Blog do Desemprego Zero

O jornalismo aloprado

Posted by Beatriz Diniz em 10 abril, 2008

Lula Miranda critica, em ácida crônica, os “alopramentos” do jornalismo brasileiro que enfatizam escândalos de ocasião, como o badalado “dossiê”, e sem relevância nacional em detrimento de debates sérios e sólidos…

*Postado por Elizabeth Cardoso

Publicado originalmente na Agência Carta Maior

A divulgação açodada e estrepitosa de suposto “dossiê” sobre gastos sigilosos do governo Fernando Henrique Cardoso expõe a grande imprensa, mais uma vez, ao descrédito e ao ridículo.

Por Lula Miranda*

“Aloprados” e sabujos nunca faltaram no jornalismo brasileiro, cumprindo a função de assumir a responsabilidade por iniciativas infames com as quais os seus patrões, ou mesmo seus superiores imediatos, não desejam sujar suas sujas mãos. O exemplo mais recente desse tipo de jornalismo, uma vez que são variados/diversos os exemplos e estes se acentuaram, curiosamente, a partir do ano de 2003, início da gestão Lula, é a repercussão do episódio do suposto “dossiê” sobre os gastos miúdos do governo FHC. A tapioca do ministro já não rendia um beiju ou cuscuz, quero dizer, uma notícia.

Decerto que o alopramento da nossa imprensa já fez coisas piores que dar repercussão, com o devido estardalhaço e forçada gravidade, a um papelucho de 13 páginas contendo registros de gastos miúdos de um ex-presidente da República e batizado de “dossiê”. Nesse alentado “dossiê” constam coisas como o custo de codornas desossadas que abastecem a cozinha do planalto, de lixas de unha, passagens aéreas internacionais, de garrafas de champanhe etc. Teve até gente que se apressou (e se alegrou) em divulgar, numa outra ocasião, a aquisição de um pênis de borracha, como se esse artefato pudesse ter sido utilizado para fins outros que não aulas sobre reprodução humana ou ensinamentos correlatos. É enfim de uma baixaria atroz, indigna do grande país que pretende ser o Brasil e de suas respeitáveis instituições.

Assim como o presidente Lula e a primeira-dama Marisa Letícia merecem todo o respeito dos cidadãos desse país (o que deveria incluir aí também os jornalistas), Fernando Henrique, apesar de seu governo sabidamente deletério ao país, e Ruth Cardoso merecem igual respeito, sigilo e privacidade em seus pretéritos (ou atuais) gastos com miudezas no exercício do poder. A quem interessa, a essa altura do campeonato, inverter e apequenar a pauta do país? Ao governo Lula? A grande imprensa, ao que parece, se apraz e se regozija com essa infame e indesejável inversão – não só da pauta como de valores.

Para quê uma CPI para investigar gastos com miudezas? Para quê expor a intimidade e os pequenos pecados, nada originais, cometidos pelos mandatários e demais ocupante de palácios – seja do Alvorada, seja do Bandeirantes, seja do…? Para quê perder tanto tempo e gastar tanto espaço no noticiário com esses “escândalos” de ocasião? Para quê essa rotineira “escandalização do nada”? Será que o que se deseja de fato é a moralização do gasto público, seja ele ínfimo, pequeno ou grande? A resposta é soprada pelo vento. Por um vento fraco, como um bafejar pestilento, mas que se pretende avassaladora ventania.

Enquanto desviamos nossa atenção para esses fatos tão “relevantes” da vida nacional, a corrupção campeia nas compras e contratos na esfera dos governos e segue sangrando escassos recursos públicos; o caixa 2 prossegue a alimentar as “caixinhas” dos partidos (de todos eles); os governos continuam a aumentar seus gastos com publicidade nos grandes veículos e agências de publicidade – mesmo depois das “edificantes” (e, pelo visto, negligenciadas) lições que nos legou Marcos Valério e seus diligentes serviços prestados na arrecadação de recursos para as campanhas do PSDB, do PT e de seus aliados de ocasião.

Enquanto nos escandalizamos com o nada, a reforma tributária rasteja preguiçosa nos (des)caminhos do legislativo, já não se fala sobre a tão necessária reforma política, diversos outros projetos de lei de interesse da nação caminham a passos de tartaruga no Congresso. Enquanto nos escandalizamos com o nada, a mídia nos prepara, nos domestica, sub-repticiamente, para um aumento [desnecessário] dos juros na próxima reunião do Copom. Ou será que nos adestra para a volta da escória ao poder em 2010?

Não tenho nenhuma ligação ou vínculo com a ministra Dilma Roussef, sequer a conheço, mas reconheço nela, além da sua trajetória pontuada por brava luta contra a ditadura, um indubitável talento e competência a serviço do país – aliás, diga-se, um dos parcos e raros exemplos de talento e competência que se coloca a serviço da coisa pública nesse país. Agora, pretender derrubar a ministra “no grito” a partir desse episódio, e se falar, ou dar manchetes, sobre um suposto e descabido “Dilmagate”, só pode ser coisa mesmo de amalucados da imprensa. Talvez para fazer jus aos aloprados que bramem discursos raivosos e vazios na tribuna do Congresso – ou para servir como um arcaico alto-falante ou caixa de ressonância desses garotos propaganda do atraso.

Até parece ser muito barulho por nada. Até parece.

N.A: Qualquer semelhança entre os primeiros dois parágrafo desse artigo e o editorial de sábado, 29/03, de certo “jornalão” paulista terá sido mera coincidência, ou, quem sabe, singela “recriação” na linha “make it new”.

Serjão”[referêcia a Sérgio de Souza, editor da Caros Amigos, recém-falecido], esse texto é em homenagem a você, meu caro! Um grande e saudoso abraço!

Lula Miranda

* Lula Miranda é economista, poeta e cronista. É colaborador de publicações da mídia alternativa, como Caros Amigos e Carta Maior.

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