Blog do Desemprego Zero

Os horizontes de Celso Furtado

Posted by Beatriz Diniz em 7 abril, 2008

Publicado em: Valor Econômico (conteúdo restrito a assinantes)

Por Genilson Cezar 

Celso Furtado em 2000: ponto central do documentário, que estréia nesta sexta, é uma entrevista de quatro horas, a última filmada, que o economista concedeu em 2004, cinco meses antes de morrer. O filme mescla cenas documentais de importantes fases da vida política econômica brasileira, desde Getúlio Vargas, passando pelos governos JK, Jânio e Jango, com depoimentos dos mais expressivos economistas do país, como Francisco de Oliveira, José Israel Vargas, João Manuel Cardoso de Melo, Maria da Conceição Tavares, Osvaldo Sunkel e Ricardo Bielschowsky, que também participou como consultor do filme.

O economista Celso Furtado, paraibano de Pombal, nascido em 26 de julho de 1920, viveu intensamente. Esteve nas fileiras da Força Expedicionária Brasileira (FEB), na Europa, durante a Segunda Guerra Mundial. Ajudou a reconstruir uma estrada de ferro numa região da antiga Iugoslávia (hoje Bósnia), no pós-guerra. Integrou o primeiro núcleo de economistas da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), criada em 1949, em Santiago, no Chile. Escreveu em 1954 uma obra clássica, “Formação Econômica do Brasil”, na qual combina teoria macroeconômica e história. Criou e dirigiu a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), no governo de Juscelino Kubitschek, em 1959. Foi ministro do Planejamento no governo Jango Goulart, ministro da Cultura no governo Sarney e deu aula na Sorbonne, em Paris, França, durante 20 anos. Celso Furtado morreu no seu apartamento, em Copacabana, no Rio, em 20 de novembro de 2004.

Mas seu pensamento sobre a realidade brasileira continua atual, conforme depoimento do economista Antônio Barros de Castro no documentário “O Longo Amanhecer”, dirigido por José Mariani, que estréia no Rio e em São Paulo nesta sexta.

“Celso Furtado é atual, não pelo que ele escreveu sobre a atualidade. É o conjunto do pensamento dele que coloca vigorosamente a necessidade de um projeto social para o Brasil. Ainda que se possa discutir que cara vai ter esse projeto, nós temos de ter um projeto de desenvolvimento nacional. Nosso crescimento está bloqueado por uma descomunal dívida externa, que tem de ser renegociada, e por uma dívida interna insuportável, que também mobiliza o Estado e o transforma num guichê pagador de juros. Desde quando Celso Furtado formulou seu pensamento econômico para cá, as coisas pioraram muito no país. Hoje, dois terços dos trabalhadores brasileiros ganham um salário ridículo, não há geração de empregos, o sistema de saúde funciona mal, a educação pior ainda”, avalia Castro.

A cinebiografia “O Longo Amanhecer”, com duração de 73 minutos, se utiliza da trajetória do próprio economista para traçar um rico panorama da história e da política brasileira e latino-americana. O filme mescla cenas documentais de importantes fases da vida política econômica brasileira, desde Getúlio Vargas, passando pelos governos JK, Jânio e Jango, com depoimentos dos mais expressivos economistas do país, como Francisco de Oliveira, José Israel Vargas, João Manuel Cardoso de Melo, Maria da Conceição Tavares, Osvaldo Sunkel e Ricardo Bielschowsky, que também participou como consultor do filme.

O ponto central do documentário, no entanto, é uma entrevista de quatro horas, a última filmada, que o economista paraibano concedeu cinco meses antes de morrer. “E aí estamos. E agora, para onde é que vamos?”, pergunta Furtado, na época já com 84 anos. Sereno, mas com seu jeito crítico de sempre, ele afirma: “O fato é que os problemas de fundo da economia brasileira não foram resolvidos.” E acrescenta, com alguma dose de frustração: “Tanta riqueza, tanta terra, tantos frutos. E esse monte de gente abandonada, pedindo esmola nas ruas. O que se passa? Isso não é economia!”

O depoimento de renomados economistas também compõe o perfil biográfico de um dos mais instigantes pensadores da era moderna brasileira. “Celso Furtado está no panteão dos grandes demiurgos do Brasil moderno, como foram Caio Prado Júnior, Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Hollanda”, afirma com entusiasmo Francisco [Chico] de Oliveira, que também ocupou a superintendência da Sudene. “Formulador das políticas de industrialização brasileira e desenvolvimento regional, ele combinou, com rara originalidade e ousadia, a reflexão teórica com a ação. Sua discussão sobre a economia brasileira continua a ordenar, por adesão ou oposição, os rumos das políticas”, sustenta Oliveira.

Para João Manuel Cardoso de Melo, o maior talento de Furtado foi abrir possibilidades variadas. “Ele não era um homem de ficção, não tinha essa capacidade. Mas sabia captar a realidade, o essencial da realidade, através de análises”, assinala.

Uma das fases mais destacadas da cinebiografia é a da criação da Sudene, no fim da década de 1950. O próprio Furtado lembra no filme as conversas que manteve com o então presidente Juscelino Kubitschek, durante a qual sua grande preocupação foi mostrar a disposição de se abandonar à velha estratégia de combater as secas. “Eu disse a ele que a política do governo anterior era totalmente anacrônica, baseada na velha concepção hidráulica e era necessária uma visão totalmente diferente: não lutar contra a seca, mas considerá-la como parte do sistema ecológico nordestino. Tratava-se de criar uma nova política econômica para região”, conta.

Como diz o parecer do júri do Prêmio Margarida de Prata-2006, que o documentário recebeu da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), na categoria de melhor média, “O Longo Amanhecer” é um filme questionador dos modelos brasileiros de construção da nação, além de ser uma bela homenagem ao brilhante pensamento de Celso Furtado”.

O depoimento apaixonado da economista Maria da Conceição Tavares resume muito bem esse tom de quase veneração: “Celso foi um homem capaz de levantar os olhos para o horizonte, embora muitas vezes veja esse horizonte se afastar. Mas ele mostrou que o horizonte não é uma miragem, há algo ali. Ele sempre soube apontar caminhos. Sempre sentiu quais as condições estruturais de mudança. Nunca aceitou o status quo. Celso é uma espécie de matriz de referência”, diz ela.

 

 

 

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