Blog do Desemprego Zero

A classe média é vítima da violência

Posted by Beatriz Diniz em 10 abril, 2008

Veja que interessante o artigo escrito por Vinni Correa. Ele faz uma crítica ao sensacionalismo feito sobre alguns casos de violência que atingem a classe média e ressalta outros casos que passam despercebidos por afetarem a classe baixa.

*Postado por Kátia Alves

Publicado originalmente no: Vinni Web

Por Vinni Correa

Todos têm acompanhado, recentemente, o caso da menina Isabella Nardoni, possivelmente assassinada pelo pai e pela madrasta ao ser espancada e depois jogada pela janela do 6º andar do apartamento onde morava. O mistério do caso tem tido alta repercussão na mídia. Não era pra menos, tal fato impressiona e choca a sociedade. Afinal, como pode algum ser humano cometer tal barbaridade contra uma menininha? Mas o que venho discutir aqui não é o crime, mas sim, a bestial classe média e suas campanhas contra a violência.

O caso da jovem de 14 anos, Gabriela Prado Maia Ribeiro, que cresceu assustada com a violência, morta por uma bala perdida, em 2003, é um exemplo de que a classe média é uma das mais responsáveis pela violência nas grandes cidades. Desde que as favelas foram dominadas pelas facções do narcotráfico que há tiroteio por disputa de ponto, e, conseqüentemente, dezenas de pessoas eram vítimas dessa guerra, entre elas, crianças, mas sempre moradoras das favelas. Tal violência veio ganhando mais destaque conforme vinha aumentando o confronto e o número de membros da classe média vítimas dos tiroteios. E quando Gabriela tornou-se vítima da guerra do tráfico, um grande movimento “pela paz” foi organizado. Milhares de pessoas se juntaram no movimento “Gabriela Sou da Paz” pedindo justiça, lutando contra a impunidade. Após ter a idéia de escrever algo sobre o assunto, devido ao fato da popularidade do caso da menina Isabella Nardoni, resolvi navegar no orkut e ver quantos membros possuem as comunidades que se solidarizam com crianças de classe média vítimas da violência: Comunidade Gabriela Sou da Paz (47.708 membros); Comunidade Em Memória, João Hélio (102.472 membros); Comunidade Justiça Para Isabela Nardoni (63.696 membros).

Gostaria, antes de continuar a minha crítica, de informar que tenho solidariedade com esses casos, pois sou contra a violência. Mas, não posso deixar aqui o meu comentário contra a supervalorização e do sensacionalismo para com esses casos, uma vez que nenhuma criança pobre, moradora de favela, tornou-se “slogan” de campanha contra a violência, cujo número de vítimas é aterrorizante. E estando certo de minha crítica à classe média, no mesmo orkut, resolvi buscar comunidades sobre trabalho infantil. A maior comunidade (Sou Contra o Trabalho Infantil) possui apenas 3.379 membros.

Então não é uma implicância, é a demonstração clara de que existe sim, por mais que possamos ignorar, uma luta de classes. Para validar o que eu digo basta perguntar, por exemplo, quem conheceu o caso do menino Henrique Aparecido Ribeiro, em 2006. Nem 1% da população fará idéia de quem seja, ou foi. Este garoto de 11 anos foi assassinado brutalmente no Pará. Ele foi afogado em um rio após ter sido embriagado, além de ter tido a jugular cortada e uma das orelhas retiradas. Tal assassinato tratou-se de uma “encomenda”, segundo a polícia, devido ao fato do pai do menino ter cobrado o salário pelos seus serviços prestados na Fazenda Estrela do Xingu, e que teve sua família ameaçada de morte caso o trabalhador recorresse no Ministério do Trabalho1. Quantas crianças não são vítimas de trabalho escravo e abuso sexual? E destas, quantas não são da classe média?

Mas com certeza você se perguntaria porquê a mídia faria tanto sensacionalismo apenas para a classe média. Na verdade não é apenas para a classe média, mas, é esta classe a ser manipulada diretamente pelas elites deste país. É a classe média o conjunto de membros que se situa entre as elites e as classes mais baixas, o que favorece a seguinte situação: manipulando a classe intermediária, aquela com alto poder de compra e de instrução, que será aquela também que influenciará as classes mais baixas, o controle da sociedade fica mais garantido por que o sistema atende às necessidades dessa classe mediana, e isso inclui a luta pela justiça, pelo menos para esse grupo. Tanto que não se vê movimentação da mídia, dos órgãos públicos, das ONGs etc. para pôr fim à violência enquanto essa estiver agindo apenas nas regiões mais pobres. Quando passa a afetar essa classe, aí o perigo passa a existir. Basta pensarmos: quem tem mais condições (poder ? seja financeiro (principalmente) e de instrução) para cobrar do governo alguma autoridade contra a violência? Os contribuintes da Zona Sul do Rio ou os assalariados da Baixada Fluminense? Assim foi que o caso de Henrique Aparecido Ribeiro não repercutiu na mídia; o caso de Marcos Antônio da Silva (13 anos) que foi torturado e assassinado por policiais após conflito no Assentamento Santana, em 20062; o caso do menino Rennan Ribeiro, de 3 anos, assassinados por policiais no Complexo da Maré, comunidade Nova Holanda, entre diversos casos que ocorrem todos os dias no Brasil e no mundo, mas que a mídia apenas se interessa por aqueles que afetam diretamente o seu público principal: a classe média.

Volto a dizer que eu solidarizo com o pequeno João Helio que morreu barbaramente, com o caso da menina Isabella Nardoni, mas, minha solidariedade vai além dos casos que fazem sucesso, ela está presente contra qualquer violência e impunidade neste país e em qualquer lugar deste planeta, principalmente contra crianças. Que nos mobilizemos não por uma ou outra criança vítima de assassinato, mas que nos organizemos contra toda violência, sobretudo, contra o descaso dos órgãos públicos (deixar pessoas sofrendo nas filas dos hospitais é violência ? tortura, não permitir que uma mãe matricule seu filho em uma creche é violência ? tortura, não garantir o mínimo de sobrevivência a um cidadão é violência ? tortura, etc.). Que a sociedade se mobilize contra os latifundiários que praticam o trabalho escravo. Que a sociedade se mobilize contra as indústrias que violentam nosso meio ambiente por ganância. Que a sociedade se mobilize contra a violência do empregador para com o seu empregado. Que a sociedade se mobilize contra os rodeios e outras festas que torturam animais. Enfim, que a sociedade resolva sair de dentro da “Baleia de Jonas”, na qual nos falou Sá, Rodrix e Guarabira, e enfrentar a realidade.

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