Blog do Desemprego Zero

O nacionalismo e o renascimento chinês

Posted by Beatriz Diniz em 20 abril, 2008

Publicado originalmente no: Jornal do Brasil

Por Mauro Santayana

A Fundação Alexandre Gusmão reuniu nos dias 17 e 18 no velho Palácio do Itamaraty, acadêmicos, diplomatas e jornalistas – brasileiros e estrangeiros – a fim de discutir o caso chinês. O extraordinário desenvolvimento econômico do mais populoso país do mundo, nestas três últimas décadas, pode corresponder a uma revolução histórica, ou não, uma vez que a nenhum mortal é concedido o privilégio de ver um segundo sequer do futuro. Mas, na hipótese, demonstrada até agora, de que haja futuro, convém-nos, tanto às pessoas quanto às nações, examinar o presente e nos prepararmos para o que é provável.

Não é só a China que cresceu e cresce. Ela arrasta os seus vizinhos igualmente populosos, como é o caso da Índia, do Paquistão, do Bangladesh e outros países vizinhos. Só nesse bloco temos mais da metade dos seres humanos. Até o fim da Segunda Guerra Mundial, essa imensa parcela da humanidade se encontrava sob domínio direto e indireto dos estrangeiros, com a aquiescência de chefes militares e potentados religiosos internos, que exploravam seus vassalos menores.

Se para alguma coisa, além do próprio proveito, serviu o crescimento da China, foi para reabilitar o velho nacionalismo. Toynbee escreveu que a ideologia do século passado era a do nacionalismo. Depois da capitulação soviética, organizada pela tróica do liberalismo econômico tardio (o papa Wojtyla, a senhora Thatcher e o cow-boy Ronald Reagan), os meios de comunicação, administrados por Wall Street e pela Casa Branca, fizeram acreditar que o nacionalismo morrera. É curioso que a ascensão dos três ao poder coincide com o início da ação renovadora de Deng Xiaoping no sistema chinês.

Enquanto crescia o neoliberalismo por um lado, o velho comunista agarrava a globalização pela outra orelha. Tratou-se de movimento tático, dentro de sua bem pensada estratégia. Os chineses souberam empregar sua dialética milenar – e encontrar, na fortaleza inimiga, o ponto débil. Os formuladores da nova ordem acreditavam que a globalização da economia seria o chamado fim da História: os ricos e fortes permaneceriam fortes e ricos, e os pobres estariam condenados, para sempre, a servirem de almofada para o conforto dos poderosos. Os chineses mostraram, com sua economia socialista de mercado, que o mundo rejeita pensamentos únicos.

Por enquanto, a distância entre os Estados Unidos e a China parece intransponível, mas a História (que é, e será teimosa, enquanto mundo houver) pode mudar as coisas no curso de uma geração. Isso não significa que a China vá ocupar o espaço americano no mundo. É mais provável que as potências hegemônicas percam seu poder e surjam blocos geográficos, cada um deles constituindo um mercado comum – como começa a ocorrer na América do Sul – mas oferecendo o máximo de autonomia política aos países membros.

O nacionalismo renasce à esquerda e à direita. Retorna em alguns países em que a ideologia do fascismo já trouxe ao mundo a carga da tragédia, como é o caso da Alemanha. Renasce na França de Maurras e de Pétain, nutrida pela xenofobia e pelo racismo, e, agora, na Itália berluscônica. Está presente, mais do que nunca, nos Estados Unidos de Bush. O nacionalismo de esquerda é o motor do extraordinário desenvolvimento chinês e reanima alguns países da América Latina. O gato de Deng Xiaoping pode ser preto ou branco, mas seus olhos continuam vermelhos.

O Brasil, que deve ao nacionalismo, no tempo de Vargas e no mandato de Juscelino – na ocupação do Norte e do Centro-Oeste, no rompimento com o FMI e na construção de Brasília – o início de um projeto nacional, deve olhar bem em volta do mundo e estabelecer os marcos de seu futuro. Por isso, conhecer a China (e conhecer bem os outros países) é indispensável para a tomada de decisões históricas.

Enquanto todos os povos do mundo não gozarem dos mesmos benefícios da civilização moderna, será uma falácia pensar em uma Weltzollverein, em um mercado comum mundial. Porque assim não entendeu, apesar das advertências dos observadores mais lúcidos, o governo anterior perdeu a grande oportunidade de manter as rédeas do processo sob as mãos do Estado. Ao contrário, desfez-se, a 10 réis de mel coado, de empresas estatais estratégicas, como as de telefonia e de mineração e de energia.

Os seminários do Itamaraty se realizam sob o título comum de O Brasil no mundo que vem aí. O mundo está sempre mudando, mas de vez em quando costuma dar saltos rápidos. Temos que estar atentos aos movimentos e idéias dos outros passageiros desta embarcação cósmica, e agir como nos convém, para que sejamos sujeitos ativos da História e timoneiros do próprio destino.

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