Blog do Desemprego Zero

Nogueira vê espaço para a redução dos juros

Posted by Beatriz Diniz em 8 abril, 2008

Publicado no: DCI  

Escrito por: Luciano Maximo

Ao contrário do que já se tornou consenso no mercado, João Nogueira, presidente do conselho do Instituto Brasileiro de Relações com Investidores (Ibri), não acredita na elevação da taxa básica de juros nas próximas reuniões do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom). O executivo aposta que, neste ano, a Selic será, no máximo, mantida.

Segundo Nogueira, a inflação, controlada, com ajuda do real valorizado, e o bom desempenho internacional do País, puxado pelos altos preços das principais matérias-primas de exportação, garantem margem para redução nos juros. “Eu acho que há espaço para uma redução de juros, sim, não no ritmo que nós vimos num passado muito recente, mas nós podemos baixar os juros em função da inflação controlada e do cenário internacional favorável”, afirmou Nogueira.

Ele também destaca que a manutenção da Selic elevada foi uma medida inteligente tomada pelo governo durante a crise norte-americana. “Você ajuda os investidores que estão tendo prejuízos em função da crise. Eles podem auferir rentabilidade mantendo seus ativos no Brasil, compensando parte dos prejuízos.” O presidente do Ibri ainda prevê que a crise do subprime renderá notícias negativas com a apresentação dos balanços dos bancos internacionais.

Mais bem posicionado entre os países emergentes, o mercado de capitais brasileiro continuará atraindo investidores e se manterá em expansão, embora em ritmo menor que o de 2007. “A Bovespa já conseguiu recuperar as perdas do começo do ano e muitos investidores vêem no Brasil oportunidade efetiva de ganhos maiores”, salienta Nogueira, que acredita que a fusão da Bovespa e da BM&F dará um novo impulso ao mercado acionário do País. “É um processo lógico, bom para as duas Bolsas, bom para as empresas brasileiras e bom para o Brasil. Cria-se uma Bolsa com uma escala de operação muito maior.”

Leia a seguir trechos da entrevista que será levada ao ar hoje pelo programa Panorama do Brasil, da TVB, com apresentação de Roberto Müller. Participaram da conversa com o executivo do Ibri os jornalistas Theo Carnier, secretário de redação do DCI, e Milton Paes, da rádio Nova Brasil FM.

Roberto Müller: A temida crise do crédito hipotecário nos Estados Unidos aparentemente não atingiu o Brasil. O senhor concorda com isso?

João Nogueira: A crise do mercado imobiliário norte-americano tem trazido surpresas com o passar do tempo. No início ninguém previa a extensão dos problemas, que ainda não terminaram. Gradativamente, com a divulgação de balanços, surgirão notícias de novos problemas envolvendo bancos internacionais. É uma crise séria para o sistema financeiro mundial, os bancos centrais têm reagido com rapidez, alguns até acham que o Fed [o banco central norte-americano] atuou de forma abrupta e descontrolada, mas o momento que o Brasil está vivendo é muito diferente do período das crises do passado. Felizmente, nós temos hoje uma situação de balanço de pagamentos muito sólida, nossas reservas internacionais atingiram níveis elevados históricos, o que nos permitiu resistir de forma mais eficiente do que no passado. Se tivéssemos um balanço de pagamentos fragilizado, como era no passado, teríamos sofrido impactos muito maiores. E fora tudo isso, o Brasil também vive um momento muito importante, mesmo com a restrição de liquidez que houve em função da crise, com a retirada de investimentos, com um fluxo comercial fantástico. Os preços das commodities estão altíssimos, acabamos de ver o minério de ferro ser reajustado em até 70%, e isso vale para todas as matérias-primas que o Brasil exporta, o que faz com que o fluxo comercial do País compense uma eventual restrição de liquidez em função da crise. Estamos observando os investidores voltando ao mercado, a Bolsa já recuperou as perdas dos primeiros meses do ano. Eu acho que o Brasil vive um momento importante, com uma estabilidade econômica que nunca teve antes, por um período razoavelmente longo, há oportunidades de negócios, e o País está na véspera de ser de investment grade, o que vai aumentar ainda mais o fluxo deinvestimentos. Por isso temos resistido de forma tranqüila a esses abalos no mercado financeiro internacional.

Roberto Müller: A taxa de juros alta ajudou?

João Nogueira: Em meio à crise, o banco central norte-americano reduziu bastante a sua taxa de juros, enquanto a Selic aqui foi mantida no mesmo patamar. Então abriu-se um spread muito grande em termos de taxa de juro real maior ainda. Isso serve de atrativo de novo, para investidores que procuram maiores ganhos buscarem opções no País.

Roberto Müller: Foi inteligente manter a Selic elevada?

João Nogueira: No momento da crise foi, porque você ajuda os investidores que estão tendo prejuízos em suas carteiras na área hipotecária em função da crise. Eles podem auferir rentabilidade importante mantendo seus ativos no Brasil, em parte compensando esses prejuízos. Momentaneamente foi uma medida razoável, de cautela?

Theo Carnier: Esse remédio não teria o efeito de matar o doente? A taxa de juros tem o poder de trazer o capital de fora, mas para o setor produtivo é muito preocupante.

João Nogueira: Este é sempre o drama. O fato de o governo atual, tanto no primeiro como no segundo mandatos, ter mantido basicamente a política econômica do governo anterior foi muito importante dentro do processo de resistência à crise. Alguns argumentam -e eu sou um deles- que o Banco Central exagerou na dose e podia ter reduzido de forma mais acelerada os juros básicos brasileiros, até porque o bom momento no cenário internacional vem vigorando desde a posse do presidente Lula. Nós não precisaríamos ter tido uma taxa de juro real tão alta nesse período, o que evidentemente prejudica o próprio governo do lado fiscal, em função da gestão da dívida pública. O que mais se discute, no entanto, é o ritmo de desaceleração desses juros, que poderia ter sido mais forte.

Milton Paes: Em função da crise, qual é a perspectiva para a Selic em 2008?

João Nogueira: A inflação está sob controle e em queda, até em função da apreciação do real. Então, é difícil imaginar que o Banco Central possa subir a taxa de juros neste cenário; manter, possivelmente, mas o fluxo cambial está forte; por isso, eu acho que há espaço para uma redução de juros, sim, não no ritmo que nós vimos num passado muito recente, mas eu acho que nós podemos baixar os juros em função da inflação controlada e do cenário internacional favorável. Essa mudança talvez não venha imediatamente, mas há espaço. Acho que deve haver redução, senão o efeito da Selic elevada é muito ruim para o lado fiscal, embora o governo esteja com uma arrecadação muito expressiva, então tem de haver alguma ajuda da política monetária na redução nos encargos da dívida.

Milton Paes: A Bolsa brasileira surpreendeu ao apresentar recuperação rápida, se comparada a outros mercados internacionais também afetados pela crise do crédito imobiliário norte-americana?

João Nogueira: Sem dúvida, graças à situação do balanço de pagamentos e à valorização das commodities, as oportunidades de crescimento na margem no Brasil são muito maiores do que as de países centrais, relativamente falando. Então muitos investidores vêem no Brasil oportunidade efetiva de ganhos maiores. Está todo mundo à procura de uma forma de rentabilizar sua carteira de uma forma expressiva com o menor risco possível, e a Bolsa brasileira reflete isso, na percepção do valor de seus ativos. O Brasil, hoje, entre os países emergentes e da América Latina, é uma ilha de prosperidade e de estabilidade.

Roberto Müller: O senhor acredita que vai continuar -e em que ritmo- o movimento de abertura de capital, as IPOs, na Bolsa neste ano?

João Nogueira: Em função da recuperação agora da Bolsa, algumas operações que haviam sido suspensas vão certamente ser retomadas. O mercado de IPO [oferta inicial de ações, na sigla em inglês] não será tão forte quanto foi nos últimos meses até porque muitas empresas já abriram capital, e isso acomoda, entra numa curva mais normalizada de abertura de capital. Os investidores, por conta da crise, serão mais seletivos, o que é natural, pois se estava comprando qualquer coisa. Já vemos isso na precificação das IPOs recentes, não há mais aquele exagero de uma demanda muito maior que a oferta, com os preços saindo acima das faixas estabelecidas pelos ofertantes. Em geral, o mercado de capitais veio para ficar no Brasil, e felizmente se consolidou; temos Bolsas importantes, com tecnologia e marco regulatório de primeiro mundo; portanto, esse setor continuará crescendo e sendo um instrumento fundamental para a circulação de riqueza e de financiamento desse crescimento econômico que vimos em 2007.

Roberto Müller: Como o senhor vê a evolução da participação na Bolsa do acionista individual, dos clubes de investimento?

João Nogueira: Capitaneadas pela Bovespa, as diversas instituições financeiras do mercado de capitais brasileiro fizeram um movimento muito inteligente: investir, desde o começo, para atrair a pessoa física, que, em função do nosso histórico inflacionário, de taxas de juros altíssimas e de Bolsas de baixa liquidez e sujeitas à manipulação, estava longe do mercado de ações. Assim, esse esforço de atrair a pessoa física à Bolsa foi muito salutar, porque, evidentemente, quanto mais diversificado for o universo de investidores maior será a liquidez dos ativos e mais será minimizado o risco de volatilidade em períodos de crise.

Roberto Müller: Como o senhor vê a participação excessiva de investidores estrangeiros registrada nas IPOs do ano passado?

João Nogueira: Sem sombra de dúvidas não há mercado de capitais que funcione sem a participação do capital estrangeiro, ainda mais num mercado emergente de um país em desenvolvimento, como é o caso do Brasil. A liquidez está no primeiro mundo, principalmente no mercado norte-americano, e imaginar que vai fazer um processo de mercado de capitais sem participação do capital estrangeiro é ilusão. Vimos isso em todas as operações de abertura de capital no ano passado, e também nas ofertas secundárias, a participação de estrangeiros variou de 60% a 80% da oferta, com alocação menor dos investidores pessoa física. Isso é normal, não há nada de irregular nesse processo, as empresas precisam atender a esses investidores institucionais, responsáveis por trazer o volume que financia a maior parte das operações. Isso pode parecer um favorecimento aos grandes investidores em detrimento dos pequenos acionistas, mas esse processo é assim, o bolo é finito e você tem de tentar atender a toda essa diversificação.

Roberto Müller: Inclusive nas operações de grande risco?

João Nogueira: As operações de maior risco têm restrições à participação de pequenos investidores para evitar problemas, por norma da CVM [Comissão de Valores Mobiliários], assim como também faz a SEC [Securities and Exchange Commission] nos Estados Unidos. Mas o processo é inexorável: as pessoas físicas já respondem por 30% do volume de participação na Bolsa, número bastante significativo. O importante é tratar da educação do investidor; os clubes de investimento atuam nessa direção, para que ele saiba quais são os seus riscos: há um jogo capitalista, que você pode ganhar ou perder, é importante ter uma postura de longo prazo e não entrar no oba-oba, que é sempre arriscado para quem tem menos informação.

Roberto Müller: Do ponto de vista de relações com investidores, as empresas brasileiras estão mais preparadas para atender à expectativa dos acionistas? Os profissionais de RI dão conta de atender à demanda com competência?

João Nogueira: Eu acho que este processo não está completo. Houve um avanço grande, mas, na verdade, estamos vivendo uma situação meio atípica no mercado em que a demanda por profissionais de RI é maior que a oferta. Esse processo de desenvolvimento recente do mercado de capitais foi tão forte no Brasil que não houve tempo de se formar o número de profissionais suficiente para atender a essa nova demanda. É bom por um lado para os profissionais que já militam na área, as médias salariais aumentaram muito, mas há uma carência de recursos, por outro lado. Nós no Ibri atuamos há 10 anos com a missão de valorizar e treinar o profissional, temos um curso de MBA junto com a Fipecafi [Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras], mas é um programa de longa duração. Para tentar ajudar as empresas nesse processo de criar novos profissionais, trabalhamos também em cursos de curta duração, para ajudar quem já trabalha na empresa a se tornar rapidamente um profissional de RI, que é uma mistura de várias qualificações. Ele tem de entender de contabilidade, de matemática financeira, de comunicação, precisa ser um bom comunicador, tem de ter conhecimento jurídico para acompanhar toda a legislação do setor e tem de falar inglês. Muitas vezes, é mais fácil encontrar esse profissional dentro da empresa e prepará-lo para saber utilizar as ferramentas de RI. É um profissional estratégico, o elemento que se relaciona com o mercado, fundamental para trazer a visão do mercado à empresa e levar a da empresa ao mercado.

Roberto Müller: São profissionais cada vez mais bem colocados, em altas hierarquias nas empresas.

João Nogueira: Por questões legais, a CVM exige que um dos diretores estatutários de uma empresa seja responsável primário pelo setor, o famoso DRI. A área de RI, propriamente dita, cresceu de importância hierárquica dentro das empresas, respondendo ao próprio presidente. Mas esse processo não está consolidado. Com o excesso de liquidez e as aberturas de capital, houve muitos processos oportunistas na área de RI, portanto muitas empresas precisam estruturar adequadamente essa área.

Roberto Müller: Para finalizar, o senhor acredita que a fusão da Bovespa e da BM&F irá evoluir? Se sim, será bom para o Brasil?

João Nogueira: Eu acho que isso ocorrerá, num processo mais curto que o anunciado. Creio que seja um processo lógico. É bom para a Bovespa e para a BM&F, é bom para as empresas brasileiras, é bom para o Brasil, cria-se uma Bolsa com uma escala de operação muito maior, e faz sentido para os acionistas das duas Bolsas. Ambas deram um exemplo muito importante, em termos de transparência e de governança: a maneira como a negociação foi conduzida, demonstrando que elas estão em sintonia com as melhores práticas.

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