Blog do Desemprego Zero

O modelo elétrico

Posted by Beatriz Diniz em 24 abril, 2008

Publicado no: Blog do Nassif

Por Luis Nassif

Em 23 de janeiro, a probabilidade de racionamento era de 22%. Em fevereiro, passou a zero. O que aconteceu nesse período, se nenhuma hidrelétrica foi construída, nenhuma medida tomada? E só mudou o ritmo das chuvas?

O problema maior é o da não uniformização dos critérios de avaliação de riscos no sistema. Essa foi a conclusão unânime dos especialistas que participaram do primeiro painel do seminário do Projeto Brasil sobre Energia Elétrica.

Estavam presentes os principais agentes do sistema.

Os desencontros de informação custarão caro ao consumidor e aos investidores.

A crise foi causada pela interrupção do fornecimento de gás da Bolívia e da Argentina – que tiraram do mercado brasileiro o equivalente a 6,5 mwh.

O Brasil tinha uma alternativa de última instância: desviar todo o gás veicular e das indústrias para produzir energia. Nesse caso, considerando esse gás, o risco de racionamento seria reduzido a zero.

Mas houve a reação do Rio de Janeiro, com liminares na Justiça, e o país descobriu que, mesmo após o “apagão” de 2001, o governo ainda não dispõe de planos de contingência para enfrentar problemas similares.

Com as previsões enlouquecidas, o mercado de energia spot (mercado à vista) desandou. Os preços dispararam. Os geradores – incluindo estatais como a Chesf – seguraram a oferta de energia para ganhar em cima do movimento especulativo.

Com isso, grande parte das distribuidoras ficou “descontratada” – isto é, sem contratos de longo prazo para garantir o suprimento. Acabaram indo comprar no mercado uma energia mais cara, das termoelétricas.

Em 2007 houve substancial redução dos preços de tarifas de diversas distribuidoras. Com isso, foi estimulado o aumento do consumo de seus clientes. No próximo reajuste, enfrentando uma estrutura de consumo maior em suas residências, os consumidores se verão às voltas com reajustes severos nas contas de luz.

Mesmo assim, não há indicações sólidas sobre o processo de formação de preços no mercado à vista, como lembrou Maurício Tomalsquim da Empresa de Planejamento Energético. Com isto, cria-se um problema relevante. Os geradores não querem participar dos leilões, preferindo atuar no mercado à vista.

É o caso da biomassa, visto como o grande reforço ao sistema elétrico. Nos preços indicados para o próximo leilão, segundo Carlos Silvestrin, representante da Única, haverá poucos candidatos a vender a energia.

Além disso, nos próximos anos deverá haver a “descontratação” do restante da energia das hidrelétricas estatais, que já amortizaram seus investimentos. Até hoje, o preço praticado por elas ajudava a manter mais baixo o preço médio da energia no país.

“Descontratada”, a energia será jogada pelos preços de mercado, significando novo impacto sobre a estrutura de preços do setor.

Mas o ponto central do modelo é que, até agora, foi discutido de dentro para fora, por especialistas de grande capacidade – conforme a tradição do setor elétrico brasileiro – mas sem estar subordinado a um projeto de país. Trabalham-se com critérios de eficiência, de garantia de fornecimento, mas não de economicidade. Com isso, gera-se energia cara.

 

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