Blog do Desemprego Zero

O AVANÇO DA CENSURA NA TV GLOBO

Posted by Beatriz Diniz em 13 abril, 2008

do Blog Consciência

Rodrigo Vianna: ex-repórter da TV Globo, demitido após se recusar a assinar um abaixo-assinado defendendo a cobertura eleitoral da emissora, fala com exclusividade ao Fazendo Media e confirma que, de fato, existe interferência política no Jornal Nacional. No final do ano passado, Rodrigo denunciou as distorções praticadas pela TV Globo para prejudicar a campanha de Lula e favorecer Geraldo Alckmin. Mas não aconteceu apenas durante as últimas eleições. Nesta entrevista, Rodrigo conta dois outros episódios em que foi vítima de censura e se pergunta: “Será que a Globo fez uma opção parecida com a da Igreja Católica de Ratzinger: ficar mais coesa, mas também menor e mais reacionária?”.

Entrevista concedida a Marcelo Salles. Leia também a reportagem Jornalistas sofrem perseguição na TV Globo.

Qual é sua formação?
Eu me formei em Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo, e me formei também em História, na USP.

Qual foi o primeiro veículo de comunicação em que você trabalhou?
Comecei na Folha de S. Paulo como frila e depois contratado em 1990. Entrei alguns dias antes da posse do Collor. Trabalhei na Folha até meados de 1992. Comecei no “suplementos”, no caderno de imóveis. Cobria mercado imobiliário, dicas pra casa, por aí. Depois passei pra “cidades”, que era o caderno que se chama “cotidiano”. Fui redator e depois editor-assistente de fechamento, cuidava de fazer os títulos, as legendas, reescrever os textos, copydesk mesmo. E dava plantão no final de semana, às vezes na “política”.

E você ficou lá até 1993? Saiu com o Collor?
Fiquei lá durante todo o período Collor. Inclusive teve a famosa invasão do jornal, que a Folha chamou de invasão pela Receita Federal. Mandaram a Receita fazer uma devassa nas contas da Folha, saiu um editorial do Octávio Frias Filho [proprietário da Folha de S. Paulo] na primeira página reagindo àquilo, um editorial belíssimo. Quando saí da Folha fui para a TV Cultura, bem no início do processo de impeachment. Minhas primeiras matérias na Cultura eram acompanhar o Pedro Collor, que vinha a São Paulo dar entrevistas.

E ficou na TV Cultura até quando?
Entrei em meados de 92 e fiquei até meados de 95. Três anos.

Aí você foi pra TV Globo?
Aí eu fui pra TV Globo. Passei três anos muito legais na TV Cultura, um período muito criativo, quando se criou o Castelo Rá-Tim-Bum, aquele X-Tudo, o clima na TV era de uma liberdade enorme para criar, principalmente nesses programas infantis, e esse ambiente acabava influenciando também no trabalho do Jornalismo. A TV era comandada pelo Roberto Muylaert, um grande executivo, um homem refinado. E o jornalismo era comandado pelo Marco Nascimento, um sujeito aberto, tranqüilo, mas extremamente exigente com a qualidade da informação. A gente tinha uma criatividade muito grande nesses programas infantis e acaba permeando também o jornalismo. A gente tinha uma liberdade grande, não tinha interferência nenhuma. Foi gostoso trabalhar ali.

Daí você entra na TV Globo em 1995, Fernando Henrique havia acabo de ser eleito…
Já tinha tomado posse. O diretor de jornalismo da Globo, quando entrei, era o Alberico Souza Cruz, que vinha desde a época do Collor.

O Alberico não era da mesma época que o Armando Nogueira?
Então, ele era meio que um sub ali, não sei exatamente qual era seu cargo na época do Armando Nogueira. O Armando Nogueira era o diretor, tinha a Alice Maria e o Alberico eu não sei se era editor de política, enfim, era um cargo que não era o diretor geral de jornalismo. Em 1990, logo depois que o Collor assume, o Alberico toma o cargo que era do Armando Nogueira e fica até 1995. Quando eu entrei o diretor já era o Alberico. E em coisa de dois, três meses trocou: saiu o Alberico e entrou o Evandro [Carlos de Andrade].

Você pode contar como foi trabalhar com o Evandro na TV Globo?
Então, vou falar da experiência profissional porque eu vi o Evandro duas, três vezes nos corredores. Ele era um cara de pouca conversa, de outra geração, uma pessoa considerada de personalidade difícil, um cara duro no trato pessoal. Mas profissionalmente acho que ele significou uma virada importante para a Globo. Um das primeiras atitudes dele foi tirar da gaveta um Globo Repórter que havia sido produzido vários anos antes, tinha sido feito por Caco Barcellos e Maurício Maia, produtor aqui de São Paulo, da antiga, de primeira linha, que era um Globo Repórter sobre a Vala de Perus, um cemitério aqui de São Paulo onde foram encontrados corpos de pessoas que tinham sido mortas durante a ditadura. O Maurício e o Caco localizaram essa vala e a Luiza Erundina prefeita se empenhou em investigar, tirou as ossadas de lá, abriu uma investigação, e a Globo acabou nunca pondo no ar o trabalho que eles fizeram, que era um pouco recontar a história desses desaparecidos políticos. Quando o Evandro entra em 95, acho que como uma atitude simbólica, ele fala: “Cadê o programa? Vamos colocar no ar”. E põe no ar. Então isso já mostrou que ele vinha não pra fazer nada muito revolucionário, mas era sinal de que agora não há mais assuntos proibidos, a gente tem que fazer jornalismo, contar as coisas, enfim, que devem ser contadas, histórias relevantes que devem ser contadas. Evandro não fez isso porque era bonzinho, mas porque isso era interessante do ponto de vista da empresa. Vamos lembrar que FHC, através do ministro Gregori, trouxe esse tema dos desaparecidos para a agenda política. Não havia porque a Globo continuar represando a história… E durante esse período do Evandro, que coincidiu com meu período na Globo, eu vi esse esforço de ir reconstruindo a imagem do jornalismo da Globo, e não era só uma questão de imagem, na prática mesmo da cobertura política isso foi se fazendo. Na cobertura das eleições, a preocupação de uma coisa didática, explicar a importância da eleição, explicar a importância do voto. Eu participei de várias matérias nessa linha. O Amauri Soares (diretor de Jornalismo em São Paulo) tinha essa preocupação também, havia um núcleo de eleições e as coisas funcionavam nessa linha, de maneira muito correta.

E suas expectativas, antes de entrar, coincidiram com o que você encontrou lá dentro?
As expectativas eram de que as coisas iam ser mais difíceis. Eu conhecia a história recente da Globo. Em relação à campanha das Diretas, da eleição do Collor. E mais pra trás o período da ditadura militar. Então, eu sabia que a história não era das mais favoráveis. Mas quando eu entrei, eu até me surpreendi. E as pessoas me perguntavam: “Pô, você, trabalhar na Globo?”. Olha, tem essa coisa do passado. Mas eu no dia-a-dia, sinceramente não sinto grandes problemas no trabalho lá, não. É uma grande empresa, tem seus interesses, tem questões delicadas, mas não é uma coisa assim de controle descabido, não. Eu senti até uma coisa de tirar a tampa da panela de pressão. Vamos fazer o que não se fazia antes, vamos cobrir política, vamos atrás dos candidatos, não tem assunto proibido.

E essa fase foi até que ano?
Olha, Evandro morreu em 2001, mas a estrutura que ele montou continuou funcionando bem durante mais algum tempo… Depois, afastaram o diretor de São Paulo (Amauri Soares), o de Belo Horizonte (Marco Nascimento), e um novo poder interno começou a se delinear. O que me pergunto é: será que os irmãos Marinho têm total consciência do papel nefasto dessa nova direção de jornalismo? Nefasto para a democracia, mas também para os interesses da empresa… Interessa à Globo, por exemplo, ficar marcada como emissora que tenta negar o racismo? Será que a Globo fez uma opção parecida com a da Igreja Católica de Ratzinger: ficar mais coesa, mas também menor e mais reacionária?

Quando você começa a sentir aquela interferência política que você cita em sua carta [leia aqui]?
Olha, de forma mais acentuada no período eleitoral [de 2006]. Mas de dois anos pra cá, coisas estranhas aconteceram…

> Continua

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