Blog do Desemprego Zero

A difícil e essencial regulação financeira

Posted by Beatriz Diniz em 18 abril, 2008

Publicado no: Valor

Por Martin Wolf

Bela tentativa: sem charutos. Esta foi a minha reação à tentativa da comunidade bancária de evitar regulação adicional, quando recomendou “um conjunto de melhores práticas a ser adotado voluntariamente”. Foi também a reação dos formuladores de políticas que se encontraram em Washington na semana passada. Há mais regulação a caminho. Depois de assustar políticos e formuladores de política a esse extremo, até o banqueiro mais otimista deve constatar isso. Resta saber se a regulação adicional fará algum bem.

Num relatório provisório sobre “melhores práticas de mercado”, o Institute for International Finance, uma associação de banqueiros, oferece uma autocrítica devastadora IIF.com. Eis, portanto, algumas fragilidades que identifica: “deterioração de normas de concessão de empréstimo da parte de algumas instituições que dão origem ao crédito”; um “declínio nas normas de subscrição”; uma “dependência excessiva sobre produtos estruturados insuficientemente compreendidos, de desempenho insuficiente e com classificação inferior à adequada”; e “dificuldades em identificar onde residem as exposições [a risco]”. Você compraria um código voluntário de pessoas que descrevem os seus próprios erros nessa forma brutal? Acredito que não. Existem dois poderosos motivos adicionais para não fazê-lo.

Primeiro, num setor tão acirradamente competitivo, um código voluntário quase certamente não vale o papel em que está redigido. Quando puderem se safar, comportando-se de forma irresponsável, alguns o farão. Isso exerce forte pressão sobre os demais. Foi o que Chuck Prince, ex-executivo-chefe do Citigroup, quis dizer quando declarou ao FT que “enquanto a música está tocando, é preciso se pôr de pé e dançar”. Portanto, como observa Willem Buiter, da London School of Economics: “a auto-regulação está para a regulação da mesma forma que o convencimento está para a relevância (Blogs. FT)” Segundo, o setor tem forma. O próprio IIF foi fundado em 1983 em resposta à crise da dívida dos países em desenvolvimento. À época, grandes parcelas do sistema bancário ocidental estavam efetivamente falidas. Agora, muitos transtornos depois, chegamos à “crise do subprime”. O IIF foi criado não só para representar o setor, como também para melhorar o seu desempenho. Está claro que isso não funcionou.

Não aceite simplesmente a minha palavra. No mês passado, Carmen Reinhart, da Universidade de Maryland, e Kenneth Rogoff, de Harvard, publicaram um artigo extraordinário sobre a longa história das crises financeiras (“This time is different: a panoramic view of eight centuries of financial crises” [Desta vez é diferente: uma vista panorâmica de oito séculos de crises financeiras], Working Paper 13882, March 2008, NBER. Ele mostra que a incidência de crises bancárias (medida pela proporção de países afetados) tem sido tão alta desde 1980 como em qualquer período desde 1800; que a incidência de crises está correlacionada à liberalização dos fluxos de capital; e que houve uma queda na incidência de crises na década de 2000, até 2007.

Mesmo assim, pergunto, por que deveria este setor ter aparentemente fracassado na tentativa de aprimorar os seus padrões de desempenho ao longo do século passado? Afinal, quase todos os demais setores conseguiram. Consideremos o nosso grau de confiança de que a comida que compramos não nos envenenará. Comida adulterada, contudo, já foi uma ameaça.

Consideremos, com base nesses padrões, os fracassos do setor bancário, como foram admitidos pelo próprio IIF. Seu desempenho puramente operacional é agora impressionante. Mas a concorrência não funciona bem em finanças. O “produto” do setor financeiro é promessa de um futuro incerto, comercializado como sonhos que podem prontamente se transformar em pesadelos. Os clientes são imediatamente arrebatados por promessas exageradas, crenças irracionais, confiança fora de lugar e pura enganação. O mesmo também se aplica aos profissionais liberais: embasar gestão de risco em informação limitada e modelos inadequados é um bom exemplo. As emoções entram em cena sempre que aparecem as incertezas.

Os reguladores estão fadados a fechar as portas por trás de instituições que sempre encontram formas novas e mais emocionantes de perder dinheiro

A Boeing não teria sobrevivido se os aparelhos que constrói despencassem dos céus. No setor financeiro, porém, enormes erros crassos são quase sempre cometidos em comum. Se todos dançam, ninguém pode ser culpado e, de qualquer forma, os governos, aterrorizados pelas conseqüências de um sistema financeiro em vias de colapso, virão a seu socorro.

Até agosto, eu me tranqüilizei com o pensamento de que grande parte das crises do quarto de século passado ocorreu em sistemas financeiros relativamente atrasados, ainda que as instituições do primeiro mundo tenham desempenhado um papel na “sedução de menores”. Então, eu esperava, as coisas poderiam estar melhorando.

Esta não é mais uma visão plausível. A partir do momento em que os próprios EUA produziram um vasto déficit em conta corrente, os concomitantes acúmulos de endividamento interno geraram perdas enormes, como assinala o excelente novo Relatório sobre a Estabilidade Financeira Global, do Fundo Monetário Internacional. A única coisa boa é que as perdas estimadas, de perto de US$ 1 trilhão, estão amplamente distribuídas. Isso torna a situação presente menos transparente, lamentavelmente. Mas também significa que o sofrimento é mais amplamente, e também mais seguramente, compartilhado.

Então, o que poderá ser feito agora? Curiosamente, reina uma sólida convergência em torno do essencial entre o IIF e as autoridades, como ficou demonstrado em um relatório recente, crítico de forma devastadora, do Fórum para a Estabilidade Financeira, sobre “aprimoramento da flexibilidade institucional e de mercado [www.bis.org]”. Ambos concordam, por exemplo, que estruturas de compensação são importantes, como eu e outros temos argumentado. Ambos concordam, igualmente, que a gestão de risco foi desastrosa.

A agenda traçada no relatório oficial é extensa. Ela inclui o fortalecimento da supervisão criteriosa de capital, risco, liquidez e gestão de risco, aprimoramento da transparência, mudança do papel e dos usos das classificações de crédito, fortalecimento da capacidade de resposta das autoridades ao risco e melhoria dos programas de ação para lidar com tensão. Mas, nem seria preciso dizer, os formuladores de políticas também acreditam que a regulação deve ser mais rígida. Considerando-se o dano causado e a dimensão da rede de segurança fornecida, não existe nenhuma alternativa.

Mesmo assim, não estou tão otimista a respeito da regulação. Os reguladores estão fadados a fechar as portas por trás de instituições financeiras que sempre encontram formas novas e mais emocionantes de perder dinheiro. Por esse motivo, é fundamental que as instituições, e os credores não garantidos, sintam alguma dor: a criança que se queimou teme o fogo; queimar a ferro é menos eficaz. Apesar disso, a economia jamais deve arder demasiado, já que isso poderá destruir toda a economia.

Para a regulação ser eficaz, precisa cobrir todas as instituições relevantes e a totalidade do balanço patrimonial em todos os países importantes; precisa se concentrar em capital, liquidez e transparência; e, especialmente, deve tornar as finanças menos pró-cíclicas. Será que algum dia ela funcionará perfeitamente? Certamente não. É impossível e, provavelmente, até indesejável criar um sistema financeiro livre de crises. As crises sempre estarão entre nós. Mas certamente poderemos nos empenhar mais do que temos feito até agora. Seja como for, estamos fadados a tentar.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: