Blog do Desemprego Zero

Brasil resistente

Posted by Beatriz Diniz em 25 abril, 2008

O governo afirma que o Brasil está protegido da crise internacional e vários fatores contribuem para isso: indicadores macroeconômicos mais fortes e índice de solvência melhor, no entanto, o país não pode se despreocupar porque se houver um aumento dos preços das commodities (que já vem ocorrendo) será um grande problema para o Brasil…

Por Katia Alves

Por Glauco Arbix

Publicado no: Valor

Há menos de uma década, a economia do Brasil vacilou ao primeiro sinal de instabilidade nos mercados financeiros internacionais. Hoje, em contraste, o país parece imune à turbulência dos mercados globais – ou é o que as autoridades brasileiras crêem.

“A crise do sub-prime ainda não chegou às praias de Copacabana”, proclamou recentemente o ministro das Finanças, Guido Mantega. “Estamos ficando livres de desequilíbrios e, na verdade, estamos reduzindo gradualmente a nossa dependência do ingresso de divisas – isto é fundamental”. Realmente, o governo tem frisado que o Brasil ficará ainda mais protegido, já que as iniciativas de corte de despesas reduzem a dependência sobre os fluxos externos de capital.

A capacidade de o Brasil escapar dos efeitos de uma recessão nos Estados Unidos depende, porém, da magnitude da crise. As autoridades brasileiras realmente têm alguns motivos para alardear que a maior economia da América Latina pode estar mais robusta do que nunca: os indicadores macroeconômicos estão mais vigorosos, os índices de solvência melhoraram e uma combinação de exportações, investimentos e demanda interna vem estimulando a atividade econômica.

Durante os anos recentes de liquidez global abundante, o real se fortaleceu e o Banco Central teve condições de acumular reservas, criando uma proteção contra choques que atingiu perto de US$ 185 bilhões no fim de janeiro, quantia suficiente para cobrir a totalidade da dívida externa do país pela primeira vez na história. Com a manutenção dos fluxos de investimento direto estrangeiro (IDE), a menor vulnerabilidade do Brasil deixa o país numa posição mais vantajosa do que nunca para atravessar a tempestade global – pelo menos por enquanto.

As autoridades do governo admitem extra-oficialmente, porém, que o impacto de uma esperada recessão nos EUA não será insignificante, pois o Brasil não está plenamente protegido dos eventos externos. Além da crise dos financiamentos habitacionais de alto risco, os temores em torno da estabilidade do sistema financeiro dos EUA acarretam sérias implicações para economia mundial.

Além disso, uma recessão ou uma desaceleração nos EUA e na Europa poderiam atingir as exportações brasileiras, reduzindo consideravelmente o superávit da balança comercial do Brasil. Na realidade, apesar de a relevância comercial da América ter diminuído, respondendo por apenas 16% das exportações brasileiras no ano passado, a balança comercial e o crescimento brasileiro geralmente andam de mãos dadas com os EUA e a Europa. Historicamente, eles jamais se descolaram. Ao mesmo tempo, uma desaceleração prolongada nos EUA poderia reduzir a demanda externa vinda de outros mercados.

Felizmente, a Bolsa de Valores do Brasil sofreu menos que outras de mercados emergentes com a turbulência financeira nos EUA e demais lugares.

O cenário poderá se agravar se ocorrer um colapso nos preços das commodities – uma das mais graves ameaças para o Brasil como conseqüência de uma recessão econômica global. Desacelerações na Índia e China poderiam provocar cortes adicionais nos preços das matérias-primas, fragilizando mercados cuja solidez deu sustentação ao vigoroso desempenho da balança comercial do Brasil nos últimos anos. Seja como for, o Banco Central já projetou que o superávit da balança comercial desaparecerá neste ano, com a expectativa de um pequeno déficit.

Felizmente, a Bolsa de Valores do Brasil sofreu menos que outras bolsas de mercados emergentes com a turbulência financeira nos EUA e demais lugares. Recentemente, a bolsa se tornou a mais importante fonte de financiamento para empresas brasileiras, à frente do BNDES, estatal, que concede empréstimos a taxas inferiores às praticadas pelo mercado.

Mas os mercados financeiros do Brasil são muito mais sensíveis aos distúrbios internacionais que a balança comercial, e os fluxos monetários poderão diminuir no longo prazo. Realmente, se a economia mundial se deteriorar mais, o movimento de saída das carteiras de investimento estrangeiras poderá se acelerar, reduzindo o financiamento disponível para as empresas brasileiras e, por fim, afetando a sua capacidade de investir.

Até agora, a confiança dos empresários é ainda maior no setor industrial. Segundo levantamentos internos conduzidos pela Fiesp, o ingresso de IDE atingiu uma alta recorde de US$ 34,6 bilhões no ano passado. De forma otimista, autoridades brasileiras acreditam que o Programa de Aceleração do Crescimento servirá como uma vacina contra a turbulência global e ajudará a reduzir gargalos na economia. A perspectiva de crescimento positivo, na esteira de um ganho estimado de 5,1% no PIB em 2007, é apresentada como uma defesa confiável contra o contágio externo.

Apesar disso, o diabo está nos detalhes. A turbulência global poderá descarrilar a expansão do Brasil. Novos obstáculos para a economia brasileira poderiam levar ao enfraquecimento do crescimento interno e à internalização dos aumentos de preços, trazendo a inflação para dentro do país.

Conseqüentemente, embora se espere que a crise atual tenha efeito relativamente secundário na comparação com convulsões passadas, a possibilidade de contágio a partir da turbulência nos Estados Unidos não pode ser desconsiderada.

Por isso, é essencial que os setores público e privado do Brasil façam o máximo para sustentar o crescimento de longo prazo, tornando o ambiente econômico mais favorável aos negócios. Além disso, só podemos esperar que as perturbações econômicas externas atuais não conduzam a um desastre global.

 

 

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