Blog do Desemprego Zero

De volta às batatas…

Posted by Beatriz Diniz em 25 abril, 2008

Devido ao grande aumento dos preços dos alimentos, Otaviano Canuto, atual vice-presidente para Países no BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento, escreveu o que considera serem os três principais níveis onde atuam as forças propulsoras do aumento dos preços das commodities…

Por Katia Alves

Publicado no Valor

Por Maria Clara R. M. do Prado

Nada poderia ser mais emblemático para ilustrar a atual situação mundial do que a matéria publicada ontem na página de agronegócios deste jornal, com chamada de capa, sobre a importância que voltou a ter a batata no cardápio de largas camadas da população. O texto do jornalista Assis Moreira, correspondente do Valor em Genebra, relembrou o papel da batata no combate à fome em momentos diversos ao longo da história da humanidade.

Afinal, com a alta de 234% no preço do arroz no mercado internacional em apenas um ano, a batata reassume o papel de principal fonte de energia que tantas vezes desempenhou em situações de escassez de alimentos.

O foco da crise nos mercados assume uma nova cara: a motivação dos subprimes começa a ser substituída pela “aglafation”, termo cunhado pelo “Economist” para a inflação das commodities agrícolas. No fundo, esses focos (assim como o aumento de preços dos minerais e dos metais e, ainda, das ações) se relacionam e estão na mesma raiz dos problemas que levam o mundo a temer a pior combinação econômica: queda drástica do PIB com alta desenfreada da inflação.

Cotações em alta são sinal de demanda maior do que a oferta, uma condição mais do que provada, e é claro que isso está nos fundamentos que ajudam a explicar a alta dos preços. Mas outros fatores também têm contribuído. O economista brasileiro Otaviano Canuto, professor da USP e da Universidade de Campinas, que atualmente ocupa o cargo de vice-presidente para Países no BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento -, publicou há três dias um artigo na seção dedicada à América Latina do website de Nouriel Roubini, o RGE monitor, em que procura dissecar o que considera serem os três principais níveis onde atuam as forças propulsoras do aumento dos preços das commodities. “Three Tiers of Commodity Price Drivers” (“Três Categorias de Estímulo aos Preços das Commodities”) é o nome do texto em que Canuto dá sua opinião em caráter pessoal e não como executivo do BID.

Ele sugere que as análises sobre o fenômeno da alta das commodities devem considerar três conjuntos de estímulos, na convicção de que cada produto é afetado de forma diferente e em variados períodos no tempo. “A dinâmica dos mercados financeiros funciona como um denominador comum para as commodities enquanto ativos e tende, portanto, a influenciar seus preços de maneira correlata”, diz.

A segunda faixa, do mercado físico, envolve fatores que tornam a matriz de correlações muito heterogênea. Canuto cita como exemplo o fato de produtos como o trigo e o arroz serem fortemente correlacionados (em termos de preços) no comércio físico, enquanto que a correlação entre o trigo e o suco de laranja é muito mais baixa. Já a do trigo e do petróleo existe indiretamente, na medida em que os preços do barril de óleo afetam os custos de produção do trigo. Pode-se dizer, complementando o exemplo de Canuto, que a correlação de preços entre o milho e o petróleo é hoje muito mais estreita e robusta do que foi no passado em função da alternativa de produção do etanol.

À terceira categoria ele dá o nome de pânico ou ação coletiva, derivada do efeito que têm sobre os preços as expectativas alimentadas a partir de informações sobre o tamanho dos estoques ou sobre as políticas públicas em muitos casos.

Das três, a categoria mais importante talvez seja a financeira. Tem sido a menos analisada no Brasil, não obstante suas causas e efeitos estarem intimamente ligados à evolução das políticas monetárias dos países em geral.

Canuto destaca a posição defendida pelo economista Jeffrey Frankel, professor na Universidade de Harvard, no sentido de que as taxas de juros reais são um importante determinante dos preços reais das commodities. Juros reais baixos afetam a demanda por produtos estocáveis de três diferentes formas: ao alterarem os incentivos de extração no presente ao invés do futuro; pelo desejo de carregamento de estoques e pelo movimento de especuladores entre os contratos de commodities no mercado à vista e títulos do Tesouro. Para Canuto, o determinante financeiro no preço das commodities inclui os ajustes típicos do “overshooting” que o economista já falecido Rudiger Dornbusch pregava para os casos de desalinhamento nas taxas de câmbio. Isto porque a produção física é morosa em suas respostas às mudanças de preços e isto implica em uma propensão a bolhas ocasionais.

A especulação é sustentada no curto prazo pela confluência dos efeitos da taxa de juros real, da liquidez e da busca por maiores rendimentos. O cenário se completa com o “carry trade” – pratica que envolve a tomada de financiamento em moeda de juro real baixo para aplicação em ativos denominados em moeda de alta remuneração real. Por isso, a necessidade de se dar mais atenção às implicações da política monetária.

 

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