Blog do Desemprego Zero

A GUERRA

Posted by NOSSOS AUTORES em 7 abril, 2008

Por Maria de Fátima de Oliveira*

Contam que certa vez, depois da Segunda Guerra, uma senhora italiana caminhava com o filho pelas ruas de sua cidade. Passando em frente a um montão de ruínas, o garoto perguntou: “Mãe, quem foi que causou tanta destruição em nossa terra?” A mulher replicou: “Foi a guerra, meu filho.” “O que é a guerra?” inquiriu o menino. E a resposta: “Meu amor, toda vez que você briga com sua irmãzinha, que é menor e mais frágil, e toma os brinquedos que pertencem a ela, embora tenha os seus, isto é a guerra!”

O garoto ficou pensativo, contemplando as ruínas com um olhar espantado. Depois exclamou, com voz decidida: “Mamãe, é verdade que, toda vez que eu bato em Laurinha, ela chora e fica triste. Será que estou sendo tão mau assim? Eu não quero destruir minha irmã. E prometo que, de hoje em diante, nunca mais vou bater nela para tomar seus brinquedos”.

Essa historieta dá o que pensar.

Quando a gente se debruça sobre a história da humanidade, percebe que a guerra é uma constante ao longo de seu percurso. Ao menos desde a invenção da escrita, quando o homem começou a registrar seus feitos em símbolos gráficos, as lutas entre grupos e tribos acompanham a epopéia humana. Em geral, tais embates são motivados pela cobiça e a prepotência. E ficamos a nos perguntar por que o ser humano, capaz de tantas conquistas artísticas, culturais e tecnológicas, ainda não encontrou um meio de eliminar a guerra da face do planeta. Pelo contrário: esmera-se em torná-la mais sofisticada e mortífera, destruindo vidas e criando barreiras entre nações e culturas.

Na verdade, o ser humano sofre de um desequilíbrio estrutural, do qual raramente tem consciência. Esse desequilíbrio, que as religiões denominam “pecado” e outras teorias consideram um resquício da ancestralidade animal da espécie, está na raiz de todas as nossas contradições. Temos uma tendência de absolutizar o relativo, transformando-o numa finalidade em si mesmo e lutando com todas as forças para defendê-lo.

Por exemplo: a natureza equipou os homens e as mulheres com tendências inatas, próprias ao crescimento e manutenção da vida. Seres corpóreos que somos, todos necessitamos de um mínimo de bens materiais, que nos assegurem alimentação, abrigo e bem-estar suficientes ao nosso desenvolvimento pessoal e grupal. Mas a grande maioria das pessoas sente a necessidade de acumular o máximo de bens, não só para evitar o perigo de que eles venham a faltar, mas também para impor-se aos demais como alguém rico, poderoso e importante. Alguns transformam isso no objetivo último de suas vidas, não hesitando em passar por cima dos outros e de seus direitos e até usando da força bruta com esse fim. Muitas guerras – talvez a maioria delas – têm sido travadas com tal objetivo, obrigando povos mais fracos a viver como escravos.

Como seres inteligentes, necessitamos de autonomia, isto é, o direito a reger nossas vidas de acordo com o que somos, sentimos e cremos. Há, porém, os que se arvoram em donos da verdade, impondo seus valores aos demais, como os únicos válidos, e arrogando-se o direito de controlar a vida do próximo, como se fossem deuses. Essa arrogância torna-os tiranos, levando-os a impor aos outros, pela coerção física e moral, os modos de ser, pensar e sentir que lhes parecem apropriados. Tais ideologias podem assumir várias cores e matizes: a supremacia de uma raça, a superioridade de uma cultura, de um “modus vivendi” ou de um sistema socioeconômico. Seduzidos por elas, povos inteiros se deixam conduzir, como cordeiros, a abismos de violência e destruição, promovendo guerras cruéis e provocando a matança indiscriminada de inocentes.

Outra tendência inata está associada ao prazer e ao bem-estar. Deus, ou a vida, associou prazer à alimentação, ao repouso físico e mental e ao comércio sexual entre os seres, com a finalidade de manutenção e continuação da vida. Há pessoas, porém, que transformam esse prazer no objetivo supremo de sua existência, não hesitando em reduzir os outros a meros objetos de seus desejos. Quando isso acontece, o prazer verdadeiro, que é o de conviver como iguais, no respeito mútuo e na aceitação das diferenças, torna-se escravidão e violência. E aquele que é violentado, quando não pode reagir, vai acumulando ódios e ressentimentos que possivelmente explodirão mais tarde em revolta sangrenta, quando muitos explorados conseguirem unir-se para lutar contra a exploração.

Em maior ou menor grau, a absolutização dessas tendências está na origem de todas as guerras. O garotinho que bate na irmã menor para apossar-se dos brinquedos que pertencem a ela está, de alguma maneira, presente em todos nós. Cumpre-nos ficar atentos, valorizar o que é nosso e nos pertence por direito, sem a necessidade de cobiçar o que quer que seja. O outro pode até nos servir de estímulo para novas conquistas, porém jamais deve se transformado em objeto para a realização de nossos desejos. A ele também cabe um lugar ao sol. Cabe-lhe o direito de ser ele mesmo, único e singular. Só quando aprendermos a respeitar as diferenças, aceitando a singularidade de cada pessoa e acolhendo-a como é, poderemos sentar-nos à mesa do banquete da vida, como companheiros e não mais como contendores.

Talvez seja utópico chegar a isso em escala global. Mas poderemos, em nosso ambiente, com nossos amigos e colegas mais próximos, criar esses espaços de convivência, no qual as contradições e conflitos tornar-se-ão matéria-prima do diálogo, promovendo a colaboração e o crescimento.

omputador e sobre um e-mail que recebi.

* Maria de Fátima de Oliveira: natural do Ceará, veio para o Rio aos 26 anos, filiada a uma instituição religiosa. Na PUC-Rio, fez Licenciatura em Filosofia e Mestrado em Educação. Começou a trabalhar na área de jornalismo em 1976, na Pesquisa do Jornal do Brasil. Depois, na Secretaria de Comunicação Social do ex-BNH e, por último, na TVE. É autora de poemas, letras de cânticos religiosos e do livro inédito Labirintos de Areia.

Meus artigos

Contato: oliveirafatima13@gmail.com

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