Blog do Desemprego Zero

Quem confia na sabedoria convencional?

Posted by Rodrigo Medeiros em 5 maio, 2008

Rodrigo L. Medeiros*

Causa certo espanto o silêncio que a coletânea de artigos de John Kenneth Galbraith (1908-2006) provoca. Sob o título ‘Galbraith essencial’ (Futura, 2007), o livro reúne os principais textos do grande economista radicado nos EUA.

Galbraith foi um contestador do senso comum e cunhou expressões famosas como “poder compensatório” e “sabedoria convencional”. Foi antes de tudo um inovador da escola institucionalista e apoiou-se academicamente em intelectuais do porte de Thorstein Bunde Veblen e John Maynard Keynes.

No que diz respeito ao momento brasileiro, suas observações sobre a sabedoria convencional merecem atenção. Segundo Galbraith, a sabedoria convencional apóia-se nas idéias aceitáveis para buscar estabilidade. Sua articulação é prerrogativa de pessoas que buscam influenciar processos.

A sabedoria convencional, no entanto, possui um terrível adversário: a marcha dos acontecimentos. O golpe fatal ocorre quando as idéias convencionais falham notoriamente em tratar certas contingências. As idéias que perdem vínculos com o mundo tornam-se irrelevantes.

O professor Galbraith apresenta uma série de exemplos. Merece destaque algo que a sabedoria convencional vigente no Brasil busca perpetuar como padrão mediocrático de administração pública: o orçamento equilibrado em épocas de crise. Desde o advento do Plano Real, os brasileiros já perceberam que a busca por um orçamento equilibrado representa uma perversa combinação de aumentos nos impostos e drástica redução dos necessários gastos públicos, além de aumento da taxa de precarização das relações de trabalho (desemprego mais informalidade).

No começo da década de 1930, ainda sob os efeitos da crise de 1929, o presidente norte-americano Hoover chamava a atenção para a “necessidade absoluta” do equilíbrio orçamentário. Franklin D. Roosevelt, por sua vez, foi eleito presidente, em 1932, com o compromisso de reduzir o gasto público e alcançar um orçamento equilibrado. Seguindo a sabedoria convencional, a receita deveria cobrir os gastos públicos de qualquer jeito e em qualquer circunstância.

As circunstâncias triunfaram sobre a sabedoria convencional. Já no segundo ano da administração Hoover, o orçamento estava fora do equilíbrio. Ao final do ano fiscal de 1932, as receitas eram inferiores à metade do gasto público federal. Durante a Grande Depressão o orçamento não ficou equilibrado nos EUA. Somente em 1936 as necessidades começaram a triunfar no campo das idéias. John Maynard Keynes lançou ‘Teoria geral do emprego, do juro e da moeda’. Conseqüentemente, a intransigência da sabedoria convencional na defesa de um orçamento equilibrado para todas as circunstâncias e em todos os níveis de atividade econômica foi abalada.

Joseph Stiglitz, em sua Nobel Lecture, chama a atenção para o fato de que a ortodoxia neoclássica não presta, nem mesmo, para resolver problemas cíclicos de desempenho socioeconômico dos países mais desenvolvidos. Para os países em desenvolvimento ela é irrelevante por estar descolada da realidade. Stiglitz questiona inclusive a longa vida da ortodoxia neoclássica e sua influência nas diversas esferas institucionalizadas de poder: “But one cannot ignore the possibility that the survival of the paradigm was partly because the belief in that paradigm, and the policy prescriptions, has served certain interests”. Assimetria de informação nos processos de privatizações e enriquecimento rápido, por exemplo, são fatos que assombram pais e padrastos do Plano Real (leia mais em entrevista com Luis Nassif).

Keynes estava correto. As idéias são de fato mais perigosas do que os interesses explícitos. Principalmente quando elas buscam ocultá-los e lhes dar um status de superioridade científica, transformando-os posteriormente em sabedoria convencional.

 

*D.Sc. pela COPPE/UFRJ, membro da Cátedra e Rede UNESCO-UNU de Economia Global e Desenvolvimento Sustentável e da rede EFE – Economists for Full Employment do Levy Economics Institute of Bard College.

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