Blog do Desemprego Zero

** DEBATE VI ** Os juros são um péssimo instrumento de combate à inflação. Um ótimo instrumento é o câmbio estável, porém competitivo

Posted by Gustavo dos Santos (meus artigos clique) em 4 abril, 2008

Gustavo Antônio Galvão dos Santos *

Os juros são um péssimo instrumento contra a inflação. E em um país subdesenvolvido, então, são um instrumento completamente equivocado.

Continuação do Debate anterior (clique aqui para ler)

Que começou com o seguinte artigo (clique aqui para ler)

Explicação:

Como efeito direto, os juros aumentam os custos e os preços. Como efeito indireto podem reduzi-los. Esse efeito indireto é decorrente principalmente da valorização cambial e secundariamente da redução da renda, do emprego e dos salários. Existe ainda um efeito colateral não desejado de piora na distribuição de renda, pois a riqueza financeira, que se beneficia dos juros altos, é muito mal distribuída, como você deve estar careca de saber. Outro efeito colateral indesejado é o aumento expressivo da dívida pública.

Os juros possuem como efeito DIRETO inevitável o aumento dos preços. Isso decorre do aumento dos custos financeiros e dos custos de oportunidade, que são a própria materialidade do aumento dos juros. Isso é direto, inevitável e inquestionável.

Há também efeitos dos juros que levam indiretamente à redução dos preços. Mas esses efeitos são muito indiretos e até incertos e tênues. E mais, SÃO SEMPRE PREJUDICIAIS À SOCIEDADE.

Ora, como o efeito direto dos juros é de aumento dos preços, usar os juros para combater a inflação exige um esforço dobrado em termos de valorização cambial e ou redução dos empregos e salários. É muito melhor usar políticas que afetem os preços sem gerar redução dos empregos. E elas existem.

O aumento dos juros, além de ser um esforço redobrado como vimos acima, boicota o crescimento econômico e nosso desenvolvimento como nação, pois para alcançar um nível de desenvolvimento similar aos países desenvolvidos, precisamos crescer significativamente mais do que eles, ou seja, pelo menos 7% ao ano. Evidentemente, o aumento dos juros só pode ter efeito sobre a inflação, se gerar alguma recessão, redução significativa do crescimento e ou valorizar significativamente o câmbio. Portanto, usar os juros como instrumento prioritário para controlar a inflação significa nos condenar ao subdesenvolvimento. Mais abaixo explico isso melhor.

Essa condenação recente do Banco Central brasileiro ao subdesenvolvimento pôde ser observada na prática durante o governo FHC. Quando FHC se tornou presidente éramos a 8ª economia do mundo, quando deixou era algo entre 14ª a 16ª. Os juros foram o principal instrumento de política econômica do governo FHC. No primeiro mandato para segurar diretamente o câmbio e no segundo mandato para “manter a meta de inflação”. Nessa “brincadeira”, o Banco Central foi capaz de fazer a dívida pública passar de algo entre 70 bilhões de reais para algo em torno de 700 bilhões de reais, apesar do país ter vendido cento e tantos bilhões de reais em patrimônio, ter mantido uma relativamente baixa taxa de crescimento dos gastos públicos “primários” e de ter aumentado a “carga fiscal” a níveis inéditos!

Supostamente esse foi um dos preços pagos para manter por alguns anos uma taxa de inflação relativamente baixa, mas que no final de 2002 já estava em mais de 20% anualizada. Tanto custo por algo tão efêmero… A inflação, nesse período, foi controlada às custas dos trabalhadores, segundo o IBGE a participação da renda do trabalho no PIB caiu ano a ano a velocidade nunca antes vistas. (clique aqui para ler as tabelas) Os juros cumpriram bem o “seu papel” de afundar a renda do trabalho e explodir a dívida pública “para reduzir a inflação” como você diz…

Para entender porque usar os juros para controlar a inflação nos condena inevitavelmente ao subdesenvolvimento é preciso entender que o processo de desenvolvimento significa necessariamente crescimento nominal dos salários. E isso é ótimo! Uma das características definidoras do subdesenvolvimento são salários em média baixos.

Desenvolvimento é crescimento da renda acima da média mundial. Geralmente algo em torno de 7% ao ano em um país mais pobre. Ora, isso significa elevada taxa de expansão da demanda por trabalhadores. Portanto, desenvolvimento implica em crescimento salarial, principalmente em um país democrático, onde não é possível ameaçar sindicatos com a força bruta.

Sabemos que os preços da maioria dos setores econômicos são muito rígidos à queda. Assim uma alta taxa de crescimento econômico tende a induzir um nível de inflação relativamente mais alta do que em um país onde o crescimento é lento, pois os salários precisarão crescer. Se o banco central quiser ter uma taxa de crescimento suíça, ou quase, vetará inevitavelmente o crescimento, pois terá que estar sempre aumentando a taxa de juros para cortar o crescimento dos salários.

A situação é ainda mais nefasta ao desenvolvimento, se o câmbio for flutuante. Em um país de câmbio flutuante e meta de inflação “ambiciosa”, se a taxa de crescimento estiver acelerada, os salários estarão aumentando muito e a inflação ficará acima da meta. Para manter a meta de inflação sob controle, o Banco Central elevará os juros. Em decorrência do efeito direto inflacionário dos juros e à rigidez dos preços e salários, o banco central precisa manter um processo contínuo de aumento dos juros para tentar “controlar a inflação”. Os juros no país acabarão ficando significativamente superiores aos juros internacionais. Isso atrairá capital e valorizará o câmbio. A valorização do câmbio é um eficiente mecanismo de controle da inflação. Mas como os salários e preços são rígidos à queda, a valorização terá que ser elevada para funcionar. Ora, as margens de lucro da exportação manufatureira são geralmente muito baixas em decorrência da grande concorrência internacional, principalmente nessa nova Era Chinesa. Uma pequena valorização cambial já é capaz de acabar com a lucratividade da exportação de muitos setores, mas será pouca para manter a inflação dentro da meta.

Isso é particularmente assustador na “indústria infante”, aqueles setores de alta tecnologia que estão começando a se desenvolver no país e cujo know-how ainda está sendo aprendido. Você sabe que as industrias para se desenvolver precisam seguir uma curva de aprendizagem que pode ser relativamente demorada, o que os economistas chamam de learning by doing.

A valorização cambial faz as exportações manufatureiras e principalmente dos setores de maior tecnologia e demanda internacional crescente se estagnarem. Esses são exatamente os setores mais necessários para viabilizar uma taxa de crescimento elevada sustentável a longo prazo. Não somos um país de 20 milhões de habitantes como a Austrália que pode ter parte significativa do PIB dependendo de exportação de commodities. Com quase 200 milhões de habitantes, não poderíamos ter um PIB per capital de país desenvolvido só exportando commodities. Isso só seria possível entupindo uns 4 planetas de açúcar, carnes, minério e soja. Não há tanta demanda na Terra para isso. Os americanos, chineses e argentinos não vão deixar de produzir soja em favor do Brasil. Ninguém vai parar toda a produção de carne para que nós transformemos toda a amazônia em pasto. Nem há tanta demanda no mundo por carne.

Um país grande precisa de produção manufatureira significativa, incluindo setores de alta tecnologia. Mas a valorização do câmbio não favorece. A questão é que em um regime de metas de inflação “muito ambicioso” com câmbio flutuante, o país se verá obrigado a manter a competitividade cambial sempre piorando. Principalmente se houver choques de preços internacionais, ou componentes de gastos autônomos que cresçam apesar dos juros altos e da valorização cambial, como exportações de commodites e boom de consumo de bens duráveis a crédito decorrente de preços artificialmente baixos causados pela supervalorização cambial. Em cada choque de preços ou aumento de demanda ou salários acima do suficiente para manter a “ambiciosa” meta de inflação, os juros aumentarão e o câmbio valorizará. Entretanto, a conseqüente redução da inflação não será suficiente para recompor a competitividade perdida porque os salários e preços são rígidos à queda. É uma bola de neve que vai minando a indústria do país e reduzindo o superávit em conta corrente, que poderá se transformar em déficit. O déficit em conta corrente leva à fragilidade cambial e qualquer crise de liquidez internacional torna o país incapaz de estabilizar o câmbio e, portanto, o inflação explode e os elevados juros não poderão fazer nada, porque o capital externo passa a achar muito arriscado investir em tal país, e de fato será. O resultado é uma inflação galopante, recessão e juros altos.

No fim das contas veremos que os juros são um péssimo instrumento contra a inflação se associado a metas ambiciosas de inflação, pois ele acaba condenando o país ao subdesenvolvimento e no longo prazo traz de volta a inflação elevada. É uma política prejudicial sempre e ineficaz a longo prazo.

E se a utilização dos juros para conter a inflação não estiver associada a metas de inflação “ambiciosas”?

Se a taxa de crescimento da economia não for alta, existem outros instrumentos que podem ser usados eficientemente contra a inflação que não precisam levar à redução do crescimento ou valorização cambial. Uma delas é a fixação da taxa de câmbio em um nível desvalorizado (competitivo), como sempre fazem os países asiáticos e como fez toda a Europa no pós-Segunda-Guerra. Outras políticas eficientes são as chamadas políticas de renda e os controles parciais de preços, políticas usadas com relativamente boa eficiência na Europa, EUA e Japão do pós-Guerra.

Se a taxa de crescimento for muito elevada, a situação é outra. Por exemplo, se a taxa de crescimento da economia estiver acima de 10% ao ano, a economia poderá estar sofrendo com gargalos conjunturais de infra-estrutura ou chegando próximo do pleno emprego. Se isso acontecer. pode ser que a inflação acabe ficando muito acima do desejável. Nesse caso, pode ser conveniente aumentar os juros. Ainda assim é uma política que deve ser usada muito moderadamente, pois piora a distribuição de renda e aumenta a dívida pública. Os gargalos da infra-estrutura e de qualificação de mão-de-obra podem ser resolvidos com mais investimentos. Só o pleno emprego pode ser um momento relativamente interessante de se usar a taxa de juros para conter a demanda. Mas os keynesianos acham que mesmo aí a melhor política é a fiscal e não a monetária. Eles acham que o efeito dos juros sobre a demanda é muito incerto, instável e ineficiente e causa como efeito colateral indesejado a piora na distribuição de renda e crescimento da dívida pública. Keynesianos acham que a melhor forma de controlar o nível de atividade é a política fiscal e não os juros.

Vimos que, principalmente no caso de um país subdesenvolvido com meta de inflação “ambiciosa”, os juros são um instrumento prejudicial e ineficaz a longo prazo para contenção da inflação. A argumentação é simples, direta e bastante precisa. Muitos já falaram isso, todos estão vendo como o Banco Central brasileiro está indo na contra-mão do resto do Planeta e dos principais economistas do Mundo e do Brasil. Os indicadores macroeconômicos estão mostrando que o crescimento foi muito baixo nos últimos 10 anos, a dívida pública continua crescendo, o desemprego continua muito elevado, a valorização cambial está gerando estagnação na indústria manufatureira. Esse debate, todo foi puramente econômico eu não citei nada sobre a intenção dos diretores do Banco Central. Não é necessário e turvaria o debate econômico. Mas uma vez compreendido a argumentação econômica colocada aqui, podemos também fazer uma análise de ciência política ou sociológica e avaliar as intenções desses diretores. Como cidadão e eleitor também posso tentar teorizar sobre essas intenções. Todos nós podemos, não é?

Continuação desse debate:

Meirelles tem às mãos poder e autonomia mais do que suficientes para sabotar o desenvolvimento do Brasil e as eleições de 2010.

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25 Respostas to “** DEBATE VI ** Os juros são um péssimo instrumento de combate à inflação. Um ótimo instrumento é o câmbio estável, porém competitivo”

  1. Caro Gustavo

    Saiu hoje, 05 de abril, na imprensa uma pesquisa que aponta para o fato de que os preços dos remédios ficaram em média 52% mais caros nos últimos 12 meses. O curioso é que tais reajustes ao longo do ano são proibidos pela Câmara Reguladora do Comércio Farmacêutico (CMED).

    Os dados são do Instituto de Defesa dos Usuários de Medicamentos (IDUM). Poder de mercado ou pressão de demanda doutor Meirelles? Em uma sociedade democrática, espera-se que o Estado regule monopólios, duopólios e oligopólios, equilibrando o jogo da assimetria de informação na arena econômica. Inclusive o oligopólio dos bancos…

    Segundo dados da FAO, em 2007, os preços dos alimentos subiram 37%. Pois bem, commodities que se encontram fora do poder de controle dos juros altos do Banco Central do Brasil.

    De acordo com Robert Skidelsky, Keynes foi o primeiro a compreender e declarar claramente que uma moeda apreciada seria uma moeda fraca (Cf. ‘Keynes’. JZE, 1999). Há pessoas que ainda não compreenderam isso no Brasil.

    Um abraço,

    Rodrigo L. Medeiros

  2. Heldo Siqueira said

    Gustavo,

    tenho um interesse torpe sobre esse tema. Digo que é torpe, pq gosto mais de discutir a lógica do que as implicações reais. A questão é que as variáveis utilizadas nos modelos macroeconômicos são incontroláveis na prática.

    Os modelos que pregoam a taxa de juros como política anti-inflacionária não se referem à taxa básica de juros (no caso a selic), mas da taxa média de lucros na economia. Supõe-se que haja implicações na taxa média de lucro por consequência de mudanças na taxa básica (o que obviamente ocorre). A questão é que na prática, essas implicações são imprevisíveis e muitas vezes ruins para a economia.

    Como disse o Lucas, o que tentam fazer os modelos é construir economias de simulação, que não necessariamente se comportam como a economia real. O que o Samuelson chamou de “uma fábula para homens crescidos”. Quer dizer, as análises podem partir dessa teoria, mas de forma nenhuma podem se restringir a ela!

    O Mário Possas salienta que alguns currículos do curso de economia se focalizam muito no instrumentalismo (micro, macro, métodos quantitativos e estatísticos), pela demanda que o profissional tem hoje por conhecer profundamente essas questões, e perdem o foco das discussões sobre como aplicá-los na análise econômica. Isso implica que temos economistas muito entendidos em matemática e em métodos estatísticos, mas muito pouco antenados nas questões da realidade, ou da utilidade dessas faculdades na análise econômica.

    Estou dando pitacos sobre essa questão, mas meus estudos em economia se restringem a uns poucos 6 anos. Na verdade, estou falando mau de pessoas que estudaram muito mais tempo que eu (o que não me deixa muito confortável, afinal é de certa forma meio arrogante), mas estou amparado por alguns autores bem mais estudados que eu.

    Já que essa discussão está por aqui há bastante tempo, apesar de não ser muito o foco do blog, (que deve estar mais interessado em propor alternativas que em analisar currículos universitários) achei interessante levantar a bola.

    Abraços

  3. Ronaldo Abreu said

    Bom texto Gustavo. Existem muitos preços que as taxas de juros não podem conter, como os dos metais, pois são dados em bolsas no exterior.

  4. Rodrigo e Ronaldo,
    agradeço os comentários. O que vocês falaram é perfeito, os juros altos não podem afetar a inflação dos preços administrados, das commodities.
    Heldo,
    não precisa ter nem um mês de estudo de economia para se ter legitimidade para questionar qualquer coisa. Seis anos de estudo então é bastante! Mas seja, por favor, mais específico em sua pergunta para facilitar a resposta.
    O que eu disse sobre o uso da taxa de juros para controlar a inflação é válido se estamos falando de Selic ou qualquer outro tipo ou conjunto de taxa de juros.
    abraços,
    Gustavo

  5. Pedro said

    Concordo que é melhor controlar a inflação diminuindo gastos públicos do que usando a taxa de juros. Mas isso é tão “keynesiano” quanto neoclássico.

    Deixar os gastos altos e controlar a inflação com taxa de juros significa trocar consumo das famílias por consumo do governo. O governo pressiona a demanda, e para não aumentar os preços eu não consigo pegar um crediário nas Casas Bahia pq tá muito caro. Com todos os efeitos nefastos que o Gustavo apontou.

    Agora, discordo da crítica a respeito do aumento da dívida pública. Graças a Deus, aumentamos a dívida pública enormemente! Toda cidade brasileira deveria possui um “monumento à dívida pública”.

    Por um motivo simples: em praticamente toda sua história republicana, o governo brasileiro foi deficitário. E nunca aumentou muitos os impostos (a carga era de 24% até 1988), e a dívida pública foi baixinha, baixinha, e nunca teve que vender ativos como a Vale… que mágica, não é mesmo?

    A mágica é que o preço disso foi o país mais desigual do mundo. O governo quer gastar? Não tem jeito: imposto, dívida ou emissão de moeda. Não tinha imposto, não tinha dívida e tinha gasto… pronto, emissão de moeda, inflação. Que é um imposto que incide especialmente sobre os mais pobres, que não têm como se proteger. E o país mais desigual do mundo.

    Graças a Deus acabamos com essa monstruosidade. Ao acabar com a inflação sem reduzir gastos públicos, a primeira opção foi aumentar a dívida; quando isso ficou impraticável, passamos a aumentar impostos.

    Ninguém esqueceu que aquela “âncora cambial” louca do Plano Real foi a alternativa à ausência de equilíbrio orçamentário, certo? Claro, só daria certo se voássemos em céu de brigadeiro; todo solavanco internacional ia direto no ponto frágil dessa política. Quando descobrimos que equilíbrio fiscal era algo importante (até para fazer política fiscal contra-cíclica e estabilizar a economia sem pressionar a inflação), apenas em 1998, a bola de neve já tinha começado a rolar.

    O ponto positivo é que a taxa de juros permite calibrar melhor a política anti-inflacionária. A política fiscal é muito grosseira. Mesmo longe de uma sintonia fina perfeita, a política monetária é muito mais precisa.

    Ainda assim, várias críticas feitas ao uso da taxa Selic também valem em relação a política fiscal: não afeta preços administrados e tem impacto reduzido sobre tradeables. Políticas monetária e fiscal atuam sobre a demanda e são limitadas no combate a esses problemas.

    Acho, porém, que vc não tocou no ponto mais importante do combate à inflação: expectatiavas dos agentes e credibilidade do BC. Reajustes de preços não caem do céu; eles são decididos por pessoas (empresários, sindicatos…).

    Se está todo mundo absolutamente convencido de que a inflação vai ser zero, e o BC vai explodir o país se não for, qualquer choque vai se refletir apenas em alterações de preços relativos. À parte problemas de informação assimétrica como os apontados por Lucas, mas não há evidência que desajustes decorrentes desse problema durem mais do que algumas semanas.

    Meta de inflação ambiciosa não se traduz necessariamente em juros altos em resposta a qualquer choque. O que gera esse efeito é falta de credibilidade do BC. Se a expectativa de inflação estiver bem estabelecida em determinado nível, os indivíduos não vão jogar seus preços lá para o alto em resposta a um choque.

    Afinal, um dos determinantes da inflação é a expectativa de inflação – em outras palavras, o reconhecimento de que o BC vai cumprir a meta faz com que o custo de cumpri-la diminua imediatamente.

    Para quem acha que tudo isso é pura especulação, o Alexandre Schwartzman tem alguns trabalhos mostrando que, no Brasil hoje, o papel das expectativas sobre a inflação realizada é muito maior do que o papel dos choques.

    Ou seja, o BC aumenta os juros menos para cumprir uma “meta ambiciosa” e mais por falta de credibilidade, que não se compara à dos BCs de EUA, Reino Unido ou da Suíça… isso não é especulação, isso é o que os dados mostraram até agora.

    Concordo também com o Rodrigo sobre a necessidade de regulação em diversas áreas (esse é o meu ganha-pão!). Mas NÃO para combater a inflação, ainda que esse seja um possível efeito colateral. Na verdade, esse efeito nem vai acontecer sempre – às vezes, a regulação ideal envolve aumento de preços (ou salários) para induzir maior investimento em determinanda área. Em geral, porém, a regulação tem efeitos benéficos sobre o nível de preços.

    Há um grande problema (e é grande mesmo) em usar regulação para controlar inflação, ao invés de usar apenas para lidar com falhas de mercado, especialmente monopólios e oligopólios. Esse problema é o rent-seeking. No momento em que vc estabelecer uma câmara que decide quanto os preços podem aumentar, imediatamente 50% dos investimentos do empresariado vão ser desviados para lobby (50% foi um chute), para convencer o governo de que “meus custos aumentaram muito, deixa eu aumentar o preço!”.

    Não é trivial saber quando regulação é a melhor maneira de lidar com falhas de mercado e poder de mercado. Afinal, o próprio processo regulatório possui inúmeras falhas (além de rent seeking, o problema de informação assimetrica é bastante sério). Política de concorrência é um negócio complicado – qd é melhor deixar o mercado solto, quando é melhor regular, qd é melhor estatizar, qd é melhor fazer concessão, leilão, concorrência ex-ante e ex-post… é uma área importante e muito interessante.

    Em termos de regulação, sugiro fortemente o livro “Regulation and Development”, do Laffont (um dos economistas mais geniais de que se tem notícia) sobre como deve ser construído o arcabouço regulatório em países pobres, em oposição ao arcabouço desenvolvido considerando a existência de instituições que só os países já desenvolvidos tinham (não parece a Cepal falando?).

    Quanto a “Um país grande precisa de produção manufatureira significativa, incluindo setores de alta tecnologia”, acho que o buraco é muito mais embaixo. Não acho nem um pouco trivial saber o quanto é muito e o quanto é pouco de produção manufatureira, o preço disso, as vantagens disso. Em geral, o que há é muito voluntarismo, “temos que produzir tudo!”, “interesse estratégico!”, e pouca clareza. Fica para outro comentário.

    Abs.

  6. Pedro

    Em termos macroeconômicos o Estado, apesar das restrições, pode ajudar a economia nacional a se desenvolver. No que diz respeito ao seu tripé de políticas fiscal, monetária e tributária, muito já se mostrou possível em termos de estímulos ao desenvolvimento das forças produtivas. Precisamos ir além do debate “manteiga versus canhões”. Os neoclássicos sérios já ultrapassaram essa limitação há tempos. Veja o trabalho de Robert Solow, Nobel de Economia, por exemplo.

    Os gastos do governo não pressionam a demanda, pelo menos no sentido concebido pelos neoliberais. (Teoria neoclássica e neoliberalismo são duas coisas muito diferentes.) Eles podem sim induzir demanda. (Keynes foi mal-interpretado quando disse que se poderia enterrar dinheiro para fazer com que as pessoas o procurassem e gastassem, tirando consequentemente a economia da recessão.) Podem também provocar distorções.

    Vejamos bem, segundo dados do SIAFI, o governo Lula gastou R$140 bilhões com juros e amortizações da dívida pública, em 2007. Com o bolsa família, apenas R$9 bilhões. E com saneamento básico, apenas R$39 milhões… No caso do governo do presidente Lula, a preferência pela liquidez vem sendo exercida pelo poder de mercado dos bancos em prejuízo da sociedade que vive de trabalho. Um jogo de soma zero.

    Se alguém ainda tem dúvida do poder de mercado, que simplesmente procure avaliar o comportamento de conluio dos bancos através do nivelamento do spread cobrado aos tomadores de recursos. O doutor Meirelles não consegue perceber isso?

    Um abraço,

    Rodrigo L. Medeiros

  7. Pedro said

    Rodrigo, quanto ao problema do spread, pode ter certeza de que é uma das maiores dores de cabeça do BC. Conheço gente lá que se dedica a entender isso. Na página de estudos do BC, vc vai encontrar algumas pesquisas sobre o assunto. Ninguém entende como o spread caiu tão pouco com a abertura para instituições internacionais.

    A explicação tradicional é insuficiente. Primeiro, o governo, que não paga spread significativo, historicamente levou quase todo o crédito brasileiro. Já temos uma poupança privada baixa (apesar de o Gustavo discordar do conceito…); com um governo com necessidade de financiamento sempre alta, o que resta para famílias e firmas é muito pouco. Grandes empresas com acesso à diretoria do BB ou de grandes bancos conseguem emprestado o que precisam (qd o BNDES nega) e o que resta é disputado a tapa.

    À medida que vem aumentando o crédito para famílias, todo mundo pula em cima e não quer nem saber da taxa de juros – o que importa é se a prestação cabe no orçamento. Claro: o avô do cara tentou comprar uma geladeira mas guardou o dinheiro no colchão e a inflação levou tudo; o pai do cara tentou comprar mas não conseguiu empréstimo; o tio juntou para comprar mas o Collor levou. Quando o cara tem a chance de um financiamento nas Casas Bahia, tem mais é que comprar mesmo… só que, com isso, fica difícil reduzir o spread.

    Está difícil avaliar os efeitos da concorrência, ou a necessidade de regulação, nesse contexto. À medida que o crédito aumente, as coisas talvez se tornem mais claras.

    Quanto ao pagamento de juros, concordo parcialmente. A princípio, acho ótimo pagar juros – significa que, em algum momento do passado, o governo conseguiu realizar algo sem dinheiro em caixa, recorrendo a empréstimo. Se o investimento foi bem feito, o retorno para a sociedade é maior do que o pagamento de juros. Itaipu é um bom exemplo.

    A princípio, pagar muitos juros hoje deveria significar que o governo antecipou muitos gastos ontem – presumivelmente, gastos importantes para o país, gastos que não podiam esperar.

    Na prática, nem todos os gastos foram bons, e podem ter simplesmente financiado a ineficiência da máquina estatal. Além disso, a dívida foi mal administrada em diversos momentos – pelo próprio BC ou pelo Tesouro, que colocou muito peso sobre o BC.

    De qq forma, “a democracia não garante os melhores no poder, mas sim que os piores não se perpetuem nele”, certo? Os juros hj são o preço dos bons e dos maus investimentos feitos no passado.

    Abs.

  8. Pedro,
    você usou outra falácia. Eu nunca disse que achava que redução de gastos públicos fosse uma boa medida contra a inflação. Essa só seria uma política a ser considerada em caso de pleno emprego, ou seja, em caso de crescimento econômico em torno de 10% por mais de 15 anos ininterruptos.
    Portanto, estamos muito longe disso, e isso não deveria estar em pauta.
    Hoje controle de inflação é câmbio estável, porém competitivo, basicamente. Há políticas de controle inflacionário complementares como investimento público pesado em infra-estrutura para reduzir os gargalos o “custo-Brasil”.
    Sobre a inflação, essa é outro equívoco da economia ortodoxa. Os equívocos são diversos, mas dois são mais significativos:
    1) vocês dizem que “a pior coisa para piorar a distribuição de renda é a inflação”. Isso não é verdade. A verdade é que a coisa que mais piora a distribuição de renda são os juros altos. A concentração de renda nunca aumentou tanto quanto depois de 1995 quando acabou a inflação (o contrário do que vocês propagandeiam). Isso óbvio, pois a inflação, é quase neutra em relação aos salários, se eles crescerem tanto quanto ela. Mas os juros é diretamente pegar do pobre e dar para o rico.
    Miguel Bruno mostrou como isso aconteceu a partir de meados dos anos 90 com a explosão dos juros:
    http://www.desempregozero.org.br/editoriais/MOMENTO_NACIONAL_2.pdf
    2)O segundo equívoco com relação a sua “teoria” da inflação é achar que ela “financiou” significativamente o Estado Brasileiro em nossos períodos e alto crescimento. A inflação é disfuncional ao financiamento público. Mais uma vez você está preso ao paradigma do PIB constante. Os investimentos e gastos públicos puderam crescer muito entre 1930 e 1980 sem grande expansão da dívida pública pelo simples e óbvio fato de que o crescimento econômico também era muito alto e consequentemente a arrecadação. E não é só a arrecadação em si, mas também o PIB pura e simplesmente, porque a medida de “tamanho da dívida” é uma medida relativa. ela é medida em relação ao PIB. Portanto, como o PIB crescia muito além de aumentar a arrecadação, aumentava o denominador do índice que media o tamanho da dívida.
    Claro que a inflação tem um papel, mas é absolutamente marginal e completamente desnecessário. A verdadeira explicação para o baixo crescimento da dívida pública entre 1930 e 1980 se deve ao crecimento econômico. Tanto é verdade que a partir de 1980 quando o PIB reduz o crescimento e a inflação explode a dívida pública também explode. Contrariando a predição de sua teoria que coloca a inflação como instrumento chave para explicação do baixo crescimento da dívida.
    abraços,
    Gustavo

  9. Pedro,
    quer dizer que ninguém no banco central entende porque o spread no Brasil é tão elevado?
    fico espantado com tanta perplexidade.
    Ora, o spread é alto por 3 motivos:
    1) o juros básico é altíssimo, o spread aumenta muito mais do que proporcionalmente aos juros em decorrência de vários fatores decorrentes dos juros altos, como a baixa alavancagem bancária e a alta inadimplência (com juros muito altos a demanda por empréstimos de tomadores que podem pagar esses juros é muito pequena e, portanto, as receitas de crédito se tornam relativamente menores por volume de capital próprio).
    2) Oligopólio bancário. Quase todo o setor de bancos comerciais é dominado por 4 bancos privados e 2 bancos públicos. E os bancos públicos são induzidos a ter uma “performance financeira” similar aos bancos privados, portanto, não colocar spreads muito menores. Assim 2 bancos privados líderes definem os níveis básicos de spread e os resto segue, como em um modelo tradicional de oligopólio com empresa líder formadora de preço.
    3) no Brasil o depósito compulsório e os impostos sobre operações de crédito são relativamente maiores do que em outros países.

    Reparem que todos esses fatores se reforçam porque são proporcionais ao spread, ou até mesmo mais do que proporcionais como o aumento da inadimplência a redução da alavancagem.
    abraços

  10. Pedro

    Você tem se revelado um bom debatedor. Podemos não concordar em alguns pontos, mas o importante é aceitarmos debater idéias, teorias e pontos de vista com calma e maturidade.

    No caso do spread bancário brasileiro, convergente em valores quando se analisa o conjunto do sistema, não há como fugir daquilo que os teóricos dos jogos chamam de “collusive behavior”. Poder de mercado e conluio são práticas que nenhum economista sério, neoclássico ou não, defende e apóia. Milton Friedman era terminantemente contrário e se recuarmos mais, Fank Knight, autor do clássico ‘Risk, uncertainty and profit’ (Houghton Mifflin Company, 1921), condenava a interdição da competição.

    Não sei se você conhece finanças funcionais. Meu colega Randall Wray na rede EFE – Economist for Full Employment do Levy Economics Institute of Bard College publicou um livro bem interessante sobre o assunto no Brasil: ‘Trabalho e moeda hoje: a chave para o pleno emprego e a estabilidade de preços’ (Editora da UFRJ, Contraponto, 2003).

    Ele possui artigos interessantes no site da rede EFE. Procure pelo Google. Se estiver mais interessado digite também “stiglitz nobel lecture” e leia a bela peça teórica construída por um dos maiores economistas da atualidade.

    O colega irá perceber que não estamos inventando a roda neste blog…

    Um abraço,

    Rodrigo L. Medeiros

  11. Pedro said

    “Essa (CONTENÇÃO DE GASTOS PÚBLICOS) só seria uma política a ser considerada em caso de pleno emprego, ou seja, em caso de crescimento econômico em torno de 10% por mais de 15 anos ininterruptos.”

    Gustavo, cada um tem sua idéia a respeito do momento em que é necessário conter gastos. Eu acho que isso ocorre quando a expectativa de inflação começa a descolar da meta. Vc acha que é qd o país cresce 10% por mais de 15 anos seguidos (o que me parecem números completamente chutados, pq o pleno emprego não seria atingido antes ou depois?).

    Agora, está um pouco irritante esse negócio de vc dizer o tempo todo que eu uso falácias. Em nenhum momento eu coloquei palavras na sua boca. Simplesmente concordei que a política fiscal é uma maneira melhor de controlar o nível de atividade, como VOCÊ mesmo disse. E acrescentei, depois, um porém: a política monetária pode ser melhor para fazer a sintonia fina. Em nenhum momento eu disse que vc defendia contenção de gastos em qualquer instante. Se não entendeu, releia e faça um esforço para entender antes de partir para a desqualificação de qq argumento que pareça contrário ao que vc defende.

    “vocês dizem que “a pior coisa para piorar a distribuição de renda é a inflação”. Isso não é verdade. A verdade é que a coisa que mais piora a distribuição de renda são os juros altos.”

    Primeiro, para variar, eu não disse isso que vc afirmou que eu disse. Vc está se especializando em inventar um estereótipo de “ortodoxo”, bater no estereótipo e deixar os ortodoxos sérios de fora da discussão.

    Eu disse que inflação afeta gravemente a desigualdade – ainda que não seja a única ou a pior, não sei, não vou ficar inventando sobre o que não sei. Há uma montanha de dados mostrando isso (ver os trabalhos do Fernando Hollanda). Inflação é um imposto sobre a moeda e incide especialmente sobre os mais pobres, com menos acessos a serviços bancários. Há evidência disso para o mundo todo (o próprio Mankiw, no livrão de graduação, já indica referências).

    “A verdade é que a coisa que mais piora a distribuição de renda são os juros altos. A concentração de renda nunca aumentou tanto quanto depois de 1995 quando acabou a inflação”

    Bem, qual o índice de concentração que vc arrumou? Incrível que vc e o trabalho que vc indica nem mencionam o índice de Gini, padrão da medida de desigualdade no mundo todo, que vem melhorando ano a ano desde o plano real e está no patamar mais baixo da história. Da mesma forma, o consumo na camada mais pobre nunca cresceu tão rápido – o acesso da camada mais pobres a novos produtos nunca foi tão rápido (ver a pesquisa do Marcelo Neri no CPS/FGV).

    Se vc discorda dessas medidas, tudo bem; apresente sua crítica. Agora, simplesmente ignorá-las (quando o mundo todo as considera) sem apresentar motivo e escolher cuidadosamente a medida que o ajude a defender seu ponto, isso não vale.

    Participação da renda do trabalho no PIB perde capacidade de medir desigualdade à medida que aumenta o acesso da população ao mercado de capitais, como aconteceu fortemente nos últimos quinze anos. NÃO VALE ESCOLHER A MEDIDA QUE ESTÁ DE ACORDO COM SEU ARGUMENTO.

    “Isso óbvio, pois a inflação, é quase neutra em relação aos salários, se eles crescerem tanto quanto ela.”

    Nunca li nada tão sem pé nem cabeça. De onde vc tirou que salários acompanham a inflação? No ABC paulista, com seus fortes sindicatos, talvez, e em apenas alguns momentos; para os mais de 70% (em quase toda a história brasileira) de trabalhadores informais, não. Ninguém nunca apresentou dados corroborando o que vc disse; se os tem, apresente.

    “Hoje controle de inflação é câmbio estável, porém competitivo, basicamente.”

    Me diga onde isso já funcionou. Aliás, me diga onde isso já funcionou melhor que os regimes de metas de inflação. Dê uma olhada no trabalho do Marcio Firmo (monografia da Puc-Rio), uma resenha que mostra o impacto positivo do regime de metas sobre a inflação, impacto identificado em diversos estudos. Se vc conseguir evidência de que controlar o câmbio é melhor, apresente. Especulação pura não vale.

    “O segundo equívoco com relação a sua “teoria” da inflação é achar que ela “financiou” significativamente o Estado Brasileiro em nossos períodos e alto crescimento. A inflação é disfuncional ao financiamento público. Mais uma vez você está preso ao paradigma do PIB constante.”

    O Estado brasileiro foi financiado pelo imposto inflacionário – isso não é economia, isso é contabilidade. Veja o “Finanças Públicas” do Giambiagi (ou no site do BC, ou do IPEA), lá estão as participações do imposto inflacionário no financiamento do setor público. Isso não tem rigorosamenet nada a ver com PIB constante, de onde vc tirou isso? Em parte, a arrecadação no Brasil entre 1930 e 1980 avançou pq a economia cresceu; em parte, avançou pq o Estado lançou mão do imposto inflacionário; em parte, por outros motivos! Simplesmente negar esse segundo fator é incompreensível qd vem de alguém com boa formação. Vc pode achar que não foi importante, que as atuais avaliações de arrecadação do imposto inflacionário estão erradas; apresente então suas revisões. Simplesmente negar não faz parte do debate acadêmico sério.

    “Claro que a inflação tem um papel, mas é absolutamente marginal e completamente desnecessário. A verdadeira explicação para o baixo crescimento da dívida pública entre 1930 e 1980 se deve ao crecimento econômico.”

    Repito: faça as contas e negue o que é bem conhecido: o imposto inflacionário foi relevante para o finaciamento do Estado brasileiro, não veio tudo do crescimento econômico. Desça do pedestal das “verdadeiras explicações”, vc não é Deus.

    “Tanto é verdade que a partir de 1980 quando o PIB reduz o crescimento e a inflação explode a dívida pública também explode. Contrariando a predição de sua teoria que coloca a inflação como instrumento chave para explicação do baixo crescimento da dívida.”

    Pelo amor de Deus, dois fatos simultâneos não necessariamente guardam relação causal. E, de novo, lá vem vc falar da predição da “minha” teoria, como se em algum momento eu tivesse dito que inflação necessariamente impede que a dívida avance; obviamente, há vários fatores que influenciam a divida à parte a inflação. Como, por exemplo, um súbito aumento das taxas de juros internacionais.

    Peço por favor: pare de colocar afirmações na minha boca.

    “quer dizer que ninguém no banco central entende porque o spread no Brasil é tão elevado? fico espantado com tanta perplexidade. Ora, o spread é alto por 3 motivos:”

    Que bom que tudo é tão simples e óbvio para vc. Precisamos de mais gênios assim. Aquele bando de gente teoricamente qualificada fazendo pesquisa séria… ah, devem ser uns idiotas para não ter visto esses três motivos, tão claros, tão óbvios.

    “o juros básico é altíssimo, o spread aumenta muito mais do que proporcionalmente aos juros em decorrência de vários fatores decorrentes dos juros altos”

    Mais uma vez: apresente dados. Não conheço nada do gênero no mundo. Me parece apenas especulação sua. O fato de que o Brasil tem juros básicos altos e spread alto não indica relação de causalidade, nem nenhum pesquisa que eu conheça indica isso, no Brasil ou no mundo. Se vc conhecer pesquisas nesse sentido, apresente.

    “Oligopólio bancário. Quase todo o setor de bancos comerciais é dominado por 4 bancos privados e 2 bancos públicos. (…)Assim 2 bancos privados líderes definem os níveis básicos de spread e os resto segue, como em um modelo tradicional de oligopólio com empresa líder formadora de preço.”

    Já trabalhei nessa área, que tem uma agenda de pesquisa intensa, e não conheço evidência de oligopólio entre bancos. Tudo que sabemos até agora é que, com baixo volume de crédito para famílias e empresas, o spread é alto, mas não sabemos se há relação causal ou não; nem sabemos a importância da coordenação entre bancos. Veja os trabalhos do Eduardo Fiuza, do IPEA. Se tiver dados que indiquem o contrário, será extremamente importante para essa literatura – um resultado assim seria o Santo Graal para o pessoal de regulação bancária. Apenas especulação, porém, não vale.

    Abs a todos.

  12. Pedro said

    Rodrigo,

    obrigado pelo elogio. Espero ser capaz de me manter o bom nível do debate.

    Discordo de sua afirmativa a respeito de “collusive behaviour”. Como disse, essa é a minha área e não há evidência conclusiva desse comportamento no setor bancário, longe disso. Vai ser ótimo quando encontrarmos tal evidência, o CADE vai fazer a festa, tem muita gente procurando isso. Mas, até agora, tudo que encontramos foi o seguinte: brasileiro é desesperado por crédito e paga qq taxa. É difícil dizer que o João da merceria A e o José da mercearia B fazem conluio no preço do leite quando há uma multidão desesperada, aceitando pagar qq preço no leite. Isso ainda é especulação, mas não encontramos nada contrário, nem nenhuma explicação alternativa sustentada pelos dados.

    É um quebra-cabeças que os bancos internacionais tenham entrado e não tenham tentando abocanhar grandes parcelas do mercado, cobrando tarifas altas, mas inferiores ao que o BB ou o Bradesco cobram; ao que parece, simplesmente não vale a pena. Ao contrário do que o Santander fez em outros países da América Latina, no Brasil o spread é tão alto que não vale a pena aumentar a base de clientes com taxas um pouco menores.

    Qd os bancos tem um incentivo tão forte dos próprios consumidores a manter as taxas altas, não é necessário conluio para sustentá-las altas – pode haver, pode não haver, mas os meios que temos para identificar conluio não capturam nada.

    Até agora, não há nada conclusivo sobre esse comportamento. Pode ser um equilíbrio tácito de um jogo entre os bancos, mas isso não parece muito provável. Infelizmente, talvez o problema do spread não tenha tanto a ver com os bancos, mas com os consumidores, que não comparam tarifas bancárias como comparam o preço do leite. É o preço que pagamos por não ter fornecido crédito suficiente por tanto tempo.

    Enfim, é uma área com muitas perguntas interessantes, mas infelizmente poucas respostas que nos auxiliem a fazer política de concorrência e/ou regulação.

    Novamente, obrigado pelas referências.

    Abs.

  13. Pedro,
    Você é um competente economista. Debate com educação e cordialidade. Nós temos que agradecer sua participação em nossos debates. Obrigado.
    Admito que eu peco às vezes com relação a isso.
    Desculpe por dizer que você usa falácias. Na verdade, elas são muito comuns nos debates e não é fácil evitá-las. Todos nós podemos cair nessa cilada. Mas temos que evitá-las.
    Você ficou realmente irritado e até saiu de sua tradicional cordialidade. Desculpe novamente.
    Vamos aos pontos.
    Você tem baseado sua argumentação em grande parte no seguinte argumento: “nunca vi isso, me mostre os dados”.
    Você nunca viu porque conhece muito pouco de teoria econômica não-ortodoxa. Você é um economista ortodoxo. Tem posições normalmente diferentes de um economista keynesiano. Mas isso não significa que está errado a priori. Todos podemos nos equivocar ou acertar. O debate ajuda a esclarecer.
    Algumas coisas que você diz que nunca viu, são proposições clássicas do keynesianismo e do desenvolvimentismo estruturalista.
    Vou comentar minhas proposições principais nos últimos comentários:
    1) você disse que:
    “não conheço evidência de oligopólio entre bancos”.
    Acho que você não deve ter feito a conta sobre o market share dos 6 maiores bancos brasileiros, é inegável que existe um oligopólio bancário no Brasil. Essa é uma conclusão trivial, não sou eu que estou dizendo, muitos autores dizem isso.
    Entre os países de mais de 50 milhões de habitantes, a nossa concentração é provavelmente a maior, disparadamente.
    2) entre 1930 e 1980 a relação dívida/PIB no Brasil manteve-se relativamente baixa porque o crescimento foi muito elevado e não porque a inflação foi elevada. Eu não disse que o chamado “imposto inflacionário” teve papel zero. Eu disse que o crescimento é o principal fator e é muito mais importante do que o “imposto inflacionário”.
    Você pediu para mostrar dados. Os dados são auto-evidentes com cálculos que você pode fazer à mão aí do lado do seu computador. Basta calcular o imposto inflacionário anual e o crescimento real da arrecadação e o quanto que o crescimento do PIB era responsável pela variação da relação dívida/PIB. Se pegar os dados e fazer contas simples verá que o papel do imposto inflacionário é marginal se comparado com o crescimento para explicar à variação da relação dívida/PIB. É impossível que o chamado “imposto inflacionário” tenha sido o principal fator que manteve a relação dívida PIB relativamente baixa entre os anos de 1930 e 1980. O grande fator foi o crescimento da renda, que elevava a arrecadação e aumentava o denominador da relação dívida/PIB. Quando a renda para de crescer, no início dos anos 80 vemos um movimento inverso, de aumento da relação dívida/PIB, apesar de da inflação nunca ter sido tão alta. Posso dizer que minha proposição não é incoerente a essas significativas evidências empíricas. Ao contrário das suas proposições. Claro que essas duas evidências, apesar de serem significativas, não são uma demonstração definitiva. Mas mesmo em termos lógicos-teóricos ou mostrando os dados disponíveis de todos os anos não acredito que possa provar que a inflação teve um papel mais importante do que o crescimento econômico para a manutenção de uma relativamente baixa dívida/PIB entre 1930 e 1980. Não adianta citar artigos de qualquer autor, você precisa mostrar evidências empíricas e argumentos lógicos, pode copiá-los dos artigos que está citando, não tem nenhum problema.
    3) Há diversos dados mostrando como a renda se concentrou em detrimento dos trabalhadores nos anos 90. Por exemplo:
    http://www.desempregozero.org.br/editoriais/MOMENTO_NACIONAL_2.pdf
    A concentração foi inédita em termos absolutos e na velocidade em que se deu. Estou falando que a concentração de renda entre os mais ricos não é captada pela pesquisa da PNAD, porque eles não são entrevistados, apesar de possuírem proporção enorme da renda. Há artigos que debatem esse problema, que é conhecido. Há artigos defendendo e atacando essa proposição. Você sabe de que lado estou nessa questão e já expliquei que minha posição que a pesquisa é viesada de forma a não captar adequadamente a evolução da renda dos muito ricos. Procure e encontrará textos sobre isso. A perda de participação do salário na renda é sim uma perda dos trabalhadores que é a grande maioria da população.
    4) Pedro, câmbio estável e competitivo foi uma política eficiente para alto crescimento e inflação estável em toda a Europa do pós-guerra e em todo o Leste Asiático, como Japão, Coréia e Taiwan e funciona para a China e a Índia hoje. Você pode dizer que o sistema de metas inflacionárias é eficiente para controlar a inflação. Acredito que sim. Mas não acho que possa mostrar evidências empíricas de que esse sistema é melhor do que manter o câmbio estável e competitivo, se além de uma inflação estável, se objetive ter uma elevada taxa de crescimento: em torno de 7%.

    Vou evitar dizer que você usa falácias. Desculpe a falta de gentileza. Serei o mais gentil possível. Mas não é suficiente dizer que você nunca viu nada sobre o que eu estou levantando, ou exigir: “me mostre os dados”. Posso pedir o mesmo. Não adianta simplesmente citar autores de artigos. Por exemplo, acho impossível que você encontre um artigo que mostre que a inflação foi mais importante do que o crescimento econômico para a manutenção de uma relativamente baixa relação dívida/PIB entre 1930 e 1980.
    Mas quem sabe, todos podemos no equivocar, não é?
    Minha posição é esta: o crescimento acelerado que foi o grande motivo pelo qual a relação dívida/PIB se manteve relativamente baixa.
    Pedro,
    Desculpe por ter dito que você usou falácias. Você é sem dúvida um excelente debatedor, pelo conhecimento e cordialidade. Se o respeito e a simpatia mútuas puderem continuar prevalecendo eu ficaria muito satisfeito. Desculpe-me por ter desviado desse caminho, me arrependo por isso. Espero que possamos voltar a nossa cordialidade que você também bem soube transmitir na maior parte do tempo. Isso não será fácil, se mantivermos um tom de disputa. Não sei se é possível, neste ponto, mas o que você acha que devemos fazer para evitar qualquer tom de disputa sem perder o aspecto construtivo do debate?
    Acho que temos que focar primeiro nos pontos de concordância. Reafirmar proposições keynesianas e ortodoxas não tem sido um método eficiente.
    acho que estamos nos movendo em círculos boa parte do tempo.
    O que você acha?
    Abraços

  14. Pedro

    A oferta monetária (M3) brasileira tem girado em torno de pífios 28% do PIB (Cf. dados da CEPAL, 2007). Um volume muito superior de recursos financeiros vem girando no cassino financeiro administrado pelo Banco Central do Brasil.

    Não há como comparar um oligopólio de bancos que pratica spreads equivalentes com o varejo da venda de leite, onde o consumidor pode comparar preços de maneira mais simples. A não ser que o conluio seja um elemento de similitude. Não deixe de ler a Nobel Lecture do Stiglitz (2001), pois se trata de uma grande peça teórica. Digite no Google “stiglitz nobel lecture”.

    Veja como a diretoria do Banco Central vem sendo chancelada pela FEBRABAN. Se o sujeito não passar pelo crivo do “mercado”, não senta na cadeira de diretor… Tem sido assim. O Banco Central do Brasil não é uma instituição republicana no sentido do FED. Lembro-me que a imprensa noticiou certa vez que senhora do ex-ministro do STF Nelson Jobim já ocupou uma cadeira no COAF/MF. Sinceramente, a regulação do sistema financeiro é abaixo da crítica neste país.

    Há um artigo do Ricardo Leal, da COPPEAD/UFRJ, que considero bem interessante para se analisar a concentração econômico-financeira no Brasil. O texto pode ser capturado gratuitamente no http://www.ssrn.com. A referência é Leal e Valadares (2000) e trata da concentração acionária das SA brasileiras quando se compara com suas congêneres estrangeiras. E a CVM…

    Certamente o governo federal, que administra BB e a CEF, poderia estar forçando uma maior competição no setor. Há acomodação do governo Lula e compromissos firmados junto à banca na campanha de 2002. Influência do paloccismo…

    Não quero te convencer. O contraditório enriquece. Estou apenas digitando essas linhas para que troquemos idéias e experiências. Continue conosco.

    Um abraço,

    Rodrigo L. Medeiros

  15. Rodrigo,
    você tem toda razão. Eu estava assumindo uma posição de tentar convencer pelo debate. Isso é muito difícil. A melhor postura é assumir que o recuo no debate é uma posição desconfortável e que as pessoas evitam. Partindo desse ponto, podemos trocar idéias e quem sabem descobrirmos algum ponto de consenso.
    Com relação ao preço do leite e os juros. Acho que a opinião da maior parte da teoria econômica é que lucros recorrente e continuamente acima da média (ou no normal) são consequência de posições favorecidas de mercado (oligopólio, monopólio ou situações similares). Nesse ponto há um consenso entre ortodoxos e heterodoxos.
    E isso nunca é por culpa dos consumidores, como disse o Pedro:
    ” É difícil dizer que o João da merceria A e o José da mercearia B fazem conluio no preço do leite quando há uma multidão desesperada, aceitando pagar qq preço no leite.”
    ou ainda “Qd os bancos tem um incentivo tão forte dos próprios consumidores a manter as taxas altas, não é necessário conluio para sustentá-las altas”
    Essa situação só é válida em uma situação circunstancial em que a a oferta foi surpreendida por uma demanda inesperada e é rapidamente resolvida pelo próprio efeito da livre concorrência.
    ora, se o leite fosse vendido a 20 reais, pode ter certeza que haverá demanda para ele, só que muito menor do que o leite a 2 reais. O mesmo vale para os juros. Se os juros reais do crédito ao consumidor forem de 30%, haverá demanda. Mas é muito menor do que se os juros reais forem 3%. De fato, isso explica porque a o crédito privado no Brasil gira em torno de 30% enquanto na Ásia e nos países desenvolvidos é em torno de 100% do PIB.
    Isso é básico: não é culpa do consumidor o fato das margens de lucros serem muito acima da média (como de fato as taxas de lucro muito acima do custo da média mostram). Concorrência serve para reduzir isso, independentemente do padrão de consumo. Se há barreiras à entrada (competitiva) da concorrência, os lucros podem ser muito acima da média, como é no setor bancário brasileiro.
    Esse é um ponto de consenso entre ortodoxos e heterodoxos.
    abraços

  16. Artigo sobre o assunto que estamos conversando:
    http://desempregozero.org/2008/04/08/nos-balancos-corporativos/

  17. Gustavo e Pedro

    Há um trabalho que é considerado pela crítica como um dos melhores já escritos sobre estratégia. Trata-se do ‘Safári de estratégia: um roteiro pela selva do planejamento estratégico’ (Bookman, 2000), de Mintzberg, Ahlstrand e Lampel.

    Os autores dividem o tema por escolas do pensamento estratégico. Dez no total, sendo que três são prescritivas e sete descritivas. Ressalto que as descritivas podem tornar-se prescritivas. Uma escola particular me parece interessante quando se trata de analisar debates: a escola cognitiva.

    Buscar compreender como as pessoas raciocinam pode tornar-se tarefa de Sísifo em muitos casos. No entanto, creio ser importante perceber que em muitos debates as pessoas entram com idéias pré-concebidas e não têm a real intenção de debater. Apenas buscam defender suas posições. A intransigência é uma das marcas do neoliberalismo. Os teóricos neoclássicos, por sua vez, já alargaram o arcabouço herdado de Marshall por diversas vezes. Sem problemas e preconceitos. Basta analisar os prêmios Nobel de Economia e a diversidade de assuntos tratados.

    Retornando à ciência econômica, penso que a compreensão do processo inflacionário precisa ser alargada. Não sei se vocês dois, meus caros colegas, conhecem o conceito de “insuficiência crônica de demanda” do Ignácio Rangel (1963) e sua influência no processo inflacionário brasileiro desde a substituição de importações. Pois bem, Rangel atualizou esse conceito para os ciclos econômicos, Kondratiev (ondas largas) e Juglar (ciclos de atualização tecnológica da indústria), e a inserção brasileira até sua morte, em 1994. Há textos sobre isso no site da Revista de Economia Política (REP), cujo editor é o professor Luiz Carlos Bresser-Pereira (FGV-SP).

    O importante é ampliarmos as perspectivas analíticas e teóricas do debate econômico.

    Um abraço,

    Rodrigo L. Medeiros

  18. Rodrigo,
    estratégia empresarial é um assunto muito interessante, pena que é pouco estudado entre os economistas. Não entendo o por quê.
    Porém, é uma temática criada por economistas e é um típico assunto de interesse da economia industrial. O próprio Michael Porter é economista.
    abraços

  19. Pedro said

    Gustavo e Rodrigo, peço desculpas se não mantive o nível da discussão. Espero evitar isso daqui em diante. Como disse, acho muito importante haver um espaço para discussão econômica que não vire bangue-bangue. Importante para o país, importante para os que estão na base da pirâmide sócio-econômica e mais sofrem as consequencias das decisões de política econômica. Não é meu objetivo inviabilizar um espaço assim.

    Gustavo, quanto a referências, o ponto é exatamente esse: peço referências e dados exatamente porque não conheço tudo no mundo. Mesmo tendo formação ortodoxa, não conheço nem 1% do que economistas ortodoxos já produziram. Isso é fundamental no debate: ao trazer uma idéia nova, que possivelmente vai surpreender os participantes, apresentar evidência empírica, para evitar que uma discussão se torne apenas uma troca de especulações!

    Vamos, então, aos pontos.

    “Acho que você não deve ter feito a conta sobre o market share dos 6 maiores bancos brasileiros, é inegável que existe um oligopólio bancário no Brasil. Essa é uma conclusão trivial, não sou eu que estou dizendo, muitos autores dizem isso.”

    Market share não implica oligopólio ou conluio. As agências reguladoras não baseiam nenhum processo só em market share. Se fosse só isso, a vida do CADE seria muito mais fácil. E pode ter certeza: o CADE está louco para encontrar evidência de conluio entre bancos. Com duas firmas, é possível ter um comportamento muito mais competitivo do que observamos entre bancos, depende da estrutura de mercado.

    Esse mesmo market share não gera margens tão altas nos mercados de refrigerantes ou automóveis, por exemplo. Longe disso, muito longe. Logo, nível de concentração não conta a história toda – isso está longe de ser evidência.

    Além de market share, há índices com HHI(que levam em conta não apenas participação, mas variância) que capturam mais informações sobre o nível de concentração. E possui relação muito mais forte com comoprtamento anti-competitivo. Esse índice não difere significativamente em relação a inúmeros outro mercados com margens muito menores.

    Há uma série de métodos para avaliar conluio – o que tem sido mais usado em agências reguladoras mundo afora tenta avaliar se os preços dos possíveis participantes do conluio respondem da mesma forma a diferentes movimentos da demanda (a demanda precisa “se deslocar e girar”). E esses métodos ainda não pegaram nada. Infelizmente, a “evidência” que vc apresentou (market share dos SEIS maiores bancos – se ainda fosse só do primeiro…) não é aceita em nenhum órgão de defesa dos consumidores no mundo.

    “Concorrência serve para reduzir isso (LUCROS ACIMA DA MÉDIA), independentemente do padrão de consumo.” É exatamente esse o nosso quebra-cabeça; não tem sido independente. Não há evidência de conluio de acordo com os testes que temos; há possibiliadde de concorrência; e ninguém diminui tarifas ou spread para aumentar sua fatia de mercado. O que falei a respeito dos consumidores é uma possibildade, mas ninguém acha isso intuitivo (e ninguém quer culpar os consumidores, claro). Em algum momento, por mais desesperados e ávidos que estejam os consumidores, concorrência deve levar a menores spread e taxas, mas isso está levando muito tempo.

    “É impossível que o chamado “imposto inflacionário” tenha sido o principal fator que manteve a relação dívida PIB relativamente baixa entre os anos de 1930 e 1980.”

    Concoro inteiramente. Não foi o principal. Da mesma forma que o imposto de renda não é o principal fator que impede o aumento da dívida pública hoje – crescimento econômico e recuo dos juros reais são muito mais importantes. O que não significa que imposto de renda não seja essencial para a atual trajetória, nem significa que o imposto inflacionário não tenha sido essencial no passado.

    É importante ter claro, simplesmente, que grande parte dos gastos públicos entre 1930 e 1980 foi financiado por imposto inflacionário, e esse foi um dos fatores que contribuíram para que a dívida brasileira não explodisse (ainda que não o mais importante). Foram alguns pontos percentuais do PIB a cada ano de arrecadação; ao longo de décadas, isso é extremamente relevante.

    Essa discussão me deu uma idéia de artigo: vou fazer a conta e avaliar a razão dívida/pib em 1994 na ausência de imposto inflacionário. Saber que esse imposto foi significativo a cada ano não é a história toda; é importante comparar períodos longos.

    “A perda de participação do salário na renda é sim uma perda dos trabalhadores que é a grande maioria da população.”

    A PNAD tem inúmeros problemas. Assim como a “renda do trabalho” que o IBGE mede é péssima para avaliar a renda do trabalho de fato entre os extremamente pobres – em muitas cidades, a pesquisa do IBGE indica renda do trabalho absurdamente menor do que o consumo naquela cidade. Fui ver algumas e não há nenhuma indicação de que seja um hiper pólo de turismo ou um centro de tráfico. Ou o paraiso dos rentistas.

    Também em muitos lugares o consumo das camadas mais pobres disparou e a renda do trabalho ficou constante ou até recuou. Ou seja, Renda do trabalho também é uma medida ruim – entre os muito pobres.

    O índice de Gini é usado na maioria dos países como medida de desigualdade pq há bons motivos para considerar que capture melhor a desigualdade do que renda do trabalho ou outros indicadores. É importante ter todos em mente, é importante conhecer as falhas de cada um; mas renda do trabalho dá problemas demais, e o índice de Gini tem sofrido menos críticas.

    Para falar de desigualdade, acho que a primeira coisa a fazer é apresentar a evidência padrão no mundo – o índice de Gini, que vem mostrando redução da desigualdade no Brasil. Depois, fazer a sua crítica e dizer pq uma medida alternativa é melhor – isso inclui apontar as falhas do seu método, mas explicar pq ainda assim é melhor. Por último, apresentar seus resultados.

    “câmbio estável e competitivo foi uma política eficiente para alto crescimento e inflação estável em toda a Europa do pós-guerra e em todo o Leste Asiático, como Japão, Coréia e Taiwan e funciona para a China e a Índia hoje.”

    Bem, aí caímos na discussão anterior. Eu fico com a literatura de desenvolvimento e economia internacional (Krugman e tantos outros), que indica que o fator determinante para o crescimento desses países que vc falou (não conheço o caso indiano) foi a taxa de poupança, e depois o nível educacional. O câmbio depreciado foi resultado, essencialmente, de uma alta taxa de poupança – tem uns modelos bem interessantes de teoria do comércio que indicam esse efeito, que é bem robusto empiricamente.

    Também é um resultado padrão nessa literatura que é muito difícil para um governo determinar a taxa REAL de câmbio sem mexer em variáveis reais – sendo que a mais importante é a taxa de poupança pública.

    Assim, associar cambio a crescimento (mantendo-o estabilizado para controlar a inflação) é uma história, na melhor das hipóteses, incompleta. A evidência que temos indica que o câmbio foi o canal que refletiu alguma coisa com impacto positivo sobre o crescimento – por exemplo, a taxa de poupança, mas isso também não conta a história toda. Feito o controle para poupança e educação, o efeito direto do câmbio desaparece (surpreendentemente, não é preciso nem controlar para estruturas de mercado mais ou menos competitivas, nem para crédito!). Mas como vc acha que poupanaça é um nada, isso tudo deve soar como conversa para boi dormir…

    Abraços a todos.

  20. […] Recentes Pedro em ** DEBATE VI ** Os juros são …Gustavo Santos em ** DEBATE VI ** Os juros são …Léo Nunes em POTÊNCIAS EUROPÉIAS BARRAM […]

  21. Pedro,
    Você é um gentleman (só de vez em quando dá uma escorregadela) além de ser corajoso. Você tem toda razão, “bang-bang” não é bom para ninguém. Vamos aos pontos:

    1) Eu não disse que há conluio entre os bancos. Até acredito que exista (há evidências disso, mas prefiro não entrar nessa questão, porque geraria muita polêmica, pois vai muito além do que você parece estar imaginando como conluio e seria um bocado especulativo mesmo), mas não preciso dessa hipótese para mostrar que o oligopólio bancário é a principal razão para explicar os elevados lucros bancários por mais de uma década. É uma oligopólio. Isso não é especulação, é fato.

    2) Há um oligopólio bancário no Brasil por definição. Quase todo o mercado concentrado na mão de poucos. Definição de oligopólio pura e simplesmente. Assim é no Brasil de hoje. E mais, é a maior concentração bancária em países grandes (com mais de 50 milhões de habitantes). Isso não é especulação, é fato.

    3) Como vc mesmo disse: “ninguém diminui tarifas ou spread para aumentar sua fatia de mercado.”. Ora, isso não me parece um “quebra-cabeça”. Há teoria para explicar isso: barreiras à entrada. Todos sabemos o quão caro que são vendidas a carteiras de clientes dos bancos. Carteira de clientes, estrutura de sistema de informações, reputação, dispersão no território e na malha urbana, diversificação da carteira de produtos, costume dos clientes que se “prendem” ao banco, leis dos grandes números reduzindo o custo do risco, há diversos ganhos de escala e outros tipos de barreiras à entrada. O resultado é capacidade de sustentar elevadíssimas margens de lucro, sem risco de perda de mercado para novos concorrentes. Se podem ter altos lucros, farão, pois estamos supondo que banqueiros são gananciosos. Você não pode comparar sem mediações o mercado bancário com o mercado de automóveis ou de cerveja brasileiros. Porque a rentabilidade da indústria de bens de capital é limitada pela concorrência externa, não só de outras empresas, como também de fábricas da mesma empresas em países de custo mais baixo. Hoje a competitividade da indústria está abalada pela valorização cambial. Indústrias de montagem como automóveis não sofrem de falta de capacidade instalada no planeta. Pelo contrário. Cerveja tem outro tipo de razão para ter uma rentabilidade menor do que o setor bancário no Brasil. Essa razão é que o custo de entrada é relativamente menor na cerveja do que no banco. Para constatar isso, basta conscientizar que se uma empresa de cerveja nova que diz ter uma cerveja de qualidade maior ou igual à empresa líder quiser vender a um preço mais barato muitas pessoas irão “experimentar”. No Rio por exemplo a Itaipava, a Devassa e marcas importadas tem crescido muito. Não me consta que nenhum banco novo tem crescido muito em número de clientes no mercado de varejo nos últimos anos. E de fato o que vc acha mais fácil, experimentar um nova cerveja ou colocar seu dinheiro em um novo banco que está oferecendo tarifas mais baratas e remuneração melhor? Raramente alguém vai responder que é mais fácil experimentar um banco novo do que uma cerveja nova. Há outras questões também. Mas essas bastam. E isso não é uma especulação, as evidências empíricas e a base teórica foram explicitamente colocadas e podem ser questionadas.
    4) Acho que concordamos em relação ao imposto inflacionário. Eu o considero como sempre menos importante do que o crescimento ou o não-crescimento como fator explicado da relação dívida/PIB (claro que em um determinado ano o efeito dele pode até ser maior do que do crescimento, mas isso só corrobora meu ponto, porque o imposto inflacionário tem sempre um efeito relativamente pequeno, já o crescimento pode ter um efeito grande ou pequeno, mas é seu movimento que faz a diferença). A taxa de juros real, o coeficiente de tributação (chamado de “carga” tributária) tem importância, a variação das reservas cambiais e da dívida externa são mais importante do que o imposto inflacionário na minha opinião. Com relação ao seu artigo, eu acho que é uma excelente iniciativa. Mas peço cuidado. É preciso respeitar a ciência. Temos sempre que evitar concluir aquilo com que já acreditamos. Se pegar apenas o ano de 1994 e os anos em torno não estará pegando a questão como um todo, a série precisa ser bem maior para tirar conclusões. Principalmente pelo fato de que 1994 é um ano de radical mudança de regime. Mesmo assim, em 1994 a base monetária em poder do público cresce e isso não é necessariamente imposto inflacionário, como você sabe. Pelo contrário, em 1994 isso foi decorrente do fim da inflação, que aumentou a demanda por moeda.

    5) O fato de existir problemas de inferências em várias informações do IBGE e em particular no cálculo da renda do trabalho, não significa que haja viés e principalmente não significa que a participação da renda do trabalho só caiu dos anos 90 para cá. Essa é uma evidência geral que é incontestável pelos números do IBGE e em pode ser inferida de várias outra formas. Nunca ninguém contestou esse fato, pelo que eu saiba. Já a PNAD tem um viés. O erro é sempre na mesma direção: subestima o crescimento da renda dos muito ricos, que tem sido muito, mas muito maior do que o crescimento do PIB. Também nunca vi ninguém questionar esse último fato. Se a PNAD tem viés, muita gente não acredita, ou acredita, mas acha “inevitável”.

    6) A literatura ortodoxa de crescimento pode estar errada. Não podemos nos prender a uma “literatura” para defender uma posição científica. Fizemos profundas discussões tentando mostrar que poupança é conseqüência e não causa do crescimento (investimento). E isso não deveria ser disputa sobre qual é o melhor time de futebol, cada um justificando de qualquer maneira sua posição.
    Mas acho que seria cansativo voltarmos a essa discussão. Crescimento se dá por expansão dos gastos que pode gerar expansão da produção interna proporcional. E isso independe de poupança. Depende de capacidade de produzir, capacidade de ampliar o parque produtivo (e isso não depende de poupança, mas basicamente de know-how, competitividade, infra-estrutura, pois financiar negócios rentáveis é moleza) e capacidade de pagar as importações crescentes, o que requer manter o saldo em conta corrente equilibrado.

    Abraços a todos.

  22. Pedro (e Gustavo)

    Fui informado de que o Michael Porter é engenheiro de graduação com doutorado na Harvard Business School e que se baseou na teoria da organização industrial para elaborar aqueles livros.

    Ele acabou reduzindo a complexidade da área que consagrou Joe Bain e George Stigler, este último Nobel de Economia. A economia da estratégia, por sua vez, obteve um ferramental prescritivo que facilitou a vida dos consultores. Trata-se, no entanto, de um sujeito inteligente. Não concordo com tudo o que ele escreveu. O melhor texto dele, ‘O que é estratégia?’, encontra-se publicado na última edição de 1996 da Harvard Business Review. Penso que o mesmo está disponível no site da revista.

    Concordo que estratégia é algo muito pouco estudado nas nossas melhores escolas de Administração, Economia e Engenharia de Produção.

    Estarei lançando nos próximos tempos o livro ‘Leituras em Economia e Administração’. Creio que haverá um evento no Rio. Vamos ver. O livro baseia-se numa coletânea de artigos que buscam conciliar economia do desenvolvimento com gestão organizacional. Penso que se trata de um tema importante.

    Quanto ao poder de mercado exercido pelo oligopólio de bancos no Brasil, penso que se deve encarar a questão de maneira mais realista. Ficou famoso o comentário de David Rockefeller sobre o sistema bancário instalado no Brasil. O famoso banqueiro norte-americano disse certa vez que um banco instalado nos EUA precisaria ter o dobro do volume de operações para obter uma lucratividade equivalente a de seus congêneres brasileiros. Ele disse também que o FED, uma instituição defensora de valores republicanos, não permitiria tamanha facilidade na obtenção de lucros e que iria jogar duro na regulação do poder de mercado.

    O famoso investidor Warren Buffet disse recentemente que o Banco Central do Brasil sustenta o último peru do planeta.

    Um abraço,

    Rodrigo L. Medeiros

  23. Pedro said

    “mas não preciso dessa hipótese (CONLUIO ENTRE BANCOS) para mostrar que o oligopólio bancário é a principal razão para explicar os elevados lucros bancários por mais de uma década”

    “Há um oligopólio bancário no Brasil por definição. Quase todo o mercado concentrado na mão de poucos. Definição de oligopólio pura e simplesmente.”

    Não precisa dessa hipótese, mas precisa de alguma coisa além de oligopólio.

    Concordo que exista oligopólio, falando estritamente. Mas isso, a princípio, não tem qq implicação certa sobre o comportamento dos oligopolistas ou sobre as margens de lucro. É necessário ter mais informação sobre a estrutura do mercado.

    Oligopólio não implica margens de lucro extraordinárias. Teoricamente, temos o modelo de Bertrand, em que apenas duas firmas cobram preços competitivos.

    Empiricamente, sugiro muito que dê uma olhada nos estudos do CADE (ou do José Marcio Camargo, ou do Eduardo Fiuza): há muita evidência de que não é o market share (nem qq medida de concentração) que explica o comportamento ou o lucro dos bancos. Se vc não quer comparar com cerveja ou automóveis, tudo bem: não encontramos algo parecido em nenhum outro setor bancário da A.L. (muito menos em países desenvolvidos). É alguma coisa além de oligopólio, ou é uma característica de oligopólio bancário que nem jabuticaba: estritamente brasileira.

    “Raramente alguém vai responder que é mais fácil experimentar um banco novo do que uma cerveja nova.”

    É exatamente esse o ponto. Inclusive, pode ser mais ou menos raro; no Brasil, parece que é raro DEMAIS experimentar bancos novos. Não se trata de “culpa” dos consumidores, mas de cultura, de escolhas possivelmente excelentes quando o sujeito pensa em todos os perrengues que já passou no banco.

    Isso não é a mesma coisa que barreira à entrada, pois entraram vários bancos no Brasil ao longo dos últimos anos que mudaram significativamente o ranking de bancos brasileiros (à parte os 4 top). E a surpresa foi: o spread caiu ridiculamente, as taxas caíram ridiculamente. Quando Santander, ABN e outros bancões entraram em países semelhantes ao Brasil (A.L.), o spread caiu muito mais rápido.

    Nos Estados Unidos, por exemplo, os pequenos bancos de varejo, os bancos locais, são extremamente importantes. Os banqueiros simplesmente não querem abrir bancos pequenos e gerar concorrência no Brasil? Pode ser, mas não parece muito provável, dadas as gigantescas oportunidades de lucro para quem cobrar UM POUCO menos de spread e tarifas – olha os lucros que Bradesco e Itaú estão alcançando ano a ano… os lucros aumentam à medida que a taxa Selic cai! Conheço o caso do Itaú e posso afirmar que eles estão fazendo um grande esforço para vender crédito, é lucrativo demais!

    Se a concorrência estivesse funcionando, quem diminuísse um pouco as taxas ganharia um mercado gigantesco. Será que não tem ninguém disposto a fazer isso no mundo inteiro?? Logo no Brasil, ao contrário do que aconteceu na A.L. inteira, os bancos conseguiram se organizar para não baixar tarifas?

    Pode ser, mas acho muito difícil, dado que a concorrência bancária foi intensa na maior parte do mundo nos últimos quinze anos (crise de subprime, até certo ponto, é resultado disso). Logo no país em que mais vale a pena cobrar tarifas menores e ganhar mercado, os caras não fazem isso? Logo no país com maior incentivo a desviar de um comportamento anti-competitivo, os caras não o fazem? E os MESMOS bancos atuam competitivamente em outros países??

    Seu ponto quanto a “altos custos de entrada” tb perde sentido diante da concorrência internacional, que pode chegar, comprar uma rede pronta, cobrar menos que Itaú e Bradesco e tomar conta de grande fatia do mercado. Como aconteceu ao redor do mundo nos ultimos 15 anos. Mas os bancões entraram no Brasil e isso não aconteceu…

    Meu palpite (e é só um palpite) é o seguinte: brasileiro é o povo do mundo que mais desconfia de banco. Tb pudera, depois de anos levando “cano”… é muita gente que faz questão de ter conta no BB, na CEF, no Bradesco, no Itaú, e acabou, não confia em mais ninguém.

    É só palpite, mas me parece mais razoável do que a idéia de que os banqueiros de todo o mundo resolveram suspender a concorrência logo no Brasil, e só aqui… mesmo em países com regulação bancária muito mais frágil isso não aconteceu…

    Esse tema é importantíssimo, diante da importância do crédito para o desenvolvimento econômico (o trabalho do Grameen Bank é a melhor ilustração disso). É a minha linha de pesquisa. Ainda vamos conseguir resolver isso…

    Quanto ao imposto inflacionário, pensei em 1994 pq foi o último ano da hiper-inflação. Depois, é claro que a contribuição do II diminuiu.

    A PNAD tem viés, sem dúvida. Econometristas mais xiitas evitam usá-la. Quanto à renda do trabalho que o IBGE calcula, não contestei sua redução no PIB. Questionei a capacidade desse indicador de capturar a renda dos muito pobres.

    É impressionante como a renda do trabalho e o consumo não guardam quase nenhuma relação entre os 50% mais pobres (entre os 20%, nem se fala). Isso coloca em suspeita as duas medidas, infelizmente. Tenho motivos para considerar que o consumo é uma medida melhor, pq tem muito tipo de renda que o ibge não captura. Assim, acho que a participação da renda do trabalho no PIB é um indicador muito ruim de desigualdade.

    De qq forma, é um tema problemático. Medir desigualdade de renda no Brasil tem esse problema empírico sem solução óbvia. Falo muito do índice de Gini pq é um índice que sofre menos críticas.

    Quanto à literatura ortodoxa de crescimento, claro que pode estar errada. Porém, alcançou um bom nível de confiança por conta de bons resutados empíricos. Enfim, envolve voltar à discussão sobre poupança – acho melhor deixar esse como um ponto de discordância.

    Rodrigo, a literatura de organização industrial é muito rica em economia. Tb sou suspeito para falar disso, pq é minha outra área de interesse, junto com regulação. Se houver lançamento no Rio, vai ser anunciado?

    Abs.

  24. Pedro (e demais colegas)

    Segundo o professor Luiz Werneck Vianna, do IUPERJ, o Brasil sofre de uma grave patologia histórica. Amplos segmentos de suas elites só aceitam mudanças se as mesmas conservarem o status quo. O texto dele encontra-se postado neste blog. Werneck Vianna, sociólogo, é cosiderado um dos maiores intelectuais vivos no Brasil.

    Um dos problemas do debate entre as escolas do pensamento econômico é que as mesmas dificilmente conseguem abrir mão de suas premissas. Reconheço que isso é realmente difícil. Se o colega observar bem, a teoria neoclássica vem ampliando suas perspectivas desde Alfred Marshall. A área de organização industrial (OI) é um exemplo. Recomendo aos leitores do blog as Nobel lectures de George Stigler e Joseph Stiglitz. Basta digitar no Google “stigler nobel lecture” e depois “stiglitz nobel lecture”.

    Stigler foi um dos primeiros acadêmicos a mencionar o fato de que o regulador pode ser capturado pelos regulados. Observe como o relatório de mercado do Banco Central do Brasil, o Boletim Focus, é uma peça de profecia auto-realizável. O BC faz uma sondagem no “mercado” e levanta as expectativas dos agentes econômicos. Depois, busca persegui-las… Custe o que custar para a sociedade. Inclusive sem realizar um cuidadoso trade-off em relação ao nível de precarização das relações de trabalho, hoje em 49%, segundo dados da CEPAL (2007), e ao desempenho da economia. Já citei alguns fatos e dados ao longo da nossa interação neste post. Não creio ser necessário repeti-los.

    Keynes escreveu ensaios sobre persuasão e reforçou o fato de que as idéias são mais perigosas do que os interesses explícitos. Voltando ao tema da patologia brasileira, amplos setores das nossas elites se utilizam de qualquer idéia ou conceito que busque conservar o estado das coisas.

    Tempos atrás, o autoritarismo e a tese da incapacidade do povo em escolher seus representantes foram utilizados para sustentar posições de poder dessas mesmas elites. (Nossas Forças Armadas foram usadas. Hoje, integrantes das mesmas perceberam isso.) Atualmente, não preciso de muito esforço para afirmar que elas se apóiam ainda na ortodoxia de galinheiro do neoliberalismo.

    Não sou radical. Penso que possuímos empresários que se identificam com o sentimento de nação e ainda são muito competentes. Antonio Ermírio de Moraes, Jorge Gerdau e Ricardo Semler são ótimos exemplos. No entanto, existem pessoas que efetivamente não desejam um processo de desenvolvimento econômico democrático e eqüitativo.

    Se houver lançamento no Rio do livro ‘Leituras em Economia e Administração’ gostaria que você comparecesse para nos conhecermos pessoalmente. Irei informar neste blog.

    Um abraço,

    Rodrigo L. Medeiros

  25. Caro Pedro,
    Poderemos nos conhecer no lançamento do livro do Rodrigo. Será legal.
    Vou colocar minhas opiniões, não assustem com meu tom definitivo.
    Apesar do tom, são só opiniões.
    Todas as explicações de diferenças em estruturas econômicas baseadas em cultura que eu já li estavam furadas. Usar a cultura é a saída mais fácil para explicar o que não se consegue explicar ou o que não se quer explicar. Mas ainda assim, nem são explicações, são meras hipóteses não testadas. É geralmente uma fuga ad hoc.

    Não vou dizer que tenho a resposta para essa questão, pois é preciso fazer os testes para comprovar. Mas tenho convicção que não é uma questão cultural. No caso brasileiro acho que ocorre por 2 fenômenos principais :
    1) As taxas de juros extremamente alta torna sem sentido um esforço maior de pressionar a concorrência por redução de margem de lucro. O capital “ocioso” torna-se extremamente A tesouraria é extremamente lucrativa em operações de derivativos, mas principalmente em operações com títulos públicos. Não faz sentido para os bancos aumentarem muito a alavancagem pressionando por redução das próprias margens enquanto as taxas de juros permanecerem extremamente altas. Porque seria como aumentar muito o risco para aumentar pouco o lucro, se aumentar. É mais provavel que forçar uma redução do spread, sem expansão autônoma da demanda por crédito gerará redução geral de lucros. Porque 6 bancos dominam completamente o mercado de crédito para linhas comerciais (de curto e médio prazo). Crédito é um bem homogêneo, dado o prazo e as exigências de garantias (que são quase sempre os mesmos). 6 ofertantes de um bem homogêneo leva a uma curva de demanda quebrada. Ou seja, o mais racional, mesmo sem coluio é seguir o líder (o movimento de quem se move primeiro). Assim, se um dos bancos reduz muito o spread, todos reduzem e como a curva de demanda do mercado total em pontos de maximização dos lucros é quase sempre inelástica, o lucro dos bancos tende a se reduzir, se eles reduzem o spread. O principal fator que poderia quebrar essa tendência seria a entrada de correntes…
    2) Mas as barreiras à entrada na captação são imensas no mercado bancário brasileiro. 6 bancos dominam tudo e operam em todos os lugares. Em um país que tem muitos bancos, sempre há uma rede de correspondentes oferecendo serviços a custos competitivos. No Brasil não. Os grandes bancos não disponibilizam o acesso a suas redes a baixo custo. Assim, um pequeno entrante, terá dificuldade de competir porque não pode oferecer suficiente abrangência territorial em suas operações. Só um abnegado abriria conta em um banco pequeno hoje no Brasil. Não tem rede de caixas eletrônicos, não tem uma lista ampla de serviços financeiros, etc. é uma questão de comodidade. A reputação é uma questão importante também. Bancos grandes internacionais também terão dificuldade. É impossível abrir 200 agências em um ano. Portanto, o crescimento orgânico é extremamente lento e pouco lucrativo, pois o público só será atraído quando a rede estiver grande, mas isso demora. Comprar um banco já existente não muda nada, pois continuará sendo o mesmo número de empresas competindo e com a consciência da curva de demanda quebrada.
    3) É verdade! Os lucros aumentam à medida que a selic cai. A selic alta explica em parte porque os spreads são altos. Mas não selic alta não decorre do desejo de maiores lucros pelos bancos. De fato, reduzir a selic aumenta os lucros (no curto prazo, pelo efeito once for all de aumento do valor dos ativos e da demanda por crédito). A questão é outra. Mas não vou me estender sobre isso.
    4) Os “bons resultados empíricos” na teoria ortodoxa do crescimento não se comparam com os bons resultados empíricos das teorias keynesianas. Como os dados são facilmente torturáveis e como é fácil confundir correlação com causalidade (principalmente se há um grande desejo de fazer o modelo funcionar), o melhor teste de uma teoria econômica é sua aplicação prática. E nisso os keynesianos ganham de lavada. Nos explicamos o crescimento da China, do Brasil quando crescia, da Argentina atual, da Índia e da Rússia, sem qualquer hipótese ad hoc. Explicamos também porque as políticas ortodoxas de privatização, tentativas de aumento da poupança, redução do déficit público não deram certo na América Latina, sem hipóteses ad hoc. Vi nos últimos 15 anos, os economistas ortodoxos por diversas vezes colocarem como modelo países que acabaram tendo enorme insucesso no crescimento, enquanto criticavam as políticas adotadas por países bem-sucedidos como na Ásia. O melhor teste de qualquer teoria é a aplicação.

    Abraços,
    Gustavo

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