Blog do Desemprego Zero

O terrorismo do Banco Central

Posted by Beatriz Diniz em 12 abril, 2008

“O próprio BC é o agente estimulador das expectativas inflacionárias. E continua preso ao samba de uma nota só dos juros.”

 *Postado por Luciana Sergeiro

Publicado em: Blog Nassif

Por: Luis Nassif

Hoje, no “Valor”, duas aulas de dois economistas que aliam conhecimento e bom senso: Delfim Netto e Yoshiaki Nakano. Ambos falam sobre o pânico que setores do mercado espalharam, sobre a volta da inflação (clique aqui).

Aliás, até hoje dói nos ouvidos o artigo do Luiz Carlos Mendonça na “Folha”, prevendo a explosão dos preços. Ele sabe que a gente sabe que ele não acredita um milímetro no que escreveu. Mas sempre foi um grande apostador: e quem aposta na taxa de ignorância líquida do pensamento hegemônico, sempre ganha.

A lógica de Delfim é a seguinte:

A política de “metas inflacionárias” atua fundamentalmente sobre as expectativas do mercado.

O Boletim Focus, do Banco Central, revela expectativas sob controle, ninguém apostando em inflação em alta.

O Banco Central, através de dura mensagem (estimulado pela “ciência” do “mercado”), declarou o óbvio: está pronto para atuar de forma “preventiva” para evitar a deterioração das expectativas inflacionárias. Não esclareceu nada. Apenas confundiu. Primeiro, porque seria espantoso se não estivesse pronto, se e quando, se verificasse a deterioração e, segundo, porque ignorou o seu próprio e importante papel na formação e na deterioração das expectativas. Isso certamente explica boa parte do movimento descontínuo verificado na “meta” da Selic no fim do período.

Ou seja, o próprio BC é o agente estimulador das expectativas inflacionárias. E continua preso ao samba de uma nota só dos juros.

Diz Delfim:

As instituições nacionais melhoraram muito desde 1999 e a política fiscal assumiu sua responsabilidade depois da intervenção do FMI em 1998 para salvar-nos do “default” externo. A Lei de Responsabilidade Fiscal foi, de fato, uma pequena revolução que organizou as finanças da Federação. A política salarial civilizou-se. A expansão da nossa “capacidade de importar”, ajudada pela evolução da economia mundial, possibilitou uma vertiginosa ampliação das importações e aumentou a competição interna. E, por último, mas não menos importante, a demonstração só não é mais convincente, porque a inflação diminuiu e se estabilizou na maioria dos países.

(…) Os quatro argumentos que tentam justificar a ameaça de aumento da taxa de inflação são duvidosos. O primeiro é que já somos um caso clássico de “excesso de demanda”, mas usa para demonstrá-la a ótica de uma suspeita macroeconomia de livro-texto; o segundo afirma que os salários reais estão crescendo mais do que a produtividade da mão-de-obra, o que é falso e, além do mais, ignora os avanços comportamentais do mercado de trabalho; o terceiro é que sem o nível de investimento X é impossível sustentar o crescimento Y, o que ignora a enorme instabilidade dessa relação e, o quarto, é a redescoberta arqueológica da Nairu: o nível do desemprego já estaria no nível abaixo do qual a inflação se acelerará…

O Banco Central é hoje prisioneiro de sua própria armadilha. O que se espera dele é objetividade e moderação. Nunca “antes neste país” foi tão importante obedecer à lei de Brainard: “Quando não tiver certeza sobre o que vai fazer, faça devagar”.

Yoshiaki Nakano

Nakano demonstra que há uma inflação global, sobre a qual os juros não têm o menor efeito.

Tomando-se as expectativas de inflação de 41 países acompanhados semanalmente pela The Economist, a taxa anual média prevista alcançou 5,19% em fevereiro último, comparada a 3,14%, há um ano atrás. Nesta pesquisa, a expectativa de inflação no Brasil, de 4,6 %, está 0,6 ponto percentual abaixo da média mundial. Não há dúvida de que no ano passado transitamos de um longo período com pressões globais deflacionárias para um novo período com pressões inflacionárias globais.

(…)

Neste quadro, é provável que política monetária com meta única de inflação atingida por meio de um único instrumento, a taxa de juros, eficiente no período de compressões deflacionárias, tenha se tornado ineficaz e anacrônica no novo quadro de inflação estrutural global. Ao invés de compreender a natureza da atual pressão inflacionária no Brasil e debater se a atual política de metas é eficiente, instaurou-se um debate se a taxa de juros deve ser elevada ou não, apesar das expectativas de inflação estarem dentro da meta. O Banco Central, na neurótica fixação por taxa de juros elevadas, vem apresentando até novo argumento, de que ele deve agir preventivamente para evitar uma possível elevação nas expectativas de inflação.

Sobre demanda excessiva

Os indicadores de utilização da capacidade instalada na indústria não indicam um excesso de demanda. O índice da FGV apresenta pequena oscilação para cima (85 %) enquanto o da CNI, para baixo (82,9%), no último mês pesquisado. Estes dados ficam acima da média dos anos recentes, mas, como a economia brasileira acelerou a taxa de crescimento (4,5% ao ano em 2004-07), era de se esperar que o patamar de utilização da capacidade fosse superior em relação ao período de recuperação e crise que caracterizou o período precedente à recente aceleração. O dado mais importante, é que os investimentos produtivos estão crescendo muito acima do consumo nos últimos anos.

Sobre os preços

Abrindo os dados do IPA, não há indicações de aceleração generalizada da inflação. Ao contrário, a aceleração nos últimos doze meses está localizada em setores afetados pela inflação mundial: produtos alimentares de origem vegetal (17,36%), produtos alimentares de origem animal (16,73%), fertilizantes (39,16%), combustíveis e lubrificantes (5,1%), matérias plásticas (5,92%). Em setores com a demanda aquecida não há sinais de aceleração da inflação: material de transporte (2,29%) e máquina e equipamento para indústria (1,5%). A exceção é o setor de materiais de construção, mas a taxa de inflação nos últimos doze meses é de 4,26%.

 

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