Blog do Desemprego Zero

Sinal Amarelo

Posted by Beatriz Diniz em 5 maio, 2008

“João Sicsú faz um alerta para a deterioração das contas externas, porém considera que o governo irá intervir no cenário econômico para evitar uma crise cambial. Aponta que um regime de taxas de juros elevadas e câmbio valorizado levam a economia para uma direção oposta de uma economia de pleno emprego, avançada tecnologicamente, com uma justa distribuição da renda e da riqueza e com um sistema de seguridade social de qualidade e universal.

Segundo Sicsú a “fórmula monetária brasileira” é que juros devem ser elevados quando existe alguma crise à vista. Não há crise no front, o maior reconhecimento disto é o recebimento do chamado grau de investimento. Reconheceu-se, portanto, a solidez do crescimento brasileiro. A crise americana é moderada e não atingirá o Brasil, é esse um outro significado do rótulo de grau de investimento que recebemos. Não há motivos, portanto, para a elevação da taxa de juros no Brasil.”

*Por Luciana Sergeiro

Publicado em:  Carta Capital

Por: Márcia Pinheiro

O diretor de Estudos Macroeconômicos do Ipea, João Sicsú, alerta para a deterioração das contas externas, mas considera que o governo vai agir para evitar uma crise cambial. Ele critica a elevada taxa de juro doméstica, que tende a reduzir o ritmo do crescimento do País.

CartaCapital: O resultado das transações correntes em março surpreendeu até o Banco Central. Atribuiu-se o resultado à maior remessa de lucros e dividendos, principalmente pelo câmbio valorizado. Até quando será possível sustentar a política de juro alto?

João Sicsú: O Ipea está fundamentalmente preocupado em pensar uma estratégia de desenvolvimento nacional, isto é, um caminho para construirmos um país muito diferente do atual. Queremos construir um país democrático, com uma economia de pleno emprego, avançado tecnologicamente, ambientalmente planejado, com uma justa distribuição da renda e da riqueza e com um sistema de seguridade social de qualidade e universal. As políticas macroeconômicas de curto prazo monetária e cambial deveriam ser adequadas à construção de um País com essas características. Definitivamente, um regime de elevadas taxas de juros e de câmbio valorizado está levando a economia para outra direção. A solidez macro econômica do setor externo se reduz e caminhamos no sentido de fazer do Brasil um país que será apenas grande produtor de produtos básicos e de manufaturados de baixo valor agregado.

CC: O comprometimento das contas do setor externo é evidente, em função do câmbio valorizado pela alta taxa de juro. Há saída para essa armadilha?

JS: Em verdade, não existe armadilha. Muito pelo contrário. O Brasil vive uma situação excepcional em termos de capacidade de crescimento e investimento. A taxa de crescimento do investimento tem sido duas vezes maior que a taxa de crescimento do PIB. Nessas condições, o Governo arrecada mais, se torna financeiramente mais sólido. Não só o governo, mas as empresas também crescem, se tornam mais lucrativas. O desemprego se reduz e a formalização do trabalho aumenta. A arrecadação da previdência cresce. A “fórmula monetária brasileira” é que juros devem ser elevados quando existe alguma crise à vista. Não há crise no front, o maior reconhecimento disto é o recebimento do chamado grau de investimento. Essas agências de rating não se antecipam a nada, elas apenas reconhecem o que já foi conquistado. Reconheceu-se, portanto, a solidez do crescimento brasileiro. Os Estados Unidos reduziram o juro mais uma vez essa semana. A crise americana é moderada e não atingirá o Brasil, é esse um outro significado do rótulo de grau de investimento que recebemos. Não há motivos, portanto, para a elevação da taxa de juros no Brasil.

CC: A inflação é um risco para o Brasil?

JS: A inflação é mundial. Existem também ciclos internacionais de preços. Por exemplo, os anos noventa foram anos de aumento da produtividade e de estabilidade monetária mundial. Agora, vivemos basicamente um ciclo internacional de elevação de preços de commodities e, particularmente, de alimentos. Temos que ter políticas para aumentar a oferta de alimentos para o mercado doméstico: precisamos aumentar a produtividade e reduzir os preços nesse setor. Essa é a política antiinflacionária adequada. A elevação de juros somente vai causar uma redução do ritmo de crescimento da economia e uma distorção de preços relativos. A inflação mundial não será combatida com a elevação da taxa de juros pelo Banco Central que é do Brasil, mas reduzirá as vendas, aumentará o desemprego e distorcerá os preços relativos, por exemplo, do sabonete em relação ao feijão (que continuará em alta). Distorções de preços relativos são perigosas porque agem contra os incentivos de investimento sinalizados pelo mercado.

CC: A Fazenda lançou mão do IOF, que provou ser inócuo, pelo tamanho diminuto. O que fazer agora?

JS: O IOF é um instrumento poderoso. Sua alíquota pode ser elevada de acordo as necessidades e circunstâncias. Ele não é um imposto arrecadatório, mas sim um imposto regulatório. O estabelecimento de impostos sobre a entrada de capitais já se mostrou bastante eficaz. O exemplo clássico foi o da economia chilena que estabeleceu um mecanismo de depósito compulsório sobre a entrada de capitais nos anos noventa visando exatamente à estabilização da sua taxa de câmbio. O Chile foi bem sucedido, não podia valorizar a sua taxa de câmbio e, portanto, reduzir os ganhos provenientes da sua valorosa exportação de cobre. Logo, aposto no IOF como um instrumento eficaz. Mas melhor ainda seria proteger o país de uma valorização cambial devido à entrada de capitais também reduzindo a taxa de juros. Poderia se fazer uma dupla ação contra a entrada de capitais especulativos financeiros: reduzir os juros e elevar o IOF.

CC: Mais IOF?

JS: Em princípio não tenho nada contra. Contudo, devo reconhecer que neste caso específico a elevação da alíquota de IOF que seria uma fórmula adequada seria utilizada para proteger a “fórmula monetária brasileira”, ou seja, usaríamos um instrumento do bem para manter a utilização do instrumento do mal e tentar reduzir parte dos efeitos maléficos que gera, neste caso, a valorização cambial.

CC: Há visivelmente uma cisão na cúpula econômica do governo. De um lado, o Ministério da Fazenda. De outro, o Banco Central. O presidente já arbitrou a favor do BC?

JS: O papel do Presidente Lula e de qualquer outro presidente é de arbitrar divergências no interior de seus governos. O presidente Lula é o responsável por todos os erros e por todos os acertos do seu Governo. Por enquanto, os índices de popularidade têm mostrado que o Presidente nos últimos tempos tem acertado muito mais do que errado, isto é, tomou as decisões corretas.

CC: Pode-se prever que o País caminha para uma crise cambial, como ocorreu à época do governo Fernando Henrique?

JS: Não podemos dizer exatamente isso. No front externo, temos diversos instrumentos a serem analisados. Alguns estão mais fracos, outros estão mais fortes. Temos uma quantidade de reservas bastante elevada, temos uma dívida externa (pública e privada) reduzida e aumentou muito o investimento direto estrangeiro no País. Os pontos fracos são o câmbio valorizado e a velocidade com que o saldo em transações correntes se torna negativo. E isto é gravíssimo. Eu diria que a situação é de sinal amarelo, de alerta no front externo. Mas acredito que o Governo vai reagir, vai se antecipar, não vai deixar o navio à deriva como ocorreu na época do governo de FHC.

CC: Muitos analistas acham que o boom das commodities, sobretudo as agrícolas, vai arrefecer. Qual o impacto na balança comercial brasileira?

JS: Esse é um outro perigo que não havia mencionado. Temos que desenvolver uma política de remodelagem de nossa pauta de exportações. É empiricamente observado que commodities tem seu ciclo de preços associado ao ciclo internacional de negócios. Já preços do manufaturados, principalmente aqueles de maior valor agregado, tem seu preços mais estáveis ao longo do tempo nos mercados externos. Sendo assim, um país que deseja ter um front externo sólido não pode basear a sua economia em extrativismo e grandes fazendas. Ademais, este modelo tende a ser concentrador de renda porque gera altos lucros, baixos salários e empregos informais. Ainda mais, exige uma infra-estrutura muito pesada para as exportações que carregam muito peso, pouco valor, e que, portanto, sacrificam demasiadamente estradas e portos. Há de haver uma revolução, temos que compor a nossa pauta com produtos densos de tecnologia que são leves e valorosos e, que portanto, não exigiriam uma infra-estrutura tão pesada e que estaria mais preservada. Caso caminhemos nos caminho da “grande fazenda”, nossa infra-estrutura será sempre limitada, dado que o Brasil é um País de dimensões continentais e ainda pode ampliar muito o tamanho da “fazenda” que pode vir a ser.

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