Blog do Desemprego Zero

“BCs devem ter cautela ao subir juros”

Posted by Beatriz Diniz em 24 abril, 2008

Em entrevista, José Luis Machinea, secretário da Cepal, chama atenção que é necessário fazer uma política monetária com cautela, que os países devem ter cuidado em aumentar a taxa de juros e fala da importância do Brasil na ALCA.

Por Katia Alves

Publicado no: Jornal do Brasil

Entrevista com José Luís Machinea

Secretário da Cepal defende fim de subsídios agrícolas em prol de um

comércio mais justo

Uma discussão sobre juros com vistas ao controle inflacionário gerou polêmica no Brasil. A nossa taxa é a maior do mundo e na semana passada o BC brasileiro a aumentou em 0,5%. Em que medida isso afeta a economia brasileira?

– Hoje há vários países que encontram-se diante de um dilema sobre o que fazer com a política monetária. Nossa posição na Cepal é de que é preciso ser demasiadamente cauteloso na política monetária, levando-se em conta que o aumento da inflação é basicamente ligado ao aumento dos preços dos alimentos e do petróleo. Portanto, não é uma inflação causada por fatores de excessiva demanda. Os países da região devem ter cuidado em aumentar a taxa de juros, tendo em vista que isso vai produzir maior ingresso de capitais exteriores que pressionarão o câmbio. Portanto, se forem aumentar a taxa de juros tem de ser em um contexto onde ponham restrições à entrada de capital de curto prazo para que não ocorra a tradicional pressão da moeda. Isso não é um problema apenas do Brasil, mas também do Chile, da Colômbia e de vários países da região. É complicado fazer uma avaliação pontual do caso brasileiro, mas em termos gerais os bancos centrais devem ser cautelosos em aumentar a taxa de juros nessa conjuntura.

Houve uma dicotomia entre inflação e crescimento. Como crescer mantendo a inflação sobre controle?

– Primeiro, deve-se investir. Se você cresce muito e não investe certamente vai ter inflação. Quando se aumenta muito a demanda, para manter a taxa de crescimento é necessário uma inversão forte para estimular a oferta. Depois desse investimento, mais tarde cai-se na discussão da alta inflação, que tem a ver com o manejo prudente da política macroeconômica, não somente da monetária mas também da fiscal.

Se existisse a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) a situação seria diferente? Haveria mais dependência da AL em relação aos EUA, como há do México dentro do Nafta?

– A dependência do México em relação aos EUA tem mais a ver com a geografia do que com o bloco. Antes do Nafta, o México já era dependente dos EUA. Os da América Central também eram dependentes antes mesmo do Acordo de Livre Comércio da América Central e República Dominicana (Cafta). Se existisse a Alca haveria mais comércio na região, mas gostaria de pensar que países como Argentina, Brasil e Chile não se tornariam de um dia para o outro tão dependentes dos EUA.

Qual é hoje a importância do Brasil no contexto da AL e do Caribe?

– A presença do Brasil tem sido grande e continuará sendo, tanto do ponto de vista econômico quanto político. Econômico porque trata-se da maior economia da região, comercializa bastante com os países da América do Sul e apresenta-se como um mercado importante. Politicamente, o Brasil tem um papel protagonista por seu tamanho territorial e sua relação com os países da AL. Sendo assim, a notícia de um crescimento de mais de 5% do Brasil é boa notícia a todos e deixa para trás anos de crescimento lento.

Apesar de o Brasil ter crescido 5,4%, Argentina e Venezuela tiveram índices maiores. O que fazer para crescer mais?

– É importante levar em conta que, além de a Venezuela ter crescido mais nos últimos anos, Argentina e Brasil estão vivendo um período pós-crise profunda. Mas não é o único fator que justifica a taxa de crescimento da Venezuela. Outro relevante é o sistema de inflação, que no Brasil vem seguindo baixa.

Quais os grandes desafios para a América Latina hoje?

– São dois os grandes desafios para a região hoje. Um agente podemos chamar de coesão social, no sentindo de pertencer a um projeto social comum. Devemos melhorar a condição social e isso tem relação com os níveis de desigualdade. Há muitas coisas a serem feitas, como combater as diferenças no acesso à educação, à saúde, e a inadequada proteção social. Enquanto não melhorarmos isso, será muito difícil termos países com maior coesão social. E tanto melhorar o sistema de proteção social quanto combater a desigualdade são tarefas imperativas na AL. O Brasil tem reduzido a desigualdade nos últimos anos, mas ainda segue muito elevada. O segundo tema prioritário à regiao é como aproveitar a atual oportunidade econômica para firmar uma base de crescimento sustentável. Temos muitos recursos naturais, mas em algum momento acabarão e precisaremos pensar em nossa estrutura produtiva e em como favorecer mais a inovação. É preciso investir em recursos humanos para formação. Se não aproveitarmos a oportunidade para melhorar infra-estrutura, nosso capital humano, e destinarmos mais dinheiro para inovação, o tempo passará e não teremos base para um crescimento sustentável.

O que a AL precisa para promover um desenvolvimento maior e de forma sustentada?

– Como no século 19, em que a América Latina era grande exportadora de matérias-primas para o mundo, agora também estamos sendo beneficiados pelo contexto internacional. Creio que a diferença atual é a necessidade de começar a destinar parte dos recursos para infra-estrutura de modo a sermos mais competitivos, com um sistema de inovação que permita agregar mais valor. Fora algumas exceções, em termos gerais a AL não está fazendo esforços nesses campos de infra-estrutura, inovação e recursos humanos como deveria.

Qual a importância da China comércio com a AL?

– A China é basicamente o fator que explica por que o preço das exportações tem subido, por causa da demanda de nossos produtos. É hoje um sócio comercial muito importante para os países da região. A China pode ser considerada o terceiro parceiro comercial do Chile e o quarto de países como Argentina e Brasil. E seguirá expandindo muito, sobretudo com incorporação crescente de muitos consumidores chineses. A demanda chinesa não se restringe a alimentos mas também a produtos industriais e turismo. Calcula-se que em 2020 haverá 100 milhões de turistas chineses pelo mundo. Como é e continuará sendo uma potência mundial, nosso desafio é como aproveitar oportunidades que nos dá um mercado como o chinês para fortalecer o crescimento da região. É, provavelmente, o mais importante parceiro da AL no futuro próximo. Para se ter uma idéia, a classe média chinesa em 2010 será de 290 milhões de pessoas, com um ingresso ajustado por paridade de poder aquisitivo. A classe média alta, cujos ingressos também auxiliarão a paridade de poder aquisitivo, chegará a 520 milhões de pessoas em 2025.

Há mercados que se comparem ao chinês?

– O da Índia também apresenta um potencial de aumento da demanda para os próximos 20 anos. Mas o mercado da China é de especial relevância para qualquer país da AL. Então é preciso que nações da região façam esforço para encontrarmos nicho não apenas para os produtos primários mas também aqueles com maior valor agregado e conhecimento incorporado.

Como considera que o Brasil tem se comportado na atual conjuntura internacional?

– Diria que o Brasil está se saindo muito bem. É sócio estratégico da União Européia e tem uma voz importante nas negociações comerciais. Em nível internacional, sem dúvida, tem sido uma referência importante para a política dos EUA nos últimos anos. O posicionamento do Brasil no cenário global tem sido cada vez mais determinante.

É preciso investir. Mas em que exatamente?

– Primeiro em infra-estrutura, pois se não se tem energia corre-se o risco de um problema de falta energia e o conseqüente aumento dos preços. Depois, nos setores industriais e alimentícios de forma geral. Quando se investe em infra-estrutura há um retorno na economia que gera uma aceleração maior. Mas em termos de infra-estrutura parece que na AL investimentos públicos no setor têm sido muito baixos, e os governos têm de mudar seus planos para esse setor. O México, por exemplo, acaba de anunciar um plano relacionado a isso, mas os outros países também devem aumentar seus investimentos.

Quanto acredita que a AL crescerá este ano? E o Brasil?

– As estimativas até agora chegam à conclusão de que o Brasil terá um crescimento de 4,8%, enquanto a AL crescerá em torno de 4,7%. É parecido com o que está, um pouco mais para baixo.

As commodities podem afetar o crescimento brasileiro?

– Sendo o Brasil um país que exporta commodities, acredito que o aumento do preço desses produtos será benéfico para o país. Se há um aumento no preço das commodities há mais indicativos para o ingresso do Brasil de forma ativa na economia. Mesmo a alta do petróleo pode ser encarada como um fator de crescimento. Não diria que um aumento no preço das commodities seria prejudicial ao Brasil, muito pelo contrário. Lembrando que isso não quer dizer que um movimento desse tipo não terá impacto no preço dos alimentos. Portanto, temos de ter políticas específicas para que as conseqüências desse aumento não tenha um efeito tão direto.

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