Blog do Desemprego Zero

O que faz as pessoas felizes?

Posted by Beatriz Diniz em 20 abril, 2008

“(…) a recessão e o desemprego afetam mais a satisfação das pessoas do que a inflação. (…) Em breve os bancos centrais irão levar estes fatores em consideração nos seus modelos e nas suas decisões, especialmente quando a felicidade começar a ser medida ainda mais precisamente.”

O autor aponta para a preocupação crescente de se verificar os níveis de felicidade dos países como forma de se adequar políticas econômicas à realidade destes.

Por Katia Alves

Publicado no: Valor

Naércio Menezes Filho

A felicidade tem ocupado a mente dos economistas por muito tempo, mas nas últimas décadas as pesquisas nesta área têm se intensificado, com o uso de novas técnicas e novas bases de dados. Alguns economistas argumentam que o sucesso de um país deve ser medido exclusivamente pela felicidade de seus habitantes e que as decisões de política econômica e social têm que se voltar para este objetivo. A satisfação com a vida seria uma medida síntese de bem-estar que agrega vários componentes, como saúde, riqueza e status social. Além disto, a felicidade seria mensurável, já que nós podemos perguntar diretamente para as pessoas se elas estão ou não satisfeitas com a vida. Mas, afinal de contas, o que determina a felicidade? Renda familiar, bens de consumo, casamento, filhos, satisfação no trabalho, desemprego, inflação baixa – quais são os fatores mais importantes para a satisfação das pessoas? E como a política econômica pode afetar estes fatores?

Existem várias bases de dados que tentam medir as percepções das pessoas sobre estas e outras questões. As mais conhecidas são “World Value Surveys”, “Gallup World Polls” e “Latino Barômetro”. Estas pesquisas perguntam para os entrevistados quão satisfeitos estão com a vida, mas também suas condições de saúde e opiniões a respeito da liberdade e democracia, além de colher informações sobre suas características sócio-econômicas. A pergunta sobre felicidade geralmente é feita da seguinte forma: “olhando para sua vida como um todo, você diria que está muito satisfeito, satisfeito, não muito satisfeito ou totalmente insatisfeito com ela?”.

Mas estas respostas são mesmo confiáveis? Esta é a primeira pergunta que vem à mente quando ouvimos falar de estudos deste tipo. Afinal de contas, não seria a felicidade um conceito totalmente subjetivo? Será que duas pessoas com as mesmas condições de vida não teriam opiniões diferentes sobre sua felicidade? Na verdade, existem várias pesquisas que validam a utilização de medidas deste tipo. Estudos experimentais mostram que as pessoas que se declaram mais felizes sorriem mais, são consideradas mais felizes por seus pares e ficam menos doentes. Além disto, pesquisadores detectaram uma relação clara entre a felicidade declarada e leituras fisiológicas do cérebro. Comparando diversos países, a satisfação média com a vida está bastante relacionada com a taxa de suicídios e de hipertensão. Assim, vale a pena investigar este tema com mais detalhes.

Em breve os BCs considerarão a felicidade nos seus modelos e decisões, especialmente quando ela começar a ser medida mais precisamente

A primeira coisa que nos interessa saber é se as pessoas mais ricas são mais felizes. Afinal, dinheiro traz felicidade? A resposta é sim, mas com nuances. O crescimento do PIB per capita de um país provoca um aumento de felicidade dos seus habitantes se o país for pobre, mas a partir de certo ponto (por volta de doze mil dólares), aumentos posteriores do PIB não deixam os habitantes mais satisfeitos com a vida. Os brasileiros são um povo feliz, dado nosso PIB per capita, e para nós o crescimento da economia ainda gera mais felicidade. Mas os países mais felizes são os nórdicos (Dinamarca, Finlândia e Noruega).

Para as pessoas, episódios de aumento de renda, como ganhar na loteria, por exemplo, aumentam muito a felicidade por algum tempo, mas depois ela volta para um nível um pouco acima do anterior. O nível de exigência para ser feliz aumenta juntamente com a renda. Por outro lado, acidentes graves tendem a diminuir muito a satisfação com vida, mas depois de algum tempo a felicidade tende a voltar para níveis que estão somente um pouco abaixo do que antes. Assim, parece que o ser humano tem uma grande capacidade de adaptação às circunstâncias.

Na vida pessoal, as pesquisas mostram que as pessoas mais felizes em média são as que têm muitos amigos, são casadas, mais educadas e principalmente com mais saúde. As mulheres são mais felizes que os homens, os filhos não aumentam a felicidade, mas os bens de consumo sim. Além disto, a felicidade diminui com a idade, até atingir um nível mínimo em torno de 40 anos, para depois voltar a crescer. Parece que quando se é jovem as expectativas são grandes com relação ao futuro. À medida que estas expectativas não vão se realizando para todos, a felicidade decresce. Mas, quando as pessoas se conformam com a vida que o destino as proporcionou, a felicidade volta a crescer.

Enfim, o dinheiro traz felicidade, mas não é sua única causa. Uma das características mais reveladoras do ser humano é que a felicidade depende da posição relativa das pessoas do seu grupo de referência. O sucesso dos nossos companheiros contribui para nossa infelicidade. Assim, se o crescimento de um país faz a renda de todos os seus habitantes crescer na mesma proporção, nenhum deles ficará mais feliz. Isto pode explicar por que o crescimento do país não aumenta a felicidade de seus habitantes, a partir de certo ponto. Além disto, pesquisas que medem a felicidade em tempo real mostram que a satisfação com vida está mais relacionada com o status dos mais ricos do que com suas atividades, que tendem a ser mais estressantes.

Quem tem um emprego é mais feliz do que quem não tem, mesmo quando comparamos pessoas com o mesmo nível de riqueza e saúde. Este é um fato inesperado para a teoria econômica, que assume que o trabalho é um fardo, que serviria apenas para comprar lazer, que é o que realmente traria satisfação. Mais do que isto, a satisfação com o trabalho é um dos principais componentes da satisfação com a vida. Um dos principais motivos para a insatisfação no trabalho é o risco de perder o emprego e a sensação de insegurança.

Por fim, em semana de decisão do Copom, é importante saber como as variáveis macroeconômicas afetam a felicidade. As pesquisas mostram que as pessoas tendem a ser mais felizes quando a inflação e o desemprego são baixos, mesmo após levarmos em conta sua própria situação no trabalho. Além disto, a recessão e o desemprego afetam mais a satisfação das pessoas do que a inflação. As pessoas preferem uma redução de 1 ponto percentual na taxa de desemprego do que de 1,7 ponto percentual na inflação. Em breve os bancos centrais irão levar estes fatores em consideração nos seus modelos e nas suas decisões, especialmente quando a felicidade começar a ser medida ainda mais precisamente.

 

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