Blog do Desemprego Zero

Ponto de inflexão na gestão da economia

Posted by Beatriz Diniz em 24 abril, 2008

“Enquanto os mais importantes países de alta renda tropeçam, o quadro para as economias emergentes é de crescimento modestamente reduzido (…)”.

Por Katia Alves

Por Martin Wolf

Publicado no: Valor

Como observa a mais recente edição da “Perspectiva Econômica Mundial” (PEM), do Fundo Monetário Internacional, “a economia mundial penetrou num território novo e precário”. O mais impressionante talvez sejam os contrastes entre a disparada nos preços das commodities e os colapsos no mercado de crédito e entre o crescimento aquecido nas economias emergentes e a recessão incipiente nos EUA. Como chegamos a esse ponto? E o que deveríamos fazer?

A resposta da PEM à primeira pergunta é que a economia dos EUA poderá encolher em 0,7% entre o 4º trimestre do ano passado e o 4º trimestre de 2008. Isso representa uma grande guinada em relação ao aumento de 0,9% ao longo daquele período, projetado no relatório de janeiro da PEM. Mais do que isso, o crescimento deverá ser de apenas 1,6% ao longo dos próximos quatro trimestres. Enquanto isso, o crescimento na zona do euro deverá cair para apenas 0,9% entre o 4º trimestre de 2007 e o 4º trimestre de 2008.

Enquanto os mais importantes países de alta renda tropeçam, o quadro para as economias emergentes é de crescimento modestamente reduzido: 7,5% na Ásia emergente neste ano, com China a uma taxa de 9,3% e Índia com 7,9%; 6,3% na África e 4,4% no Hemisfério Ocidental.

No total, está previsto que o crescimento da economia mundial se reduzirá consideravelmente, de 4,9% em 2007 para 3,7% em 2008 (mensurados a taxas de câmbio pelo poder de paridade de compra). Em termos de crescimento a taxas de câmbio de mercado, a desaceleração é mais significativa, numa queda de 3,7% em 2007, para 2,6%. Ainda assim, o crescimento global se manteria bem acima dos níveis de 2001 e 2002.

Isso, portanto, seria um caso de “terremotos de vastas proporções mas não muitos feridos”. Mesmo assim, essas projeções coincidem com dois eventos colossais: a crise financeira e o choque nos preços das commodities. O primeiro é descrito pela PEM como “o maior choque financeiro desde a Grande Depressão”. O segundo seria o resultado de uma tempestade inflacionária que se avizinha, ou então atingir os limites da taxa de crescimento (ou, mais plausivelmente, de ambos).

Não surpreende que a PEM conclua que os riscos pendem para a expectativa de perda. Tantos podem ser relacionados: agravamento das condições financeiras, riscos inflacionários, choques adversos adicionais no mercado de petróleo e a anulação desordenada dos “desequilíbrios” do sistema de pagamentos globais, especialmente se os investidores decidirem que o Federal Reserve [Fed, o banco central dos EUA] abandonou o seu dever de conservar o poder de compra do dólar.

O que nos levou a esse ponto tem ao menos cinco componentes: o crescimento acelerado das economias emergentes, especialmente a China; a emergência de um gigantesco excedente de poupança em relação a investimento em importantes economias emergentes, particularmente China e países exportadores de petróleo; um período prolongado de baixa inflação e atividade econômica relativamente estável nos países de alta renda; liberalização e inovação financeira; e políticas monetárias de acomodação.

As economias emergentes têm sido as locomotivas do crescimento ao longo dos cinco anos passados: a China respondeu por um quarto; Brasil, Índia e Rússia, por quase outro quarto; e todos os países emergentes e em desenvolvimento juntos por aproximadamente dois terços (mensurados a taxas de câmbio pelo poder de paridade de compra) da expansão mundial. Além disso, observa a PEM, essas economias “são responsáveis por mais de 90% do aumento no consumo de derivados de petróleo e de metais e por 80% do aumento no consumo de grãos desde 2002” (com programas de biocombustíveis escandalosamente desperdiçadores contribuindo com o restante). As economias emergentes também têm sido grandes exportadoras de capital.

O FMI projeta que o superávit em conta corrente agregado dos países emergentes e em desenvolvimento será de US$ 729 bilhões este ano.

O superávit em conta corrente da China foi de 11,1% do Produto Interno Bruto no ano passado. Os preços mais altos do petróleo também deslocaram renda para países com elevadas taxas de poupança. O FMI projeta que o superávit em conta corrente agregado dos países emergentes e em desenvolvimento será de US$ 729 bilhões este ano.

O excedente de poupança tem sido absorvido em sua maior parte pelos países de alta renda com sistemas financeiros liberalizados peritos em canalizar crédito às pessoas interessadas em tomar emprestado na escala necessária: as famílias.

Os EUA têm sido, predominantemente, o mais importante destes países. O Federal Reserve, obrigado a manter a produção interna mais ou menos coerente com o potencial, acomodou o ingresso de capital. Num ambiente de liberalização e inovação financeiras, porém, os excessos resultantes produziram a desordem que vemos hoje. O quê, por fim, deveríamos estar fazendo? A PEM apóia o ativismo monetário do Fed e também recomenda relaxamento ao Banco Central Europeu; ele sugere estímulo fiscal arbitrário em alguns países. Propõe também mais apreciação cambial e taxas de juros mais elevadas para alguns países emergentes, especialmente a China. O que mais ressalta, a meu ver, nessa análise, contudo, são as quatro questões de política de prazo mais longo.

A primeira é se o padrão de pagamentos global pode ou poderá se adequar tranqüilamente sem desencadear outra rodada de crises financeiras, provavelmente em economias emergentes, em mais alguns anos. Seriam estas últimas agora robustas o bastante para acumularem déficits em conta corrente de forma segura?

A segunda questão é como administrar política monetária em meio a um vasto choque de preços de commodities. Os linhas-duras da inflação argumentam que a taxa de crescimento nos preços das demais coisas deve ser empurrada para baixo. O resultado seria um período sustentado de fraco crescimento. Ao mesmo tempo, quanto mais se mantiver a alta nos preços das commodities, mais difícil será resistir a esse argumento.

A terceira é o que fazer com um sistema financeiro que se portou tão espetacularmente mal. Quão radicalmente deverá a regulação ser mudada? Há, de fato, algo que possa ser feito que a torne menos sujeita a crises e que, ao mesmo tempo, se mantenha inovadora e flexível?

Por fim, e mais fundamentalmente, será possível obter um consenso em países de alta renda em prol de uma economia liberalizada e globalmente integrada? Como persuadirmos os cidadãos de que a ascensão dos países emergentes, a mais promissora história da nossa era, deve ser bem-vinda, em vez de ser recebida com rancor ou combatida até, num momento em que eles estão experimentando desordem financeira, queda nos preços das moradias, recessão e disparada nos custos das commodities essenciais?

Este ano é um ponto de inflexão. Dependerá de nós fazê-lo virar na direção certa. Não será fácil.

 

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Uma resposta to “Ponto de inflexão na gestão da economia”

  1. O relatório de mercado do Banco Central do Brasil, o Boletim Focus, continua apontando no sentido de déficits em transações correntes para 2008 e 2008. A elevação da taxa básica de juros, a Selic, e a apreciação do real em relação ao dólar são causas de uma peça de profecia auto-realizável.

    Nesse sentido, uma observação de Martin Wolf me parece interessante: “Seriam estas últimas [as economias emergentes] agora robustas o bastante para acumularem déficits em conta corrente de forma segura?” Eis uma questão para o doutor Henrique Meirelles e o presidente Lula.

    No que diz respeito ao caso brasileiro, a experiência e a boa teoria nos ensinam que a resposta é não. Bom, a não ser que o doutor Meirelles queira promover mais um jantar da ortodoxia tupiniquim. Nada melhor do que o diagnóstico de um prêmio Nobel de Economia:

    “O que torna a especulação lucrativa é o dinheiro proveniente dos governos, apoiados pelo FMI. Quando o Fundo e o governo brasileiro, por exemplo, gastaram aproximadamente 50 bilhões de dólares para manter a taxa cambial em um nível supervalorizado no fim de 1998, para onde foi o dinheiro? Ele não desaparece no ar, acaba indo para o bolso de alguém – grande parte desse dinheiro foi para o bolso de especuladores” (STIGLITZ, J. A globalização e seus malefícios. São Paulo: Futura, 2002. p.245).

    Há tentativas de mudanças no FMI, reconhecido mundo afora como anexo do Tesouro dos EUA, e o momento é outro no mundo. No entanto, um velho pensador disse certa vez que o passado só se repete como tragédia e farsa…

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