Blog do Desemprego Zero

O fim da economia do petróleo barato

Posted by NOSSOS AUTORES em 25 abril, 2008

Raymundo de Oliveira*

O petróleo começou a ser economicamente explorado a partir da segunda metade do século XIX. Iniciando pelos EUA, a produção foi crescendo sistematicamente. Da destilação daquela massa preta, se tirava de tudo: querosene, gasolina, diesel, óleo combustível, gás, plásticos…

Os derivados de petróleo se tornaram indispensáveis e ficamos inteiramente dependentes deles na energia que usamos, em nossas vestimentas, na produção de alimentos, nos multiusos dos plásticos, nos transportes, nas tintas, em tudo.

É olhar para os lados e o que vemos é dele derivado, direta ou indiretamente. E mais, sua extração e uso eram muito baratos. Daí nossa crescente dependência. Fomos abandonando nossos costumes antigos e não sabemos mais viver sem ele.

A produção foi crescendo e nossa dependência se acentuando!

Os EUA eram os maiores produtores e nas primeiras décadas do século XX se tornaram os maiores exportadores de petróleo, com a produção crescendo em ritmo acelerado. O petróleo foi o combustível da grande revolução industrial da virada do século XX, sendo a indústria automobilística o grande indicador da industrialização. Ela é filha do petróleo barato, de fácil extração.

Embora inicialmente concentradas nos EUA, o maior exportador, as descobertas de novas regiões petrolíferas foram se espalhando no mundo.

Entretanto, o petróleo é finito, não oferece duas safras: usou, está usado. Não se planta, não se reproduz. Hoje se estima que, no total, a humanidade recebeu dos deuses cerca de dois trilhões de barris de petróleo utilizável, somando-se o que já se descobriu com o que ainda deve ser descoberto.

Em meados do século passado, década de cinqüenta, um geólogo norte-americano, King Hubbert, analisando as descobertas de petróleo nos EUA, e o histórico das produções dos diversos campos, propôs um modelo matemático e dele concluiu que a produção americana passaria por um máximo no início da década de 70, após o que, passaria a decair paulatinamente. É a chamada Curva de Hubbert, semelhante à Curva Normal.

Seu modelo foi recebido com incredulidade, diante da crescente produção americana. Infelizmente, acertara na mosca. De fato, nos primeiros anos da década de setenta, a produção dos EUA se estabiliza e, logo depois, começa a cair. Isso os forçou a reduzir a produção e importar maciçamente.

Como o uso dos derivados de petróleo continuou a crescer, hoje eles não são mais os maiores exportadores e sim os maiores importadores de petróleo do mundo. A produção americana é uma parcela pequena de seu consumo. Se eles dependessem exclusivamente de suas reservas, elas seriam zeradas em menos de quatro anos. Os EUA possuem 3% das reservas e consomem 25% da produção mundial de petróleo. Daí a necessidade de importar, e importar cada vez mais.

A partir de seu acerto, as teorias do Hubbert passaram a ser levadas a sério. Seu modelo foi reproduzido nas reservas do Mar do Norte e se confirmou.

Hoje, seus seguidores modelam as reservas do mundo e as conclusões são preocupantes: estima-se que o pico da produção deverá se dar entre 2005 e 2010, após o que ela irá caindo aos poucos. Alguns otimistas acham que o máximo da produção só vai se dar em 2015. Devido às oscilações de produção, demora-s um pouco a se perceber a passagem do pico.

Esse máximo representa o momento em que já foi consumida metade das reservas disponíveis. Assim, estando passando pelo pico, é sinal de que já consumimos o primeiro trilhão de barris e entramos na produção da segunda metade.

Claro está que a primeira metade foi a de produção mais fácil, mais acessível, mais barata. O que nos resta é a parte cada vez mais difícil, mais cara.

O ser humano já conhece razoavelmente o subsolo da Terra. Não são grandes as esperanças de enormes descobertas, a exemplo do que houve na primeira metade do século XX. Há novos campos, porém não se espera descobrir um novo Oriente Médio. O máximo das descobertas se deu em 1964. De lá para cá, as grandes descobertas são cada vez menores.

Imaginemos o que acontecerá com o preço do petróleo quando sua produção começar a cair sistematicamente, ano a ano. O preço tende a disparar.

Porém, o consumo de petróleo é bastante inelástico e, inicialmente, deve responder lentamente ao aumento do preço. Em decorrência crescerá o preço de tudo que usa petróleo, isto é, de quase tudo que nos acostumamos a usar.

Vamos ter saudade da época em que o petróleo custava 100 dólares o barril!

Algumas conseqüências da disparada do preço do petróleo podem ser estimadas: o custo dos transportes vai às alturas e o preço dos alimentos também, diante da dependência de derivados de petróleo, na produção de fertilizantes. Em síntese, fica abalada nossa maneira atual de viver, profundamente dependente do petróleo barato.

Vejamos a vida de um americano médio. Ele mora há cem quilômetros de seu local de trabalho, nos “subúrbios”. Lá ele vive em sua casinha, com cachorro e piscina, mulher e dois filhos. Vai para o emprego com seu automóvel que pesa três toneladas, consome um litro a cada seis km e faz duzentos km/h, numa auto-estrada de quatro pistas para cada lado. Isso só é possível pela existência do petróleo barato. Disparando o preço, esse padrão de vida ficará abalado. Porém, Dick Cheney, atual vice-presidente norte-americano, já afirmou: “nosso padrão de vida é inegociável”.

Por muito menos os EUA invadiram o Iraque e estão se apossando de suas reservas de petróleo, a terceira maior do planeta, sob a falsa justificativa de que o presidente Sadam Hussein teria armas de destruição maciça. Porém, o Oriente Médio é região profundamente instável.

Hoje, são grandes as importações de petróleo da Venezuela pelos EUA. A Venezuela está ali do lado, e seu presidente Hugo Chávez não tem demonstrado grandes simpatias pelos atuais governantes norte-americanos.

Diante da inevitável crise do petróleo e do inegociável padrão de vida do americano, temos crise à vista, em especial na fronteira Colômbia-Venezuela. Aos EUA não interessa paz na região. O conflito é a porta de entrada da guerra, acesso mais garantido ao petróleo venezuelano.

Esta crise é só uma das que estão sendo potencializadas pelo início do fim do petróleo barato.

Antigamente, cada povo desenvolvia suas culturas de alimentos em locais próximos a onde vivia. Hoje, graças ao petróleo barato, planta-se soja no Brasil, ou nos EUA, e se consome na China. Isso só é possível pelo transporte barato, petróleo barato.

E o que é pior, perdeu-se a cultura da antiga produção de alimentos distribuída. A produção concentrada, mais eficiente, tende a ser mais homogênea. Dentre as opções, planta-se a que oferece melhor rendimento, abandonando-se as outras, perdendo-se diversidade, reduzindo-se as opções que havia anteriormente. Algumas dessas opções, abandonadas em nome do aumento da eficiência, eram opções adequadas em outras regiões, quando a produção não estava concentrada, como hoje. O ser humano vai ficando com menos grau de liberdade, com menos opções. Com o fim do transporte barato, vai haver necessidade de se voltar a produzir alimentos perto de casa: crise à vista por falta de alimentos, pois foi perdida a cultura da produção distribuída.

O petróleo barato nos empurrou para uma realidade de profunda dependência. Ficamos viciados em seus produtos.

A sociedade de consumo é um dos reflexos desse petróleo barato. Produzimos o supérfluo, consumimos esse supérfluo e precisamos produzir mais dele, para manter a economia funcionando. O petróleo barato tem sido o combustível dessa lógica.

Usamos pouco e mal cada novo produto que chega ao mercado, induzido pela eficientíssima propaganda. Antes de esgotar seu uso, quando ainda tem muito a oferecer, jogamos fora esse produto e adquirimos a nova mercadoria que chega. Frequentemente, o “novo” é o antigo com alguns enfeites supérfluos, apoiado em competente campanha de marketing.

Esse permanente use e jogue fora só tem sido possível pela abundância de energia barata: a queda dos custos de produção alimenta a sociedade de consumo e de desperdício.

O fim da economia do petróleo barato vai abalar essa lógica em que temos sobrevivido. É nossa maneira de viver que fica ameaçada.

Diante da visão da crise do petróleo, recurso reconhecidamente finito e com consumo crescente, tem-se buscado desesperadamente alternativas a ele. Da energia solar à eólica, da nuclear ao carvão, do agrocombustível à economia do hidrogênio.

As energias solar e eólica têm grande potencial de crescimento e serão, seguramente, utilíssimas em pequenas comunidades ou para questões localizadas. Não têm qualquer condição de responder às necessidades da sociedade do automóvel e do desperdício.

A nuclear, com questões de segurança ainda pendentes, tem limitação quanto às reservas existentes.

O carvão, com reservas enormes, se usado para substituir as necessidades decorrentes da queda da produção de petróleo, levará a poluição a níveis terríveis.

A esponja de hidrogênio é muito mais uma transportadora de energia, de baixo rendimento, que uma geradora, em especial para as necessidades decorrentes da previsível queda na produção de petróleo.

No agrocombustível, o exemplo do pró-álcool tem tido indiscutível sucesso na substituição da gasolina. Tentar mundializar essa solução traz o risco de ameaçar a produção de alimentos, num mundo faminto. Entre produzir alimento para pobre ou “gasolina” para carro de rico, a lógica do Capital será implacável e veremos grandes extensões de terra desviadas da agricultura alimentícia. Os preços dos alimentos vão disparar. E, ainda assim, não há terra suficiente para as centenas de milhões de carros.

De fato, o presente que nos deram os deuses, dois trilhões de barris de petróleo, nos viciou. Ficamos escravos da lógica da sociedade de consumo.

É preciso pensar em outra lógica, em outra maneira de nos relacionarmos com a natureza e com os outros seres humanos. É fundamental buscarmos uma sociedade menos dependente de energia, em vez de só procurarmos produzir mais e mais energia. Esse caminho nos está levando a um beco sem saída.

Quando o mundo era suposto infinito, sempre com novas fronteiras a conquistar, a lógica da reprodução expandida trouxe enorme desenvolvimento. O progresso, com todos os seus defeitos, foi fantástico. É olhar e ver o crescimento da produção, a queda da mortalidade infantil, o aumento da vida média do ser humano, onde o próprio crescimento da população é um indicador claro.

Hoje, o “mundo é finito”. Não há mais fronteiras a conquistar. Tivéssemos ido a Marte, Júpiter, Vênus, e a lógica da reprodução expandida poderia permanecer. Num mundo finito, essa lógica se transforma numa metástase da sociedade humana, ameaçando o corpo de que ela própria se alimenta. Em risco a vida humana, nossa sobrevivência em nosso planeta.

Buscar outra lógica na relação homem/mulher com a natureza e com os outros seres humanos é necessidade imperiosa de nossa própria sobrevivência. Não sei se há tempo para essa construção. A barbárie é uma possibilidade não desprezível.

Enquanto há esperança, mãos à obra.

 

* Presidente da Casa da América Latina

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