Blog do Desemprego Zero

Esso movida a álcool

Posted by Beatriz Diniz em 30 abril, 2008

 “Com a Esso, a Cosan passará a ter um faturamento da ordem de R$ 15 bilhões, consolidando-se como o sexto maior conglomerado de capital nacional”.

*Por Katia Alves

Por Lana Pinheiro e Leonardo Attuch

Publicado originalmente no Dinheiro

Numa vitória histórica do etanol, a Cosan leva a rede americana e faz de Rubens Ometto um player global dos combustíveis.

Com 1,5 mil postos no Brasil, a Esso foi vendida à maior empresa de açúcar e álcool do país por us$ 826 milhões.

Os principais usineiros do País tinham um encontro marcado em São Paulo, na sede da Unica, a entidade de classe que os representa. Quase todos estranharam a ausência de Rubens Ometto, que, com o controle da Cosan, a empresa líder do setor de açúcar e álcool, é o maior sócio do clube. Dois dias depois, o mistério se desfez. De Londres, Ometto começou a telefonar para seus companheiros com uma notícia histórica. Ele havia acabado de assinar a compra dos 1,5 mil postos da Esso no Brasil por US$ 826 milhões, deixando para trás concorrentes de peso como a própria Petrobras e o grupo GP.

Habitualmente frio, Binho, como é chamado pelos amigos, permitiu-se um desabafo. “O negócio será um divisor de águas para o Brasil”, comemorou o empresário, que, aos 56 anos, está dando seu maior salto. Com a Esso, a Cosan passará a ter um faturamento da ordem de R$ 15 bilhões, consolidando-se como o sexto maior conglomerado de capital nacional. E isso representa uma virada surpreendente para um grupo que, no início da década, era o mais endividado de um setor em crise. “A aquisição faz da Cosan uma empresa completa de energia”, disse Rubens Ometto Silveira Mello à DINHEIRO, de Londres, na única entrevista que concedeu após fechar o negócio.  

Leia a seguir a única entrevista que o empresário Rubens Ometto Silveira Mello, dono da Cosan, concedeu depois de adquirir a Esso

DINHEIRO – Qual a importância estratégica da aquisição da Esso para o grupo Cosan?

OMETTO – “Com a aquisição, a Cosan torna- se a primeira empresa de energia renovável verticalizada do mundo. Estamos replicando no etanol a mesma estrutura das grandes empresas tradicionais de energia, que atuam em todos os elos da cadeia produtiva. A Cosan torna-se completa, atuando desde o plantio da cana à venda do etanol ao consumidor final. Esse é um passo estratégico importante, que novamente posiciona a Cosan na liderança do setor de energia renovável, e que também nos ajudará a diversificar nossos negócios.”

DINHEIRO – Como a operação foi montada?

OMETTO – “Assinamos contrato de venda dos ativos de distribuição e comercialização da Esso no Brasil. Vamos adquirir também uma planta industrial no Rio de Janeiro e compramos os direitos de uso da marca Móbil 1, de lubrificantes, bem como de outras marcas da Esso no Brasil. Pagaremos US$ 826 milhões por esses ativos. Ainda estamos avaliando as alternativas para fazer o funding da operação, mas possivelmente usaremos US$ 310 milhões cuja origem foi a adesão de acionistas minoritários ao recente aumento de capital promovido pela companhia. Para o saldo restante, temos caixa, mas queremos também avaliar outras alternativas. O importante aqui é que temos tempo e tranqüilidade para decidir a melhor estratégia, de forma que ela seja feita a custos adequados e no interesse dos nossos acionistas.”

DINHEIRO – Como isso afeta o resultado?

OMETTO – “É cedo para previsões. Agora, entramos em uma fase de transição, em que poderemos estrear e ir consolidando o processo de relacionamento com a rede de postos, empregados, clientes e fornecedores. Será uma fase de troca de experiências e de intercâmbio de valores corporativos. Enxergamos muito potencial de sinergia, em logística, distribuição e capacidade de armazenagem e administração de estoques, mas é prematuro tentar mensurar isso agora.”

DINHEIRO – O Brasil já consome mais álcool do que gasolina. De que maneira isso influiu na sua decisão?

OMETTO – “Nós nunca tivemos dúvida de que o etanol teria um papel cada vez mais relevante na matriz energética brasileira. O Brasil está vários passos à frente quando o assunto é uso de biocombustíveis e hoje a Cosan está na liderança no mercado brasileiro. Ter acesso a redes de distribuição e comercialização é, sem dúvida, um passo importante que nos coloca em posição ímpar para nos beneficiarmos do momento positivo não só do etanol, mas do mercado de combustíveis como um todo.”

“Nunca tivemos dúvida de que o etanol teria um papel cada vez mais importante na matriz energética brasileira”

DINHEIRO – Dizia-se que a operação já havia sido fechada pela Petrobras.

OMETTO – “Obviamente que não. Ganhamos porque fizemos a melhor oferta.”

DINHEIRO – Por que a Cosan decidiu verticalizar suas atividades?

OMETTO – “A verticalização é uma tendência natural. A Cosan é hoje um dos maiores produtores de energia renovável do mundo. Quando olhamos para os grandes produtores de energia, vemos empresas verticalizadas. A verticalização nos aproximará de nossos consumidores finais e permitirá que exploremos mercados correlatos ao do etanol. Poderemos também aproveitar oportunidades de geração de valor que até agora não tínhamos no radar, como o fornecimento de combustível para aviação, por exemplo. A verticalização, por outro lado, não muda radicalmente o modelo de negócios de cada uma das fases da cadeia: a Cosan continuará fornecendo etanol para uma base diversificada de clientes, enquanto a Esso continuará recorrendo a uma gama de múltiplos fornecedores.”

Mais do que uma conquista pessoal, a aquisição da Esso também representa uma vitória histórica do etanol brasileiro, produzido à base de cana-deaçúcar, no momento em que os biocombustíveis sofrem um bombardeio global.   

Da África, o próprio presidente Lula criticou a “leviandade” dos países ricos e culpou o petróleo pela alta dos alimentos. Com a entrada da Cosan no mercado de distribuição de combustíveis, o Brasil passa a ter um cartão de visita para mostrar ao mundo. “É um sonho que estamos concretizando”, disse à DINHEIRO Maurílio Biagi, sócio da Usina Moema. Alguns anos atrás, ele tentou organizar um consórcio de empresas do setor. Eles montariam uma grande distribuidora, que seria presidida por Cláudio Zattar, ex-Ale, e teria a participação de gigantes como Crystalsev e Coopersucar. “Faltava ao etanol uma relação direta com o consumidor”, diz Zattar, hoje na Volvo. E, em todo o setor sucroalcooleiro, a aquisição da Esso foi comemorada. “Se o Binho quiser parceiros, pode contar conosco”, reforçou à DINHEIRO o usineiro Luís Biagi, que é irmão de Maurílio e controla a Santelisa Vale, a segunda maior empresa do setor, atrás apenas da Cosan.

“É um marco para todos os usineiros. Agora sim, podemos competir para valer com a gasolina” Maurílio biagi, sócio da usina moema        

Paulo Diniz diz que a Cosan e a esso terão estruturas separadas. A marca também será mantida nos postos da rede num primeiro momento

O momento para a aquisição também não poderia ser mais oportuno. No mês de abril, pela primeira vez em 20 anos, as vendas de álcool no Brasil superaram as de gasolina. Foi uma margem apertada, mas a diferença deverá crescer cada vez mais. Hoje, 90% dos carros novos vendidos no País são equipados com motor bicombustível. A projeção da Anfavea, associação que reúne as montadoras, é de que a frota de veículos flexíveis salte de 5,5 milhões para 15 milhões de unidades em cinco anos. “Antes, eram as petrolíferas que controlavam as distribuidoras, mas essa tendência pode começar a se inverter”, avalia Jackson Schneider, presidente da Anfavea.

Um sinal desses novos tempos aconteceu no dia em que a Cosan comprou a Esso, quando a inglesa British Petroleum decidiu pagar R$ 100 milhões para adquirir 50% da Tropical Bioenergia, um grupo de usinas em Goiás. “A próxima onda a que assistiremos será a da compra de empresas de etanol por gigantes do petróleo”, prevê o investidor Naji Nahas, que assessora companhias árabes e também o grupo francês Dreyfus, um dos gigantes do etanol no Brasil.

A compra da Esso pela Cosan também tem repercussões macroeconômicas internas. Neste momento, com o barril do petróleo a US$ 120, o governo discute se deve ou não reajustar a gasolina, cujo preço estaria defasado em cerca de 15%. Ocorre que, ao contrário de qualquer outro país, o Brasil é o único que dispõe de uma alternativa energética viável. “O álcool é hoje o maior inibidor de aumentos de preços da gasolina”, diz Maurílio Biagi. “Se a Petrobras pesar a mão, as vendas desabam.” Isso ajuda a entender por que a estatal, que estava associada à distribuidora mineira Alesat, fazia tanta questão de adquirir a Esso. A presidente do conselho, a ministra Dilma Rousseff, havia autorizado a empresa a pagar o preço que fosse necessário, mas nem isso foi o bastante diante da ousadia de Ometto. Outro que ficou frustrado foi o consultor Omar Carneiro da Cunha, ex-presidente da Shell, que assessorava o grupo GP, e havia feito uma proposta de US$ 2,2 bilhões para adquirir a rede da Esso em toda a América do Sul. No entanto, misteriosamente, a empresa mudou as regras do leilão e decidiu fazer a venda em lotes separados.

“Faltava ao etanol chegar à ponta final da cadeia, que é a distribuição”

Cláudio Zattar, ex-presidente da ale

Quem também acabou gostando do resultado foi o próprio corpo funcional da Esso. Na sede da empresa, no Rio de Janeiro, temia-se que houvesse demissões em massa, caso a distribuidora fosse adquirida por grupos já presentes no setor, como a BR ou Ultra/Ipiranga. E havia até antecedentes ruins, como no caso da aquisição da antiga Atlantic pela Ipiranga. Em certas alas do governo, o desfecho também foi visto com um certo alívio. No Conselho Administrativo de Defesa Econômica, órgão que avalia casos de concentração de mercado, haveria resistências a uma compra da Esso pela Petrobras. “Foi um final feliz, benéfico para a concorrência e também para o consumidor”, avalia o ministro de Minas e Energia, Édison Lobão.

Apenas o mercado financeiro não viu com bons olhos a operação. No momento do anúncio, as ações da Cosan chegaram a cair 9% e os analistas ficaram receosos com o nível de endividamento assumido pelo grupo. “É por isso que as empresas vão se manter independentes, com estruturas separadas”, garante Paulo Diniz, diretor-financeiro do grupo. A marca Esso, presente no Brasil há quase um século, também será mantida. Há momentos, no entanto, em que o mercado financeiro é míope. Lá atrás, quando Ometto se endividou e engoliu uma série de usinas, muitos o viram como louco. Depois, quando fez o estrondoso IPO da Cosan, o primeiro de uma produtora de etanol, passou a ser tratado como gênio. “Essa aquisição da Esso é um prêmio a um empreendedor que teve coragem, fez aquisições, consolidou seu setor e agora invade o terreno de uma petrolífera”, diz o economista Paulo Guedes, fundador do Pactual. Gostem ou não do seu estilo, o fato é que Ometto domou o tigre da Esso.

 

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