Blog do Desemprego Zero

Empresas transnacionais e política industrial

Posted by Beatriz Diniz em 4 maio, 2008

Mal-amadas

Thomaz Wood Jr.

Fonte: CartaCapital

A empresa multinacional é uma invenção do século XX, que entrou firme e forte no século XXI. Derrubado o muro e abatidos outros ícones, as múltis avançaram céleres sobre velhos e novos cenários. Sua capacidade de adaptação é notável e a influência na economia, na sociedade e na cultura continua em alta. Apetite para crescer e disponibilidade de capital seguem alimentando fusões e aquisições. Nada no horizonte revela sinais de fraqueza ou de declínio.

Naturalmente, tanto alcance e poder não escapam das consciências mais críticas. O documentário A Corporação, dirigido por Jennifer Abbott e Mark Achbar, lançado em 2003, é um bom exemplo: seu olhar crítico fê-lo transformar-se em peça didática de cursos de Administração de Empresas. O filme descreve, em tom irônico e didático, a gênese e a evolução da grande empresa. O argumento central é que o mau comportamento corporativo – o descaso com o meio ambiente, a exploração de mão-de-obra barata em países pobres, a manipulação do consumidor e práticas ilegais de negócios – não se deve apenas a executivos destrambelhados ou algumas “maçãs podres”. Os desvios, sugerem os autores, vêm de uma personalidade doentia.

A linha narrativa é pontuada pela comparação entre os comportamentos exibidos pelo “personagem principal” e os sintomas associados a um indivíduo psicopata: impermeabilidade em relação aos sentimentos alheios, incapacidade de manter relações duradouras, desinteresse pela segurança dos outros, tendência para mentir ou ocultar a verdade, incapacidade de experimentar sentimentos de culpa e inépcia para se conformar a normas sociais. Cosem a tese Noam Chomsky, Naomi Klein e Michael Moore e outras personalidades conhecidas. O filme tem méritos, mas não pretende ser equilibrado ou neutro. Seu objetivo é registrar o lado escuro da vida corporativa.

Com menos emoção e mais ciência, alguns trabalhos acadêmicos têm sido publicados sobre as grandes empresas. Temas em foco: seus comportamentos e impactos na economia e na sociedade. How Do MNCs Vote in Developing Country Elections?, publicado por Paul M. Vaaler na revista The Academy of Management Journal, número 1 de 2008, traz um amplo estudo sobre o comportamento das multinacionais diante de eleições em nações em desenvolvimento. O autor estudou 35 eleições presidenciais, de 1987 a 2000, em 17 países, inclusive o Brasil.

Muitas equações e exaustivas análises depois, Vaaler comprovou o que o senso comum já lhe indicava: as empresas multinacionais percebem maiores riscos quando um governo de direita tende a dar lugar a um governo de esquerda. Daí reduzem seus investimentos. O inverso também se mostrou verdade: a percepção de riscos diminui e os investimentos crescem quando um governo de esquerda tende a dar lugar a um governo de direita. Quase um século depois dos 12 dias que abalaram o mundo, executivos ainda sofrem taquicardia quando vislumbram um couraçado Potemkin, real ou imaginário, pela proa. Ruim para as empresas, que perdem negócios; ruim para os países, que perdem investimentos.

Outro artigo, The Impact of MNE Strategy on Indigenous Enterprises: Horizontal Spilovers and Crowding Out in Developing Countries, publicado por Jennifer W. Spencer na revista The Academy of Management Review, número 2 de 2008, discute os efeitos dos investimentos realizados por empresas multinacionais em países em desenvolvimento.

Governos costumam oferecer benesses fiscais e outras vantagens a investidores estrangeiros. Espera-se que tais esforços se revertam em geração de riqueza e melhores condições de vida para as populações. Em certas condições, a entrada de novas empresas traz novos produtos, serviços, tecnologias e técnicas de produção. No entanto, críticos apontam que tais investimentos também geram efeitos negativos sobre as empresas locais, provocando maior competição por mercados, por fornecedores e pela mão-de-obra.

Spencer advoga que esses dois grupos de efeitos costumam ocorrer. Os efeitos negativos são mais visíveis a curto prazo e os positivos, mais notáveis a médio prazo. A autora também argumenta que os impactos dependem das condições das empresas locais: quando mais preparadas, elas tendem a ganhar com o novo contexto. Deveria, portanto, ser do interesse dos formuladores de políticas públicas entender os mecanismos e as condições que permeiam tais investimentos, de forma a tomar decisões que maximizem os impactos positivos e minimizem os impactos negativos. A orientação para tais decisões vem do que se denomina, quando existe, política industrial.

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