desculpa para impedir a redução da taxa de juros.
    Eles estão de olho nas eleições de 2010, não querem que um candidato do governo Lula ganhe as eleições. Se o crescimento passar de 7% a popularidade do Lula dispara e eles não terão nenhum poder de veto sobre as políticas do governo. Se isso acontecer deixaremos de ser um país constrolado pelos banqueiros.
    Isso que mais assusta no Lula, com um carisma natural + um excelente resultado econômico e social medido em empregos ele pode fazer tudo o que o PT sempre sonhou.
    abraços,
    Gustavo

  4. Gustavo e Heldo,
    não tenho dúvida que esta é uma questão é política e não técnica. Agora Delfim virou “desenvolvimentista” para a mídia ao defender o corte de gastos como alternativa para uma alta de juros, exatamente o que pregava Flavio Giambiase nas coletivas do Ipea e que tinha como pano de fundo uma nova reforma da Previdência. Infelizmente, parece que até o professor Belluzzo abraçou essa idéia de arrochar ainda mais o orçamento.
    Abs

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