Blog do Desemprego Zero

“Quem são esses brasileiros?” Como a Vale muda a mineração mundial

Posted by Beatriz Diniz em 26 abril, 2008

“Para diversificar-se além do minério de ferro, a Vale resolveu crescer fora do Brasil…”

*Por Luciana Sergeiro

Publicado em: Valor Online (restrito a assinantes)

Por: Antonio Regalado

Quando a Companhia Vale do Rio Doce chegou à pequena cidade mineradora de Sudbury, no Canadá, um ano e meio atrás, o prefeito John Rodriguez se lembra de ter se perguntado: “Quem são esses brasileiros?”

Agora que a gigante da mineração abre caminho para a linha de frente do mundo internacional dos negócios, mais e mais pessoas fora do Brasil estão descobrindo. Em 2006, a Vale absorveu a maior empregadora de Sudbury, a produtora de níquel Inco, por US$ 17,8 bilhões. A Vale é hoje a segunda maior mineradora do mundo, e a maior produtora de minério de ferro, um insumo básico do aço.

Graças a uma alta de seis anos nos preços das commodities, a Vale gerou o maior retorno total aos acionistas, entre 2002 e 2006, de um grupo de 5.000 empresas do mundo consideradas pela Boston Consulting Group. Os investidores tomaram nota: a ação da Vale foi a terceira mais negociada de uma empresa estrangeira na Bolsa de Nova York no primeiro trimestre deste ano. A Vale anunciou ontem um lucro líquido de US$ 2 bilhões para o primeiro trimestre, uma queda de 8,8% em relação ao mesmo período do ano passado que atribuiu à fraqueza do dólar e a uma queda no preço do níquel.

A alta dos preços do minério de ferro está começando a se tornar uma grande preocupação estratégica para empresas e governos ao redor do mundo. Na Índia, autoridades do governo têm discutido a adoção de novos impostos sobre as exportações do minério para ajudar a controlar a disparada nos preços do aço. Este mês, a maior siderúrgica do mundo, a ArcelorMittal SA, que tem sede em Luxemburgo, informou que queria aumentar seu “controle” sobre a matéria-prima ao suprir 70% de suas próprias necessidades dentro de cinco anos.

Empresas de mercados emergentes como a Vale têm galgado degraus entre as maiores e mais bem-sucedidas companhias do mundo nos últimos anos. Com o aumento da demanda por commodities propiciado pela forte expansão econômica da China, empresas como a siderúrgica russa Severstal e a processadora brasileira de carnes Perdigão SA têm prosperado. Os preços do minério de ferro da Vale subiram em porcentagens de dois dígitos em quatro dos últimos cinco anos, e a alta deste ano, de 65%, deve representar uma receita anual de até US$ 12 bilhões.

Usando sua nova força financeira, essas empresas têm comprado rivais ao redor do mundo. No ano passado, elas fecharam negócios num total de US$ 294 bilhões, ante US$ 40 bilhões em 2003, segundo a firma de pesquisa Dealogic. A siderúrgica brasileira Gerdau SA, por exemplo, comprou a americana Chapparal Steel Co. por US$ 4,4 bilhões. A fabricante mexicana de cimento Cemex SA adquiriu a RMC Group PLC, uma empresa britânica de materiais de construção, por US$ 5,5 bilhões.

Segundo a Dealogic, a compra da Inco pela Vale foi a maior aquisição na história por parte de uma empresa latino-americana. No fim de março, a Vale abandonou sua tentativa de comprar a concorrente suíça Xstrata PLC por mais de US$ 80 bilhões – um acordo que a transformaria na maior mineradora do mundo.

Mesmo nessa turma de rápido crescimento, a Vale se destaca. No ano passado, a companhia contratou 9.281 pessoas no Brasil, elevando o total de empregados no mundo a 124.013 no fim de 2007. Ela extraiu minério de ferro suficiente para encher 50.000 piscinas olímpicas e produziu uma receita de US$ 39,7 bilhões – quase dez vezes o faturamento de 2001.

Entre 2002 e 2006, o retorno médio anual da Vale aos acionistas – valorização da ação mais dividendos – foi de 54,6%, o mais alto entre companhias abertas com valor de mercado de mais de US$ 50 bilhões estudados pela Boston Consulting. A operadora mexicana de celular América Móvil SAB, dona da Claro, foi a número 2, seguida pela americana Apple Computer Inc.

Desde que Roger Agnelli assumiu a presidência executiva, em 2001, a Vale fez uma série de apostas acertadas. Ela abocanhou rivais no Brasil antes da grande escalada dos preços do minério de ferro. Quando o boom chegou, em 2004, estava bem posicionada para tirar proveito.

“Sabendo de antemão, qualquer um teria escolhido o mesmo ‘timing’ da Vale”, diz Ricardo Antunes, um ex-diretor de marketing da Vale que agora trabalha para a operadora portuária LLX Logística SA.

Agnelli, 48 anos, é um executivo obstinado, conhecido pelos abraços calorosos e olhar penetrante. A empresa estima que ele passe 800 horas por ano em aviões, viajando ao redor do mundo para verificar operações e fazer negócios. Scott Hand, o ex-presidente da Inco, disse que deu um conselho ao brasileiro depois da fusão: “Roger, pare e sinta o aroma das rosas de vez em quando”.

Atuais e ex-executivos da Vale dizem que Agnelli pode ser duro com os subordinados. Alguns deles citam o que dizem ser um estilo autocrático e um temperamento explosivo. Mais de 20 executivos deixaram a empresa ou foram demitidos desde a chegada de Agnelli, dizem ex-executivos. Em pesquisas internas da empresa, os empregados dizem que estão sob muita pressão.

Agnelli não estava disponível para uma entrevista para esta reportagem. Marco Dalpozzo, o diretor de recursos humanos da Vale, não nega que Agnelli pode ser duro com as pessoas. “Ele é um cara duro”, diz.

A Vale foi formada em 1942, como uma empresa estatal, com empréstimos do governo americano. Foi parte de um acordo da 2a Guerra Mundial no qual o Brasil concordou em fornecer minérios a fábricas aliadas. Na privatização, em 1997, a Vale foi comprada por US$ 3,3 bilhões por um consórcio que incluía a Companhia Siderúrgica Nacional, bancos e fundos de pensão.

Em princípio, o presidente da CSN, Benjamin Steinbruch, administrou também a Vale, um arranjo que analistas dizem não ter resultado numa visão clara do futuro da empresa. Em 2000, o Banco Bradesco SA, um grande acionista da Vale, instalou um de seus próprios executivos, Agnelli, na presidência do conselho. Ele ajudou a orquestrar uma troca de ações que tirou a CSN do grupo de controle.

“O Bradesco liberou as mãos de um gigante”, diz J. Alberto Arias, um ex-analista de ações que hoje dirige a Arias Resource Capital Management, uma firma de “private equity” especializada em mineração.

A empresa passou a ter uma estratégia mais focada. Gabriel Stoliar, ex-diretor executivo de planejamento da Vale que se aposentou na quarta-feira, lembra que em reuniões de grandes acionistas em 2001, com consultores da McKinsey & Co. orientando a discussão, a Vale adotou um plano simples – o de se tornar uma líder mundial em metais como cobre, zinco e minério de ferro. “Fomos preenchendo as lacunas desde então”, afirma.

O plano não chamou muita atenção no começo. Na época, a mineração era vista como uma indústria em declínio.

Em conseqüência, a Vale enfrentou pouquíssima concorrência quando comprou rivais brasileiras na mineração de ferro. Em 2005, ela era responsável por 91% da produção brasileira de minério de ferro.

A decisão da Vale se mostrou oportuna. As siderúrgicas haviam durante muito tempo ditado os termos nas negociações de preço com as mineradoras. Mas a crescente demanda chinesa virou a mesa. “Ninguém imaginava que ia acontecer o que aconteceu, mas tinha um chinês em cada esquina querendo comprar minério de ferro. Filas e filas de chineses querendo comprar e pagar qualquer preço”, lembra-se Stoliar. Em 2005, o preço que as siderúrgicas pagavam pelo minério de ferro subiu 68,6%, quase dobrando o lucro da Vale naquele ano. A commodity continuou a subir num ritmo vertiginoso.

A maior demanda por metais beneficia as maiores produtoras, que têm condições de fazer os investimentos necessários para abrir novas minas, muitas em áreas remotas de países politicamente instáveis. O custo da mineração também tem subido. De explosivos a pneus para grandes caminhões fora de estrada, que chegam a US$ 15.000 cada, subiu o preço de tudo. A Vale estima que o custo da abertura do Sistema Sul, uma nova mina ainda não aberta, subiu de US$ 2 bilhões alguns anos atrás para US$ 10 bilhões.

“Você tem que ter tamanho”, disse Agnelli em fevereiro, quando discutia os resultados anuais de 2007. “Pequena e média não consegue aumentar a produção no ritmo em que a demanda está crescendo.”

Para diversificar-se além do minério de ferro, a Vale resolveu crescer fora do Brasil.

A Vale “saiu do nada”, recorda-se Rodriguez, o prefeito de Sudbury, a cidade da Inco no Canadá. “Não sabíamos nada sobre eles.”

Os brasileiros conquistaram muitos numa cidade com um histórico de conflitos trabalhistas. A Vale doou US$ 375.000 para um banco de alimentos local e alardeou a importância dos empregados. “Até os contadores diziam: ‘Se vamos ser comprados por alguém, que sejam esses caras'”, diz Mark Cutifani, um ex-executivo da Inco que hoje dirige a mineradora AngloGold Ashanti Ltd.

A Vale teve alguns reveses durante esse período de crescimento. No ano passado, não cumpriu sua meta de produção de minério de ferro pela primeira vez, embora afirme que ficou aquém apenas em 1%. Um acidente portuário atrapalhou as exportações por dois meses. Joaquim Martino, ex-diretor de Carajás, diz que trabalhadores lá reclamam que a mina opera em condições “não ideais”. Martino, que hoje trabalha para uma rival, a MMX, diz que viu fotos de caminhões atolados na lama numa mina, algo que ele afirma nunca ter visto em seus 15 anos lá.

Um porta-voz da Vale diz que Martino é um ex-empregado que trabalha para a concorrência. Stoliar diz que as metas de produção da empresa são agressivas e, apesar de problemas como chuvas fortes, ela está produzindo mais minério de ferro do que nunca.

Como muitas empresas de mercados emergentes, a Vale pode aproveitar os baixos custos domésticos. Mas também enfrenta problemas não compartilhados por concorrentes de economias mais desenvolvidas. Como ex-estatal, a Vale ainda é vista por muitos como um ativo estratégico do Brasil. No ano passado, políticos de esquerda fizeram uma campanha intitulada “A Vale é nossa”, propondo que ela retornasse ao controle do governo.

 

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