Blog do Desemprego Zero

A inflação de volta ao centro do debate econômico

Posted by Beatriz Diniz em 17 abril, 2008

Nos últimos cinco anos, a economia mundial conseguiu crescimento econômico e ao mesmo tempo controlou a inflação, mas no momento, um aumento de preços se torna quase inevitável.

Por Katia Alves

Publicado na Gazeta Mercantil

Por José Mauro Delella

No cenário atual, um ajuste de preços relativos tende a ser inevitável

Depois de um longo período de taxas muito baixas em praticamente todos os países, que levou alguns economistas a considerarem-na um problema “do passado”, a inflação volta a ocupar lugar de destaque no debate econômico mundial.

O diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strausss Kahn, em pronunciamento feito em Washington no último final de semana, convocou os países-membros da instituição a enfrentar o desafio dos altos preços de alimentos, que já se constituem em fator de preocupação de magnitude equivalente à decorrente da crise financeira nos Estados Unidos.  Afinal, embora motivada por questões “nobres” — como a melhora, em termos de quantidade e qualidade, da dieta alimentar de milhões de pessoas nos países em desenvolvimento, bem como a utilização de áreas agricultáveis para produção de formas “limpas” de geração de energia -, a valorização dos produtos básicos afeta negativamente em maior intensidade os mais pobres. Que têm maior parcela de sua cesta de consumo concentrada nesse tipo de produto e encontram maior dificuldade para se defender das perdas provocadas pela inflação. 

Num cenário de globalização, urbanização e inclusão de novos atores à economia de mercado, um ajuste de preços relativos tenderia a ser mesmo inevitável. E, de fato, até bem pouco tempo atrás, a alta dos produtos básicos era em grande parte compensada por quedas nos manufaturados, preservando níveis ainda baixos de inflação agregada.

Mas, nos últimos meses, o ritmo de alta dos preços de alimentos, e também de energia, se intensificou. Produtos de consumo popular como o arroz, o trigo e o milho, acumularam altas impressionantes (respectivamente, 48%, 19% e 26%, apenas desde o início de 2008). O petróleo, por sua vez, teve alta de 14% neste ano, e 78% desde o início de 2007. Como conseqüência, alguns países já começam a mostrar índices de inflação muito elevados e significativamente maiores do que os que vinham sendo registrados nestes primeiros anos do século XXI. Exemplos nesse sentido são inúmeros: nos últimos 12 meses, a inflação ao consumidor na Rússia já chega a 12,7%. Na Venezuela, 30%; no Chile; 8,5%; na Ucrânia; 19%. Na Argentina, indicadores oficiais apontam para variações próximas aos dois dígitos (8,8% até março), enquanto entidades independentes falam em números até superiores a 20%. E até mesmo a China, uma freqüente “exportadora de deflação” nos manufaturados, o índice de preços ao consumidor acumulou até março sua maior variação desde 1996, 8,7%. E o grupo alimentação, isoladamente, teve alta de 23,3%.

Num momento em que a maior economia mundial apresenta evidências claras de desaceleração de seu ritmo de crescimento, a tendência de que a política monetária fora dos Estados Unidos se torne mais restritiva deverá dificultar o “descolamento” e, por conseqüência, impor um menor ritmo de crescimento para a economia mundial em 2008. A propósito, o próprio Federal Reserve, embora tenha como prioridade evitar o aprofundamento e prolongamento da retração econômica e conte com o respaldo de um núcleo da inflação bem comportado para colocar em prática uma política monetária muito expansionista, tem tornado gradativamente mais evidente sua preocupação com o risco inflacionário, como bem demonstra a falta de consenso nas decisões de diminuição de sua taxa básica de juros nas duas últimas reuniões do FOMC.

Não devemos esquecer que a característica principal do extraordinário ciclo de crescimento mundial nestes últimos cinco anos foi a rara coexistência simultânea de taxas de crescimento mais elevadas e taxas de inflação menores do que as suas médias históricas. E que, neste momento, a tendência dessa combinação, pelo menos a curto prazo, parece muito menos benigna. Mas, afinal, há uma receita mágica para resolver rapidamente esses problemas? Provavelmente, não. Algum recuo do governo americano em seu programa de subsídio à produção de etanol – que, segundo especialistas, contribuiu decisivamente para a mudança de patamar de preço de commodities como milho, soja e trigo – provavelmente ajudaria. Aumentos mais significativos na produção de petróleo por parte da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e também de outros grandes produtores, que reduzisse a pressão altista dos custos de energia, também poderiam representar uma contribuição importante, assim como ações de diminuição do protecionismo incidente sobre os produtos agrícolas nos países desenvolvidos. Do mesmo modo, a diminuição dos eventos climáticos desfavoráveis – notadamente na Austrália e na Europa, que tiveram perdas expressivas de produção na sua safra 2007.

Soluções que, no entanto, encontram entraves políticos importantes para sua implementação ou dependem de condições que vão muito além da capacidade de ação dos formuladores de política. Portanto, algum custo em termos de produto global terá mesmo de ser pago durante os próximos meses.  E não deixa de ser interessante que o recrudescimento do debate sobre a inflação no mundo se dê justamente às vésperas de uma reunião em que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central deverá, segundo opinião da ampla maioria do mercado, iniciar um ciclo de aperto monetário no Brasil.

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