Blog do Desemprego Zero

Relação entre Mantega e Meirelles pode piorar

Posted by Beatriz Diniz em 3 abril, 2008

Publicado originalmente no Correio Brasiliense

Por Vicente Nunes

Ministro da Fazenda tentou reduzir prazo de empréstimos à revelia do Banco Central, que prepara o caminho para aumentar os juros

A ponte construída pelo presidente Lula, aproximando o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, está a um passo de ruir. A única base de sustentação na qual ela se apóia é a esperança de Mantega de que o Comitê de Política Monetária (Copom) não aumente a taxa básica de juros (Selic) na reunião marcada para os próximos 15 e 16 de abril. O ministro está convencido de que, apesar de todos os alertas do BC sobre as reais pressões inflacionárias, não há porque elevar os juros e submeter a economia a um choque, a um tratamento quimioterápico, como gosta de falar a seus assessores.

O descontentamento de Mantega com o tom cada vez mais alto usado pelo BC para anunciar o possível aperto monetário ficou evidente às vésperas do feriado da semana santa. O ministro alardeou a disposição do governo de reduzir para 36 meses o prazo máximo dos financiamento de automóveis que hoje chega a 99 meses. As declarações de Mantega duraram apenas três dias, tempo suficiente para que Meirelles convencesse o presidente Lula de que não era o momento exato para se falar em arrocho do crédito, apesar de esse ser um dos principais instrumentos que estão sustentando o consumo e estimulado as remarcações de preços.

A ação de Mantega foi vista dentro do BC como um golpe, uma vez que o banco e a Fazenda vinham conversando muito sobre a expansão do crédito e as suas implicações para toda a economia. Nas discussões, inclusive, o BC deixou escapar que estava apertando a fiscalização sobre os bancos de forma a ver se o sistema estava preparado para conviver com uma inadimplência maior num quadro de aumento dos juros. Entre os assessores de Meirelles, acredita-se que Mantega viu nas preocupações do BC um sinal de que havia um caminho alternativo, de curto prazo, para evitar a alta da Selic. E não se furtou em antecipar seus movimentos.

Dentro do BC, no entanto, a ordem é não partir para um confronto aberto com a Fazenda. Meirelles, que encurtou as férias, acredita que tem o apoio do presidente Lula para, se realmente necessário, aumentar os juros. Antes de partir para o descanso na África do Sul, o presidente do BC conversou muito com Lula. Traçou um quadro completo da economia e frisou os riscos para o crescimento se a inflação fugir ao controle. Na hipótese de o Copom ser obrigado a elevar a Selic, Meirelles, segundo assessores do Palácio do Planalto, ressaltou que o melhor a ser feito era se antecipar aos problemas do que ter de corrigi-los mais à frente.

Lição correta
O presidente do BC lembrou a Lula o que aconteceu em 2004. Naquele ano, a forte expansão da economia resultou em índices de inflação bem acima das metas definidas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Meirelles alegou que era preciso “esfriar” o consumo naquele momento, mas assegurou que, mais à frente, as taxas voltariam a cair, com a economia retomando o fôlego, ajudando Lula a se reeleger. Os juros começaram a cair em setembro de 2005. No ano seguinte, a inflação ficou em 3,1%. E Lula, mesmo com todas as denúncias de corrupção contra o governo, ganhou mais quatro anos de mandato. Ao lembrar esse episódio, Meirelles frisou que trajetória semelhante ocorrerá até 2010, com o governo chegando às eleições forte o suficiente para sustentar um candidato à sucessão com chances de vitória.

Para Mantega, o quadro de hoje não requer o mesmo remédio de 2004, que derrubou o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 5,7% para 3,2%. “Não é preciso repetir esse sobe e pára (stop and go), frustrando expectativas”, vem dizendo o ministro. No mercado, diante das divergências reavivadas e explícitas entre Mantega e Meirelles, a maioria dos especialistas já fez sua aposta: os juros vão subir, só não se sabe quanto. E com o apoio de Lula, que elegeu Meirelles seu principal conselheiro econômico.
Cartão e cheque especial lideram dívidas
Enquanto o governo foca suas atenções nos financiamentos de automóveis, cujos prazos podem ser limitados a 36 meses, os consumidores sentem no bolso o peso das dívidas com cartão de crédito e cheque especial, cujas taxas médias de juros estão em 11% ao mês. “Esses têm sido o maior tormento para os que estão endividados”, diz Kelly Carvalho, assessora econômica da Federação do Comércio de São Paulo (Fecomércio-SP). “As nossas pesquisas indicam que, dos que estão devendo, 43% informam que o principal débito é com cartão de crédito”, ressalta. “Trata-se de uma concentração muito grande em uma modalidade de financiamento muito cara”, acrescenta.

O pior é que esse quadro tende a se agravar. De acordo com os levantamentos do Banco Central, foram justamente as dívidas com cartão e cheque especial as que mais cresceram nos dois primeiros meses deste ano. O saldo devedor do especial aumentou 14,3%, índice três vezes maior do que o avanço médio do crédito à pessoa física, de 4,3%. No cartão de crédito o incremento foi de 7,6%. A explicação do chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, é de que, no início de ano, os brasileiros recorrem mais ao cheque especial para pagar despesas extras com tributos e escolas. Já o cartão ainda sente o impacto das compras de Natal.

Para os especialistas, a leitura é outra: os consumidores já se empanturraram das linhas de crédito mais baratas, como o consignado, cujas operações aumentaram apenas 3,8% no acumulado de janeiro e fevereiro. No crédito pessoal, cujas taxas subiram para cerca de 7% ao mês, os empréstimos avançaram 6,6%. “É preciso olhar o crédito com cautela, mesmo que o crescimento registrado até agora tenha sido saudável”, destaca o economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luís Otávio de Souza Leal.

O que dá uma certa tranqüilidade ao economista Carlos Guzzo, diretor do Banco BES Investimento, é o fato de o crédito estar crescendo junto com a renda e o emprego. Ou seja, as pessoas estão se endividando com a garantia do salário para honrar os compromissos. E, na avaliação do economista Aurélio Bicalho, do Banco Itaú, não há perspectiva de reversão no mercado de trabalho diante do firme ritmo da economia. “Se, por um lado, o mercado de trabalho colhe os frutos de uma economia que cresceu 4,5% em média nos últimos quatro anos, por outro, o aumento da renda e do emprego alimentam o consumo das famílias”, afirma. “Mas todo cuidado é pouco”, complementa Elson Teles, economista-chefe da Concórdia Corretora.

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