Blog do Desemprego Zero

Libor pode estar dando sinais errados

Posted by Beatriz Diniz em 17 abril, 2008

“Nos últimos meses, a crise financeira provocada pelos problemas das hipotecas americanas de alto risco, ou “subprime”, fez com que a Libor subisse bastante.”

Por: Luciana Sergeiro

Publicado em: Valor Online (restrito a assinantes)

Por Carrick Mollenkamp

Um dos mais importantes termômetros da saúde financeira do mundo pode estar dando sinais falsos. Banqueiros e operadores de mercado têm expressado preocupações de que a taxa de juro do mercado interbancário de Londres, conhecida como Libor, esteja ficando pouco confiável. Isso teria implicações para tomadores de empréstimo em todo o mundo, de produtores russos de petróleo a exportadores brasileiros ou mutuários da casa própria americanos.

A Libor tem um papel crucial no sistema financeiro mundial. Calculada todas as manhãs em Londres, a partir de informações fornecidas por bancos de todo o mundo, ela é uma medida do juro médio a que os bancos fazem empréstimos de curto prazo entre eles. A taxa fornece um indicador importante da saúde dos bancos, subindo quando eles estão com problemas. Sua influência vai muito além do sistema bancário: as taxas de juros de trilhões de dólares em dívidas de empresas, créditos imobiliários de pessoas físicas e contratos financeiros são definidas de acordo com a Libor.

A Libor se tornou tão presente nos mercados de crédito que muitas pessoas confiam nela sem pensar a respeito. Dúvidas a respeito de sua confiabilidade são “realmente meio assustadoras quando você de fato senta e pára para pensar”, diz o americano Chris Freemott, um banqueiro de hipotecas de Illinois que depende da taxa para saber quando sua firma, a All America Mortgage Corp., deve ao banco First Tennessee numa linha de crédito que usa para conceder empréstimos.

Nos últimos meses, a crise financeira provocada pelos problemas das hipotecas americanas de alto risco, ou “subprime”, fez com que a Libor subisse bastante. Bancos centrais dos Estados Unidos e da Europa colocaram centenas de bilhões de dólares no sistema bancário para evitar colapsos.

As suspeitas cada vez maiores sobre a veracidade da Libor sugerem que os problemas dos bancos podem ser piores do que eles estão dispostos a admitir. A preocupação é de que alguns bancos não queiram divulgar as altas taxas que estão pagando por empréstimos de curto prazo porque não querem sugerir ao mercado que estejam desesperados por dinheiro. O sistema da Libor depende de que os bancos digam a verdade sobre suas taxas de captação. Se os bancos estão mentindo, milhões de devedores ao redor do mundo podem estar pagando juros artificialmente baixos sobre seus empréstimos. Isso é bom para eles, mas pode ser muito ruim para os bancos e outras instituições financeiras que emprestam a eles.

Não há nenhuma evidência clara de que os bancos forneceram informação falsa sobre as taxas de captação. Mas banqueiros e outros participantes do mercado expressaram discretamente preocupações à Associação de Banqueiros Britânicos, que supervisiona a Libor, quanto à possibilidade de os bancos não estarem divulgando juros que refletem seus verdadeiros custos de captação, segundo uma pessoa a par da questão e documentos do governo. A associação, ou BBA na sigla em inglês, está agora investigando para identificar problemas potenciais, diz a pessoa.

As questões sobre a Libor foram suscitadas já em novembro, numa reunião do Banco da Inglaterra (o BC britânico) na qual bancos britânicos, as firmas que processam as transações interbancárias e funcionários do banco central discutiram a recente turbulência financeira. Segundo as minutas da reunião, “vários membros do grupo acharam que as cotações da Libor haviam ficado abaixo das verdadeiras taxas interbancárias negociadas durante o período de crise”. Num relatório recente, dois economistas do Banco para Compensações Internacionais (BIS, uma espécie de banco central dos bancos centrais), também expressaram preocupações de que os bancos pudessem divulgar cotações imprecisas.

Um porta-voz da BBA, John Ewan, disse que a associação está acompanhando a situação. “Queremos assegurar que nossas taxas sejam as mais precisas possível, de modo que estamos observando atentamente as taxas que os bancos fornecem”, disse. “Se for considerado necessário, vamos tomar medidas para preservar a reputação e a posição no mercado de nossas taxas.” A Libor deve estar na agenda de uma reunião do conselho da BBA hoje.

Num relatório recente, Scott Peng, um estrategista de juros do Citigroup Inc. em Nova York, escreveu que “os impactos econômico e psicológico de longo prazo que isso pode ter no mercado financeiro são incalculáveis”. Peng estima que se os bancos fornecessem dados precisos sobre seus custos de captação a Libor de três meses poderia ser até 0,3 ponto porcentual mais alta.

Um pequeno aumento na Libor pode fazer uma grande diferença para os tomadores de crédito. Por exemplo, um acréscimo de 0,3 ponto porcentual adicionaria mais de US$ 100 ao pagamento mensal de uma hipoteca de juros variáveis de US$ 500.000, ou US$ 300.000 em juros anuais para uma empresa com uma dívida de juro variável de US$ 100 milhões. Ontem, a Libor para empréstimos em dólar de três meses ficou em 2,716% ao ano. A taxa para empréstimos de três meses em libras esterlinas ficou em 5,929%.

O sistema Libor foi desenvolvido nos anos 80. Os bancos procuravam uma referência que lhes permitisse definir os juros em empréstimos consorciados – créditos para empresas que normalmente têm juros que se ajustam de acordo com as taxas predominantes. Ao atrelar os juros dos empréstimos à Libor, que supostamente representa a taxa que os bancos cobram uns dos outros, os bancos queriam garantir que o custo que os clientes pagariam nunca ficaria muito abaixo dos custos deles próprios para captar.

Os bancos normalmente definem as taxas de seus empréstimos com um certo “spread”, ou taxa de risco, acima da Libor. Uma empresa com bom histórico de crédito, por exemplo, pode pagar uma taxa de juros de Libor mais 0,5 ponto porcentual, por exemplo. Um crédito imobiliário “subprime” pode ter um juro de Libor mais 6 pontos porcentuais.

Hoje, as taxas Libor são definidas para 15 durações diferentes de empréstimos – de “overnight” a um ano – e em dez moedas, entre elas a libra, o dólar, o euro e a coroa sueca. Elas servem de base para trilhões em empréstimos a empresas, hipotecas e créditos estudantis. As taxas da Libor também são usadas para definir os termos de mais de US$ 500 trilhões em contratos derivativos, como swaps de juros, que empresas de todo o mundo usam para se protegerem de variações súbitas na diferença entre as taxas de curto e longo prazo.

Quando os bancos querem tomar dinheiro emprestado, contratam os bancos diretamente ou ligam para um corretor de empréstimos, como a ICAP PLC de Londres. Muito da atividade interbancária ocorre entre 7h e 11h na manhã de Londres. As taxas reais, com as quais os bancos captam uns dos outros, só são conhecidas pelas partes envolvidas e talvez pelos corretores.

Às 11h10, “painéis” de bancos enviam dados à Reuters Group PLC, a agência londrina de notícias e dados financeiros, sobre quanto lhes custaria captar uma “quantidade razoável” numa certa moeda. O painel da Libor em dólar, por exemplo, consiste de 16 bancos, entre eles os americanos Bank of America Corp. e JP Morgan Chase & Co. e os britânicos HBOS PLC e HSBC Holdings PLC. A Reuters usa as taxas reportadas para calcular as cotações, ou “fixings”, da Libor. Para reduzir a possibilidade de que qualquer banco manipule uma média ao divulgar um número falso, a Reuters descarta os grupos mais altos e mais baixos de cotações antes de calcular as médias.

Justin Abel, diretor global das operações de dados da Reuters, disse num comunicado que o papel de sua empresa é simplesmente de calcular os “fixings” com base na informação fornecida pelos bancos. “São apenas os dados deles que distribuímos. A Reuters é puramente a facilitadora”, afirmou.

 

 

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